25.8.13

À Boleia (5)

Um convidado responde a questões nucleares ou essenciais sobre o cinema.
Entrevistado: Tiago Resende, autor do site Cinema 7ª Arte.
Obrigado, Tiago, pela colaboração.

Caminho Largo: Quais os ingredientes essenciais para uma receita saborosa ou a partir do qual um filme se pode tornar bom?

Tiago Resende: D.W. Griffith, o pai da linguagem narrativa, dizia que “para fazer um filme basta uma rapariga e uma arma”. No género Film Noir encontramos muito essa ideia, em ambientes expressionistas, com personagens masculinas anti-heróis, muitas vezes detectives privados que eram corruptos. Em muitos filmes noir o homem era fraco e a sua vida era arruinada quando este era apanhado numa teia de paixão e engano, por personagens femininas com o estereotipo de femme fatale. “The Maltese Falcon” (1930), “The Big Sleep” (1939), e “Sunset Boulevard” (1950) são alguns exemplos de filmes noir que contem precisamente esses ‘ingredientes essenciais’ para um bom filme. Godard materializou a máxima de Griffith em “Bando à Parte” (1964), que é uma homenagem aos filmes policias de Hollywood dos anos 40. Também em “Taxi Driver” (1976), por exemplo, é aplicada esta ideia. Já para outros, um bom argumento faz sempre um bom filme. É certo que existem, desde os primórdios do cinema, formulas para tornar um filme em algo vendável e apelativo a grandes audiências. Isso não o torna necessariamente bom. São formatos que já foram testados e que funcionam. Neste campo, o cinema americano especializou-se bastante a partir dos anos 30. Daí termos hoje realizadores como Quentin Tarantino que consegue ter sempre bons filmes, muito graças aos seus extraordinários argumentos. Há ainda aqueles que defendem que um bom filme deve ser aquele que apresenta uma boa ideia, um bom conceito. Já dizia João Botelho que fazia um filme com apenas uma árvore, por exemplo. O que torna um filme bom? O que para mim é um filme bom, para outra pessoa não o é. Ora, entramos assim no campo do juízo de gosto do espectador. Na minha opinião, um bom filme tem de ser original em todos os campos. No entanto, os campos do conceito e depois do argumento, são, a meu ver, os mais importantes. Se tivermos uma boa ideia temos à partida um bom filme. Tecnicamente o filme pode não ser perfeito, mas se a ideia for original, isso é algo que me interessa. Mas nem sempre isso acontece, pois o lado técnico de um filme é sempre importante. É preciso haver uma boa fotografia, um bom tratamento de som, uma boa montagem, uma boa direção de atores e por fim uma boa realização, que permita que todos estes campos funcionem em conjunto, sempre com o mesmo objectivo, obter um bom filme. Evidentemente que também temos o contrário, ou seja, em que a técnica se sobrepõe ao conceito. Disso está o cinema cheio de exemplos. Basta irmos a Hollywood. É aqui que se distingue muitas vezes o cinema comercial do cinema de autor. Não quer isto dizer que seja uma regra, pois há sempre casos em não verificamos isso.

CL: A figura humana ou o papel do actor é importante e indissociável de qualquer produto cinematográfico?

TR: Penso que a figura humana é importante, sim, mas não é indissociável de um filme. Quando o cinematógrafo foi inventado, em finais do século XIX, fizeram-se grandes investimentos no estudo da natureza, dos animais, das máquinas e sobretudo do homem. É no inicio do século XX que começa a existir uma maior preocupação com o Outro. Uma preocupação com o humano, em termos de estudos sociais, políticos e filosóficos. Daqui surge aliás a antropologia e o cinema etnográfico. Quando falamos da figura humana no cinema estamos a referir-nos aos atores e aos não atores. O papel do ator é importante e é visto no cinema chama-do de ‘ficção’. Daqui surgiu o star system, que criou modas e tendências em figuras masculinas e femininas. Já o papel do não ator está associado ao documentário, ao cinema do real. Normalmente entendidos como não atores profissionais, estes existem desde os inícios do cinema. Na verdade, os primeiros filmes dos irmãos Lumière e do Aurélio Paz dos Reis, por exemplo, podem ser considerados documentários, pela questão dos não-atores. Pois nunca saberemos se eles filmaram as pessoas sem que estas se apercebessem de que estavam a ser filmadas. Embora agora possamos entrar no campo da manipulação do cinema. Sim, porque todo o cinema é manipulado, até mesmo o documentário.

CL: No cinema o entretenimento e a arte devem-se sempre acompanhar um do outro? Ou em alguns casos um pode-se sobrepor fortemente ao outro?

TR: Esta é uma questão muitas vezes debatida. Acredito que há espaço para todos, para o cinema comercial e para o cinema de autor. O cinema começou aliás nos seus primórdios como forma de entretenimento, mas não acredito que no cinema o entretenimento e a arte devem-se sempre acompanhar um do outro. Sempre, não! Normalmente associamos que o gosto da crítica está no cinema de arte e o do público no cinema de entretenimento. No entanto, não é a questão do ‘bom gosto’ que está aqui em causa. Acho que deve haver respeito pelas duas partes. Enquanto que o público prefere ser entretido com realizadores como James Cameron, Christopher Nolan, Michael BayPeter Jackson ou Zack Snyder, já a crítica prefere realizadores como Nanni Moretti, Agnes Varda, Godard, os irmãos Dardenne ou Koreeda, por exemplo. Depois existem muitos exemplos de realizadores em que os dois (entretenimento e arte) se acompanham um do outro, como é o caso de Spielberg, Scorsese ou Kubrick, por exemplo. São casos onde o sucesso de crítica e de público são inquestionáveis. Para mim o cinema deve ser feito e visto como arte, nunca como entretenimento. Não quer dizer que não veja também cinema de entretenimento, pois às vezes também gosto de ser ‘entretido’ e despreocupado com o objecto que está à minha frente. Mas não deve ser um hábito, pois o cinema merece ser visto como algo que nos faz pensar sobre qualquer coisa, como algo que nos faz sentir alguma coisa. Pelo que, não defendo que devemos ver cinema para nos ocupar o tempo e aliviar o olhar. É consumir por consumir. Mas será o cinema uma arte? É uma arte impura! O cinema, sendo uma arte impura, pois apropria-se de todas as outras e tem de imediato um defeito de realismo, será sempre uma representação do real. A verdade verdadeira está sempre escondida, pois há sempre algo que condiciona, pelo que é impossível registar o real. Para o cineasta Robert Bresson, o cinema não é um meio de reprodução, mas de expressão: “I’d rather people feel a film before understanding it”. Eu partilho por completo este pensamento. Para mim o cinema é acima de tudo sentimentos, expressões, emoções, é a vida em imagens. Gosto muito mais depressa de um filme que me faça viver todas essas emoções, do que um que não faça. Para mim, o cinema deve ser sentido.

CL: Em que sentido as novas tecnologias serviram e podem servir a sétima arte?

TR: Elas tem servido para o bem e para o mal. O cinema democratizou-se, é verdade. Se por um lado é mais fácil termos acesso a câmaras de vídeo bastante mais baratas, que nos proporcionam uma qualidade de imagem e de som quase profissionais, o que leva a que toda a gente possa livremente fazer filmes, criando uma grande variedade de oferta cultural; por outro lado, tal como aconteceu com a fotografia, parece que hoje em dia todos são ‘realizadores’, ou seja, toda a gente hoje filma, realiza e edita e partilha o seu trabalho na internet. Não quero com isto dizer que é errado, pois não é. Vivemos numa era de cultura partilhada. Acontece é que as imagens, seja imagens fixas ou em movimento, banalizaram-se. Ela (a imagem) aparece em todo o lado, repetida ou em versões diferentes. O acesso à imagem democratizou-se, é certo, mas tornou-se vulgar, levando o ser humano a não questionar o que vê à frente dos seus olhos. Por outro lado é mais fácil o acesso a um grande numero de filmes, que de outra forma não seria possível. Ainda por cima de forma gratuita, em plataformas online como o Youtube e Vimeo. Um aluno de cinema, por exemplo, pode hoje fazer o curso todo através do Youtube, pois encontra lá todos os filmes que necessita de ver. No meu caso, por exemplo, graças ao Youtube pude ver grandes clássicos do cinema, documentários raros e filmes mudos, que de outra forma teria sido quase impossível. Ou seja, esta democratização do cinema é essencialmente uma coisa boa. Mas mais uma vez existem os contras disto. Vamos menos ao cinema. O modo como vemos cinema distancia-se cada vez mais dessa magia nostálgica do velho cinema. Hoje não vamos ao cinema, vemos um filme em casa, na televisão ou no computador, ou até num tablet ou num smartphone. Assistimos hoje à batalha película vs digital. Em Portugal já praticamente não se filma em película, até porque a Tobis fechou, infelizmente. A sua morte (da película) é apontada para entre 2013 e 2015. Será também possível fazer-se cinema em digital? Será este formato melhor que o analógico? Não há dúvida que o digital veio democratizar o acesso a quem quer fazer e ver cinema. Mas a superior qualidade da imagem é inegável na película, pela sua maior informação e textura. O que será do cinema depois do fim da película? De que cinema falaremos nós? Não sei. Mas a mesma coisa não será certamente. João César Monteiro disse uma vez: “O que acontece quando vivemos sem o cinema? Ficamos mais pobres”. Concordando por inteiro com o que ele diz, acrescentando ainda que, sem o cinema a vida não faz sentido.

CL: Comenta a seguinte citação do realizador Charles Chaplin: "Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação."

TR: Curiosa escolha, a de Chaplin, porque eu cresci com o seu cinema. Precisamente o seu cinema faz-nos sonhar, ergue-nos a imaginação. Tendo sempre os seus filmes abordado questões reais da sociedade humana, como a pobreza, a fome, a guerra, a política, a crise, etc, todas elas foram sempre tratadas com bastante imaginação. Todos os filmes de Chaplin criticavam a sociedade, sempre com recurso ao burlesco e à sátira. Basta vermos o exemplo da sua personagem mundialmente famosa, Charlot. Um vagabundo que se tenta vestir como um rico: calças largas e curtas, sapatos demasiados grandes e rotos, uma bengala e um chapéu de coco. Ou por exemplo a cena em “A Quimera do Ouro”, em que Charlot come os próprios sapatos; ou quando Charlot é confundido como um líder comunista em “Tempos Modernos”; ou a cena final em que um barbeiro judeu é confundido com Hitler e discursa um dos mais belos discursos da humanidade. Chaplin mostra-nos sempre um real imaginado. Este era o mundo imaginário de Charles Chaplina sua realidade. Mas o que é o real? O cinema é e sempre foi uma interpretação da realidade. Nunca o saberemos. “A realidade está aí, para quê manipulá-la”, afirmava o cineasta italiano Roberto Rossellini. Assim, tenta-se através de imagens em movimento recriar essa ‘realidade’. O documentário é o cinema do real e este é o que está à nossa volta. O cinema é a representação do real e se o documentário também o fosse, seria tudo muito mais fácil. Mas acontece que o documentário é a representação do mundo em que vivemos. A realidade é uma construção. Há um olhar que tenta interpretar e ir ao encontro de uma verdade escondida. Esse olhar obedece a um ponto de vista de um criador. Só há duas verdades, a verdade de quem faz o filme e a verdade de quem vê o filme.

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