25.2.14

2ª Edição: 1 Tema, 3 Coordenadas, 1 Posição (10)

As escolhas de:
Diogo Simão, autor do blogue Está Um Buraco Lá Embaixo

Os 3 melhores filmes sobre a Coragem:
The Exorcist (1973)
O Exorcista, William Friedkin

Schindler's List (1993)
A Lista de Schindler, Steven Spielberg

Noviembre (2003)
Achero Mañas

O melhor realizador a explorar a Coragem:
Ridley Scott
"Do what you haven't done is the key, I think."

As escolhas de:
Andreia Mandim, autora do blogue Cinema’s Challenge 
e colaboradora nos sites C7nema e Arte-Factos 

Os 3 filmes que melhor retratam a Coragem:
It's a Wonderful Life (1946)
Do Céu Caiu Uma Estrela, Frank Capra

Stand by Me (1986)
Conta Comigo, Rob Reiner

La Vita è Bella (1997)
A Vida é Bela, Roberto Benigni

O realizador que melhor expressa a Coragem:
Rob Reiner
"People can be ignorant and still have loving, human qualities."

Obrigado, Diogo e Andreia, pelas participações.
Concorda / Identifica-se com estas Posições?

Gravity (2013)

Gravidade, Alfonso Cuáron


O vazio e o silêncio, ou a visão e a audiência. É com estas quatro pedras basilares e duas peças estruturais (ou direi astros elementares?) que o filme começa e se propaga, qual Big Bang em expansão, em incontáveis rotações e translações perspécticas. Lançado que está, desde logo, pelo espaço fora e pela mente dentro do espectador sedento de mergulho e de navegação, a fita como que se desenrola e se direcciona para o infinito, no emaranhamento do universo e do nosso sistema solar, com destino traçado e mais que programado ao alvo (e alto) astral. Se, por um lado, a astrofísica e o espaço cósmico são deveras aliciantes para nos embrenharmos de imediato no desconhecido e no proibido, por outro, a filmagem induzida, ao jeito de um videojogo na primeira e na terceira pessoas, são completamente inebriantes e fascinantes de uma ponta à outra da fita e de um globo terrestre - a nossa amável Terra - que vislumbramos ou que pressentimos sempre e a qualquer altura no grande (e definido) ecrã, segurando-nos e confortando-nos, ao ponto dos extremos se unirem e constituírem tão só a espiral existencial e emocional da nossa fé.

De movimentos de câmera a planos(-sequência) de encher o olho, literalmente, o filme surge a bem dizer como um objecto que não visualizamos, mas sim nos dispomos a receber e a aceitar prontamente, quiçá a nos envolvermos fisicamente, o qual por sua vez se debruça ou se inclina perante o observador - um mero grão no seio do oceano negro e inesgotável - que se sente desse modo totalmente absorto e esmagado em constantes e alucinantes percursos intra e inter-estações espaciais. O início de tamanha aventura é então espantoso, oportunamente de realce, sob um abismal e prolongado plano-sequência raras vezes visto em cinema. O impulso, as deslocações, a agitação e a agilidade digital de todo o processo abraça-nos de tal forma absorvente e extasiada (mais tarde desesperante até) que para nós é como se estivéssemos também ali, com falta de oxigénio, no vácuo e na escuridão, durante aqueles dez minutos, junto aos dois personagens, aos seres que circulam desenfreadamente defronte à plateia em suspensão ou mar de gente em notórias e visíveis vertigens.

Na verdade, inteiramo-nos como verdadeiros manipuladores da acção e, sobretudo, da reacção que simuladamente vamos desempenhando ou vivido timidamente, tal como se pertencêssemos, com efeito, ao filme. Este que, a propósito, não se concebe, por isso, sem um espectador receptivo, sem o sujeito dado o objecto. Dentro de outros motivos, simplesmente porque o quadro, em geral captado no seu inteligente enquadramento, deixa de fazer sentido ou, somente, deixa de ser sentido na sua plenitude (entre muitos exemplos, as atraentes e credíveis paisagens de um planeta com o nascer do Sol, de tão próximo e de tão afastado que se encontra e que se afigura simultaneamente).


Marcado que está o ritmo, e apresentado que estão os protagonistas e o contexto presente à primeira cena, ou diria às primeiras voltas e reviravoltas, o assombro ou a proeminente filmagem não se esgota aqui, existindo sempre em sistemático pano de fundo uma profundidade respeitável e estimável (potenciada com o 3D), hipnotizando-nos e intimidando-nos, com as emoções e as frustrações a acontecer à superfície e em primeiro plano. Este que é (des)construído invariavelmente, ora a poucos centímetros e com o protagonismo, ora a largos metros (ou anos-luz?) e com a irrelevância de um figurante ou de um detalhe, e vice-versa, na exímia composição ocular, quase esférica, que Cuarón nos propõe mediante opacidades e transparências ou reflexões (a Terra vista do capacete reflector, a Terra vista através do vidro da estrutura artificial em órbita, etc).

De exemplos está o filme sobre-carregado deles, desde os estilhaços da destruição a quase nos cegarem, figuradamente - em virtude da proximidade e da ligação aos acontecimentos - à entrada culminante na atmosfera numa fase mais emocional e mais musical. O destaque ainda assim vai especialmente para a conclusão do longo plano-sequência inicial ou para a transformação deste numa subjectiva na personagem, e na cara de Bullock. No começo do descalabro da missão, o remate dá-se segundo um plano que parte do espaço externo para o interno do capacete, ou da máscara, num completo ângulo circular que nos coloca expressamente com a engenheira médica (impelida a astronauta), percepcionando aí toda a angústia e toda a confusão da mesma e, porque não, também de nós mesmos. Aliás, estes frequentes e próximos planos de rosto são mais do que adequados ao medo e à fobia que o espaço sideral, entre astros e planetas, provoca opressivamente em todos, sem excepção.

Outro ênfase incide em duas ou três ocasiões em que a água entra em acção - elemento essencial além do ar, da terra e do fogo (todos eles simbólica e equilibradamente abordados) - aqui através das lágrimas à deriva e das gotas que perpassam ou embatem (alerta para a realidade?) a câmera, o campo e o entendimento, pois então, numa visceral coreografia de corpos. Notável metáfora esta, ou subtil habilidade no tratamento das potencialidades da narrativa, da filmagem e da tecnologia. Por último e apenas por agora, a distinção recai ainda no gesto embrionário, claramente referencial, que a Doutora Ryan Stone perpetua através da posição fetal aquando da entrada na nova e esperançosa estação, e no primeiro contacto com um interior fora do exterior implacável. Momento, diria, único em quase toda a longa-metragem, em que o simbolismo e a mensagem avançam em relação à intrincada, e por vezes perturbadora, diversão e estupefacção virais que alinhamos praticar durante infindáveis minutos.


O jogo é, portanto, complexo e recheado de múltiplas camadas, qual cebola que está pronta a ser descascada, passe a expressão, à medida que o entusiasmo aumenta e a comoção é desencadeada (porventura o choro, dependendo de cada um), bem como ainda quando o efeito de gravidade zero se estabelece, num então permanente exercício ou conversação entre objectos (de)talhados para as três dimensões (com ou sem a visualização em 3D). Camadas de percepção e de apreensão, claro está, não fossem o espaço cénico, os ângulos cónicos, as distâncias geométricas e os exemplos acima referidos verdadeiras ferramentas ou cruciais truques para a sempre surpreendente ilusão, nua e crua, sem artifícios e capaz de questionar a nossa própria sanidade. Trata-se, tão só, da magia do cinema em todo o seu encanto e sedução.

Por certo, estamos perante uma viagem deslumbrante, inquietantemente contagiante e pujante a todos os níveis, dos campos pensados e enquadrados, sempre em movimento, à subjectividade dos respectivos contra-campos, em gestos contínuos e determinados apenas com o intuito de sentir e habitar o espaço prometido, daí que sem uma suposta e aparente ambição de mistificar ou de reflectir perante o disposto. O guião não será, pois, regido maioritariamente por questões filosóficas, mas apesar de tudo tece respostas, por mais simples que sejam, sobre a solidão, a superação e a renovação da vontade em viver, ao jeito de uma nova gravidade que com Ryan voltamos a sentir e a vivenciar.

De qualquer modo, está-se, acima de tudo, sob contornos de aventura e de suspense, brilhantemente filmados e montados, não fosse o argumento, veiculado na sobrevivência ou constantes obstáculos em direcção à redenção, minimalista (e não menor, atenção) em toda a edificação do projecto. Pode-se considerar, a título informativo, algum descrédito para com eventuais imprecisões científicas e para com a narrativa, entre um personagem secundário aquém do patamar e um terço final inclinado e um pouco desalinhado para com o resto do filme, que creio não ser nem justo, nem, sobretudo, ajustável totalmente ao objectivo e linguagens próprias envolvidas. Não que isso diminua ou sequer belisque em demasia a obra do cineasta mexicano, até porque quem parece necessitar de acordar, a propósito e entretanto, somos nós, após tamanho ensaio ou prova visual, onde, de facto, se confere que as imagens valem mais que mil palavras.

Para além da realização e da montagem, nas suas intencionalidades, o filme ainda possui na fotografia, na banda sonora, no som, nos efeitos especiais e na interpretação de Sandra Bullock qualidades acima da média, que mais do que apropriadas, se revelam autónomas e cintilantes elas próprias, muito embora o deslumbramento esteja ou funcione pelo conjunto, como é óbvio. Alfonso Cuáron por seu lado, assume-se cada vez mais como um autor de renome da actualidade, nem que seja apenas porque nos cede, ou melhor, porque nos oferece o que geralmente ansiamos do leque de escolhas ou alternativas disponíveis neste meio artístico - total imersão e abstracção fílmica e pura do meio envolvente e circundante.

Nesse sentido, Gravity é absolutamente exemplar, uma vez que nos transporta telepaticamente, de mãos dadas, para outro universo, para outra noção de experiência inacreditável, levada ao limite e ao que cada um, intervenientes abrangidos, conseguirá suportar, quem sabe, deixar-se levar pelos seus estímulos e sensações. Para no fim, com a personagem a sorrir, nos lembrarmos, nos esforçarmos e nos reerguermos de baixo para cima (em contraste com a sistemática elevação da câmera ao longo de todo o filme), completando assim uma autêntica parábola experimental, entre os eixos horizontal e vertical ou, enfim, entre a terra e o céu.



Jorge Teixeira
classificação: 9/10

24.2.14

2ª Edição: 1 Tema, 3 Coordenadas, 1 Posição (9)

As escolhas de:
Inês Moreira Santos, autora do blogue Hoje Vi(vi) um Filme 
e editora no site Espalha Factos

Os 3 filmes que melhor demonstram a Coragem:
La Passion de Jeanne d'Arc (1928)
A Paixão de Joana d'Arc, Carl Theodor Dreyer

Million Dollar Baby (2004)
Million Dollar Baby - Sonhos Vencidos, Clint Eastwood

The Help (2011)
As Serviçais, Tate Taylor

O realizador que melhor define a Coragem:
Ridley Scott
"I'm a moviemaker, not a documentarian. I try to hit the truth."

As escolhas de:
Daniel Rodrigues, editor no site Magazine HD

Os 3 filmes que melhor reproduzem a Coragem:
The Grapes of Wrath (1940)
As Vinhas da Ira, John Ford

The Truman Show (1998)
A Vida em Directo, Peter Weir

Moonrise Kingdom (2012)
Wes Anderson

O realizador(a) que melhor representa a Coragem:
Kathryn Bigelow
"I always want to make films. I think of it as a great opportunity to comment on the world in which we live."

Obrigado, Inês e Daniel, pelas participações.
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23.2.14

2ª Edição: 1 Tema, 3 Coordenadas, 1 Posição (8)

As escolhas de:
Luís Ferraz, autor do blogue Improviso Ensaiado

Os 3 filmes que melhor transmitem a Coragem:
Salò o le 120 Giornate di Sodoma (1975)
Salò ou os 120 Dias de Sodoma, Pier Paolo Pasolini

Fitzcarraldo (1982)
Werner Herzog

Branca de Neve (2000)
João César Monteiro

O realizador que melhor exprime a Coragem:
Paulo Rocha (1935–2012)
"Depois de se viverem as paixões até aos extremos, depois de se definirem e experimentarem esses extremos, podemos ser livres entre eles. O mal é que as pessoas não querem encarar que a vida não é só a máxima felicidade ou a máxima tristeza, mas que se transita constantemente entre uma coisa e outra. Há momentos de voar e momentos de ir ao fundo. [...] Não há que ter medo do que está à esquina, seja o máximo horror ou o máximo amor."

As escolhas de:
Valar Morghulis, autor do blogue Valar Morghulis

Os 3 filmes que melhor revelam a Coragem:
Schindler's List (1993)
A Lista de Schindler, Steven Spielberg

Men of Honor (2000)
Homens de Honra, George Tillman Jr.

John Q (2002)
Nick Cassavetes

O realizador que melhor filma a Coragem:
Clint Eastwood
"It takes tremendous discipline to control the influence, the power you have over other people's lives."

Obrigado, Luís e Valar Morghulis, pelas participações.
Concorda / Identifica-se com estas Posições?

22.2.14

2ª Edição: 1 Tema, 3 Coordenadas, 1 Posição (7)

As escolhas de:
Bruno Ribeiro, autor do blogue Cinema Curto & Grosso

Os 3 melhores filmes sobre a Coragem:
Schindler's List (1993)
A Lista de Schindler, Steven Spielberg

Hotel Rwanda (2004)
Hotel Ruanda, Terry George

Milk (2008)
Gus Van Sant

O melhor realizador a explorar a Coragem:
Oliver Stone
"In any film there's always a historical implication."

As escolhas de:
Ricardo Rodrigues, autor do blogue Lata Enferrujada 
e editor no site Espalha Factos

Os 3 filmes que melhor retratam a Coragem:
The Wizard of Oz (1939)
O Feiticeiro de Oz, Victor Fleming

Princess Mononoke (Mononoke-Hime) (1997)
A Princesa Mononoke, Hayao Miyazaki

De Rouille et D'os (2012)
Ferrugem e Osso, Jacques Audiard

O realizador que melhor expressa a Coragem:
Harmony Korine
"Cinema sustains life. It captures death in its progress."

Obrigado, Bruno e Ricardo, pelas participações.
Concorda / Identifica-se com estas Posições?

21.2.14

2ª Edição: 1 Tema, 3 Coordenadas, 1 Posição (6)

As escolhas de:
Ana S., autora do blogue Let’s Look?

Os 3 filmes que melhor demonstram a Coragem:
Schindler's List (1993)
A Lista de Schindler, Steven Spielberg

V for Vendetta (2005)
V de Vingança, James McTeigue

Les Misérables (2012)
Os Miseráveis, Tom Hooper

O realizador que melhor define a Coragem:
Stanley Kubrick (1928–1999)
"If it can be written, or thought, it can be filmed."

As escolhas de:
Diogo Tellechea, autor do blogue Mozart sans nous

Os 3 filmes que melhor reproduzem a Coragem:
La Grande Illusion (1937)
A Grande Ilusão, Jean Renoir

Alphaville, une étrange aventure de Lemmy Caution (1965)
Alphaville, Jean-Luc Godard

Stalker (1979)
Andrei Tarkovsky

O realizador que melhor representa a Coragem:
Andrei Tarkovsky (1932–1986)
"My purpose is to make films that will help people to live, even if they sometimes cause unhappiness."

Obrigado, Ana e Diogo, pelas participações.
Concorda / Identifica-se com estas Posições?