12.2.14

Manual de Regras (11)

O bom julgador, por si julga.

12 Angry Men (1957)
Doze Homens em Fúria, Sidney Lumet

9.2.14

À Boleia (17)

Um convidado responde a questões nucleares ou essenciais sobre o cinema.
Entrevistado: Daniel Curval, autor do blogue num filme de godard.
Obrigado, Daniel, pela colaboração.

Caminho Largo: A qualidade abstracta de um filme está mais no argumento ou na realização? Ou em ambas?

Daniel Curval: O termo argumento (scénario) tem as suas raízes literárias no teatro mas rapidamente foi absorvido pelo cinema, como um modelo de orientação e descrição narrativa do que se pretende filmar.
A sinopse ou história, as cenas e até os diálogos podem ser definidos no argumento e numa fase final temos a planificação (découpage) nos planos que irão servir de base à rodagem do filme.
No cinema clássico não há filmes sem argumento, porém argumentos sem filme era e é o que mais há.
Veja-se o caso exemplar da indústria de Hollywood, nos seus tempos áureos, o argumento era o todo poderoso elemento na produção de um filme. A classe dos argumentistas dentro da indústria era fundamental para manter a mesma, e tinha um poder superior à classe dos realizadores (filmmakers).
Aquilo que hoje temos como clássicos do cinema norte-americano eram produzidos em série e os realizadores não passavam de tarefeiros dentro do sistema, mesmo aqueles que agora são (re)conhecidos como o realizador Michael Curtiz e o filme “Casablanca”. Aliás, este filme é um bom exemplo da força do argumento, seja ao nível da produção e da rodagem, como do filme em si.
Com a Nouvelle Vague e mais tarde num cinema mais experimental e de autor, o argumento vai diminuindo a sua importância decisiva na produção de um filme e muitas vezes não passa de um sumário, umas ideias alinhavadas, e muitos filmes nascem ao sabor da liberdade de algum improviso que alguns cineastas adoptam na rodagem de um filme e outros mais rigorosos seguem o argumento planificado à risca. Contudo, a montagem pode também dar um carácter abstracto a um filme.
A qualidade abstracta de um filme (é uma expressão muito discutível) depende muito da forma como o argumento é planificado em termos de imagem, planos e toda a gramática da linguagem cinematográfica de que a realização se apodera e utiliza.
Se pensarmos no cinema em termos de imagem+som, um mau argumento ou uma história banal pode ser salvo por uma realização criativa e uma montagem inteligente. Assim como uma realização medíocre, ou apagada em termos artísticos pode ser salva por um bom argumento, uma história forte. Para concluir, são vários os factores que interferem numa suposta “qualidade abstracta” de um filme.

CL: Atribuis muita importância à montagem num filme? Como se percepciona a sua existência e o seu valor?

DC: A montagem num filme é estruturante, ela é que define a arquitectura do filme em si. Na história do cinema a Montagem teve uma relevância determinante, veja-se o cinema formalista soviético, o expressionismo alemão e todo o cinema do período do mudo. A montagem é que organiza as ligações de todos os planos da planificação e rodagem de um filme, que estabelece quais as relações formais ou semânticas, os raccords, o tempo da imagem/plano.
A montagem pode ser dinâmica, acelerada ou mais lenta, joga com os planos como se fossem palavras, atribui-lhes o ritmo, a harmonia ou o contraste e a fluidez e com a união desses planos constrói as frases que constituem o texto cinematográfico.
Se um filme proporciona uma deleitosa leitura imagética é porque possui uma montagem eficaz, seja pela sua força, confronto ou até quase ausência.
Pessoalmente, prefiro uma montagem que permita observar atentamente a mise-en-scène, o plano e o seu enquadramento, tenho uma especial predilação por longos planos-sequência, que acabam por ser planos com uma montagem intrínseca.

CL: O cinema tem de ter entretenimento na sua essência? ou pode e/ou deve excluir essa componente?

DC: O cinema como manifestação artística, na sua essência, não tem que ter entretenimento, mas se tiver como numa boa comédia ou filme de aventuras ou um western, primeiro que seja bem feito, que não trate os espectadores como ingénuos ou outros qualificativos mais estúpidos. Prefiro um cinema que me provoque a reflexão, mas não rejeito o bom cinema de entretenimento (seja lá o que isso for), bem pelo contrário. Todavia, julgo que só o cinema norte-americano tem essa capacidade única de fazer bom cinema sem excluir o entretenimento. Há casos de excepção em algum cinema Asiático, da América Latina e até Europeu, mas penso que a indústria de Hollywood é exímia a produzir excelente cinema de entretenimento nos vários géneros cinematográficos. E quando os europeus tentam imitar esse cinema não lhes chegam aos calcanhares porque não possuem o savoir-faire do “the show must go on” nem o know-how do espectáculo. O entertainment cinema europeu é quase todo remendado do estilo à lá americana. De vez em quando lá aparece um filme europeu que se destaca como um entretenimento bem feito e que agrada a um público generalista. Contudo, tenho para mim que “Recordações da Casa Amarela” (1989) de João César Monteiro é um exemplo perfeito de um grande filme de autor, aliado a uma vertente de comédia lusitana. Se quisermos ser condescendentes este é o entretenimento que se exige ao cinema europeu.

CL: O conhecimento e a influência de toda a história do cinema é imprescindível para o sucesso e para a qualidade de um filme? Concretamente, porquê?

DC: Bastaria responder a esta questão unicamente com a palavra «Não», obviamente que não é imprescindível. O conhecimento da história do cinema pode ajudar, ou até pode ser prejudicial se influenciar em demasia, e apenas incutir a produção de pastiches. Porém, um conhecimento crítico da história do cinema é quase sempre uma mais valia seja na produção e realização de um filme ou na sua avaliação como espectador. Evidentemente que um cinéfilo ou um crítico só poderá reconhecer e avaliar justamente ao atribuir qualidade a um filme se possuir vastos conhecimentos sobre a história e a estética do cinema. Isto sem esquecermos que as idiossincrasias estão sempre presentes na produção/realização de um filme, assim como na sua recepção por parte do espectador, seja ele cinéfilo ou crítico ou muito simplesmente uma pessoa que gosta de ver filmes. Já o sucesso é coisa que só interessa ao merchandising e na maior parte das vezes não reflecte a real qualidade do filme (ou a falta da mesma).

CL: Comenta a seguinte citação do realizador Jean-Luc Godard: "Fotografia é verdade. Cinema é verdade vinte e quatro vezes por segundo."

DC: Na brincadeira, costumo dizer que o nome artístico completo deste grande cineasta é Jean-Luc “Boutade” Godard, ele é: le roi des boutades. Dos ditos espirituosos e inteligentes, hiperbólicos, alegóricos e quase parabólicos. Esta afirmação de Godard é um dos grandes exemplos da sua atitude de agente provocador, o que ele pretende, e faz isso muito bem, é pensar com as imagens e os sons através da arte, da literatura, do cinema e da história. Estas afirmações não são axiomáticas, são provocações à reflexão individual. Em particular esta que é citada é de uma paixão exacerbada pelo cinema, isto é, JLG reforça a importância do cinema como uma verdade absoluta, ora sabemos que isto é uma hipérbole cinéfila, porque nem a fotografia (imagem fixa) é a verdade e muito menos o cinema na sua repetição (imagem em movimento). A imagem fotográfica na captação não está separada de uma interpretação individual nem do aparelho/dispositivo que a regista e o mesmo se passa com o cinema. Se com a película (analógico) a manipulação da verdade sempre existiu, agora com o digital a verdade está extrapolada na sua manipulação. A questão filosófica do que é a Verdade e a suposta Realidade transcende a fotografia e o cinema. Os dixits de JLG são como pedras de arremesso para uma boa discussão cinéfila, incitam a uma reflexão sobre o cinema e a história, mas não são nenhum fiel depositário da verdade, e ainda bem.

8.2.14

Cinema Bloggers Awards 2014: Nomeados



Aí está a 2ª Edição dos Cinema Bloggers Awards, prémios que distinguem o que de melhor estreou ao nível cinematográfico durante o ano no nosso país. Desta feita, os CBA estão mais abrangentes e originais que nunca, tendo em conta a renovação e a actualização que evidenciam na sua estrutura. Este ano, novamente dezenas de jurados (do qual faço parte) seleccionaram e nomearam, segundo os próprios, os melhores filmes estreados em Portugal ao longo de 2013 em diversas categorias. Estas que foram, precisamente no seguimento da tal renovação, alteradas (e melhoradas) relativamente à edição passada. Sem mais demoras, abaixo listam-se então todos os nomeados nas respectivas categorias, com particular destaque no foco ao cinema português. Partilha-se ainda complementarmente um vídeo repetindo as nomeações. Os vencedores serão divulgados, após nova votação por parte dos jurados, dia 4 de Abril. Para mais informações seguir para o site oficial aqui.

Melhor Filme (nacional)
Até Amanhã, Camaradas
Até Ver a Luz
La Cage Dorée (A Gaiola Dourada)
E Agora? Lembra-me
É o Amor

Melhor Curta-Metragem (nacional)
Branco
Gambozinos
Na Escola
O Coveiro
Redemption

Melhor Interpretação Masculina (nacional)
Gonçalo Waddington – Até Amanhã, Camaradas
Jeremy Irons – Comboio Noturno para Lisboa
Joaquim de Almeida – La Cage Dorée (A Gaiola Dourada)
Nuno Melo – Branco (curta)
Pedro Hestnes – Em Segunda Mão

Melhor Interpretação Feminina (nacional)
Anabela Moreira – É o Amor
Carla Chambel – Quarta Divisão
Leonor Seixas – Até Amanhã, Camaradas
Maria Vieira – La Cage Dorée (A Gaiola Dourada)
Rita Blanco – La Cage Dorée (A Gaiola Dourada)

Melhor Realização (nacional)
André Gil Mata – O Coveiro (curta)
João Nicolau – Gambozinos (curta)
Joaquim Pinto – E Agora? Lembra-me
Luís Alves – Branco (curta)
Ruben Alves – La Cage Dorée (A Gaiola Dourada)

Melhor Argumento (nacional)
Até Ver a Luz
La Cage Dorée (A Gaiola Dourada)
Branco (curta)
Gambozinos (curta)
O Coveiro (curta)

Melhor Filme Europeu
The Hunt (Jagten) (A Caça)
La Cage Dorée (A Gaiola Dourada)
La Vie d'Adèle: Chapitres 1 et 2 (A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2)
Blancanieves (Branca de Neve)
Le Passé (O Passado)

Melhor Filme Norte-Americano
Inside Llewyn Davis (A Propósito de Llewyn Davis)
Beasts of the Southern Wild (Bestas do Sul Selvagem)
Django Unchained (Django Libertado)
Frances Ha
Gravity (Gravidade)

Melhor Filme Asiático
A Touch of Sin (Tian zhu ding) (China - Um Toque de Pecado)
Like Someone in Love
In Another Country (Da-reun na-ra-e-seo) (Noutro País)
The Grandmaster (Yi dai zong shi) (O Grande Mestre)
Like Father, Like Son (Soshite chichi ni naru) (Tal Pai, Tal Filho)

Melhor Filme do Resto do Mundo
No (Não)
O Som ao Redor
Adore (Paixões Proibidas)
Post Tenebras Lux
Animal Kingdom (Reino Animal)

Melhor Realizador(a)
Abdellatif Kechiche – La Vie d'Adèle: Chapitres 1 et 2 (A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2)
Alfonso Cuarón – Gravity (Gravidade)
Ethan Coen e Joel Coen – Inside Llewyn Davis (A Propósito de Llewyn Davis)
Quentin Tarantino – Django Unchained (Django Libertado)
Ron Howard – Rush (Rush - Duelo de Rivais)

Melhor Argumento
Before Midnight (Antes da Meia-Noite)
Inside Llewyn Davis (A Propósito de Llewyn Davis)
La Vie d'Adèle: Chapitres 1 et 2 (A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2)
Django Unchained (Django Libertado)
Frances Ha

Melhor Filme de Animação
Frozen (Frozen - O Reino do Gelo)
Despicable Me 2 (Gru - O Maldisposto 2)
Monsters University (Monstros: A Universidade)
The Croods (Os Croods)
Arrugas (Rugas)

Melhor Actor
Daniel Day-Lewis – Lincoln
Joaquin Phoenix – The Master (The Master - O Mentor)
Mads Mikkelsen – The Hunt (Jagten) (A Caça)
Matthew McConaughey – Mud (Fuga)
Oscar Isaac – Inside Llewyn Davis (A Propósito de Llewyn Davis)

Melhor Actriz
Adèle Exarchopoulos – La Vie d'Adèle: Chapitres 1 et 2 (A Vida de Adèle:Capítulos 1 e 2)
Cate Blanchett – Blue Jasmine
Jennifer Lawrence – Silver Linings Playbook (Guia para um Final Feliz)
Naomi Watts – Lo Imposible (O Impossível)
Sandra Bullock – Gravity (Gravidade)

Melhor Actor Secundário
Barkhad Abdi – Captain Phillips (Capitão Phillips)
Christoph Waltz – Django Unchained (Django Libertado)
Daniel Brühl - Rush (Rush - Duelo de Rivais)
Leonardo DiCaprio – Django Unchained (Django Libertado)
Philip Seymour Hoffman – The Master (The Master - O Mentor)

Melhor Actriz Secundária
Amy Adams – The Master (The Master - O Mentor)
Anne Hathaway – Les Misérables (Os Miseráveis)
Jacki Weaver – Animal Kingdom (Reino Animal)
Léa Seydoux - La Vie d'Adèle: Chapitres 1 et 2 (A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2)
Sally Hawkins – Blue Jasmine

Melhor Guarda-Roupa
Django Unchained (Django Libertado)
Lincoln
Les Misérables (Os Miseráveis)
The Great Gatsby (O Grande Gatsby)
The Hobbit: Desolation of Smaug (O Hobbit: A Desolação de Smaug)

Melhor Fotografia
Inside Llewyn Davis (A Propósito de Llewyn Davis)
Django Unchained (Django Libertado)
Gravity (Gravidade)
Lincoln
The Grandmaster (Yi dai zong shi) (O Grande Mestre)

Melhor Montagem
Zero Dark Thirty (00:30 A Hora Negra)
Captain Phillips (Capitão Phillips)
Django Unchained (Django Libertado)
Gravity (Gravidade)
Lincoln

Melhor Banda-Sonora
Inside Llewyn Davis (A Propósito de Llewyn Davis)
Django Unchained (Django Libertado)
Gravity (Gravidade)
Les Misérables (Os Miseráveis)
The Great Gatsby (O Grande Gatsby)

Melhores Efeitos Especiais
Pacific Rim (Batalha do Pacífico)
Gravity (Gravidade)
Man of Steel (Homem de Aço)
The Hobbit: Desolation of Smaug (O Hobbit: A Desolação de Smaug)
Star Trek Into Darkness (Além da Escuridão: Star Trek)

Melhores Efeitos Sonoros
Pacific Rim (Batalha do Pacífico)
Django Unchained (Django Libertado)
Gravity (Gravidade)
Man of Steel (Homem de Aço)
The Hobbit: Desolation of Smaug (O Hobbit: A Desolação de Smaug)

Melhor Caracterização
Hitchcock
Lincoln
Les Misérables (Os Miseráveis)
The Hobbit: Desolation of Smaug (O Hobbit: A Desolação de Smaug)
Rush (Rush - Duelo de Rivais)

Melhor Direcção Artística
Django Unchained (Django Libertado)
Gravity (Gravidade)
Lincoln
Les Misérables (Os Miseráveis)
The Great Gatsby (O Grande Gatsby)


CCOP: Top 20 de 2013



O Círculo de Críticos Online Portugueses atribuiu a Before Midnight (Antes da Meia-Noite) a melhor classificação do ano, entre todos os filmes estreados comercialmente em 2013 e votados pelos membros. O filme recebeu a nota de 8,82; uma nota ligeiramente inferior ao primeiro classificado de 2012: Tabu (com 8,89). Em segundo lugar segue-se Short Term 12 (Temporário 12) com 8,70; enquanto que La Vie d'Adèle - Chapitres 1 et 2 (A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2) finaliza o pódio, com a nota média de 8,58. Stories We Tell (Histórias Que Contamos), na quarta posição, é o documentário com a melhor pontuação de sempre entre o CCOP (8,57 em comparação com os 7,80 de Shut Up and Play the Hits - O Fim dos LCD Soundsystem, o ano passado). Rugas surge na quinta posição: com a nota de 8,50 é o filme de animação melhor classificado (ParaNorman conseguiu, em 2012, a nota de 7,57), sendo também o filme de produção espanhola com melhor classificação. Este ano, A Última Vez Que Vi Macau é o único filme português que figura no TOP 50 do CCOP.

Para consultar todos os tops mensais anteriores ou o top dos piores filmes do ano (também encerrado), ou ainda o resto do top abaixo partilhado basta ir ao site oficial do Círculo de Críticos Online Portugueses aqui e aqui, respectivamente. Eis então o top 20 dos filmes, com suficiente amostragem, estreados em Portugal durante o ano de 2013, ou se quisermos, o top referente às Melhores Classificações:

19. Searching for Sugar Man (2012)
À Procura de Sugar ManMalik Bendjelloul | 7,92
19. Gravity (2013)
Gravidade, Alfonso Cuarón | 7,92
17. Blue Jasmine (2013)
Woody Allen | 7,93
17. The Master (2012)
The Master - O Mentor, Paul Thomas Anderson | 7,93
16. Prisoners (2013)
Raptadas, Denis Villeneuve | 8,00
14. Rabbit Hole (2010)
O Outro Lado do Coração, John Cameron Mitchell | 8,10
14. Blancanieves (2012)
Branca de Neve, Pablo Berger | 8,10
13. The Hunt (Jagten) (2012)
A Caça, Thomas Vinterberg | 8,25
12. Django Unchained (2012)
Django Libertado, Quentin Tarantino | 8,28
11. Frances Ha (2012)
Noah Baumbach | 8,30
10. No (2012)
Não, Pablo Larraín | 8,31
9. O Som ao Redor (2012)
Kleber Mendonça Filho | 8,33
7. Le Passé (2013)
O Passado, Asghar Farhadi | 8,38
7. Beyond the Hills (Dupa Dealuri) (2012)
Para Lá das Colinas, Cristian Mungiu | 8,38
6. Inside Llewyn Davis (2013)
A Propósito de Llewyn Davis, Ethan Coen e Joel Coen | 8,42
5. Arrugas (2011)
Rugas , Ignacio Ferreras | 8,50
4. Stories We Tell (2012)
Histórias Que Contamos, Sarah Polley | 8,57
3. La Vie d'Adèle (2013)
A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2, Abdellatif Kechiche | 8,58
2. Short Term 12 (2013)
Temporário 12, Destin Cretton | 8,70
1. Before Midnight (2013)
Antes da Meia-Noite, Richard Linklater | 8,82

7.2.14

31.1.14

Cenas (9)

Revolutionary Road (2008), Sam Mendes


Tremendo exemplo da força da representação, do vigor das personagens e do poder dos actores ou, noutra perspectiva, do esforço e da firmeza do realizador na direcção destes mesmos, num exercício cinematográfico mais teatral e contemplativo que propriamente inventivo. Se quisermos, mais altruísta e paciente que rigorosamente introspectivo e exaltado, deixando, por isso, respirar o diálogo e o seu rumo em direcções e sentidos altamente imprevisíveis e angustiantes.

Particularmente, os últimos planos a empregarem-se e a dedicarem-se à personagem de Kate Winslet, sempre em primeiro plano, são deliciosos, vorazes até, de tão intensos e minuciosos que se enquadram, tal como a profundidade, através do contraste e da (não) definição, adquire contornos cénicos e de contexto deveras vibrantes e culminantes de toda uma situação sensível ou, enfim, de toda uma discussão inflamável. Grande Leonardo DiCaprio, grande Kate Winslet, grande Michael Shannon e grande Sam Mendes, no mínimo, por toda a energia que propagam nesta espantosa cena.

27.1.14

À Boleia (16)

Um convidado responde a questões nucleares ou essenciais sobre o cinema.
Entrevistado: Hugo Gomes, autor do blogue Cinematograficamente Falando....
Obrigado, Hugo, pela colaboração.

Caminho Largo: Habitualmente como avalias, estruturas e classificas todo e qualquer filme? Há sempre algum ponto de partida ou oscila de caso para caso?

Hugo Gomes: A avaliação e consideração dos filmes nas minhas críticas e textos deriva de vários factores, como também das minhas necessidades cinematográficas. Com isto saliento que não avalio os filmes por iguais, existe sempre uma apreciação para os diferentes géneros, estilos, intenções e nacionalidades. Como por exemplo, uma comédia tem que funcionar não por via dos seus gags mas pelos seus personagens e argumento, o terror tem que saber arrepiar ou em todos os casos criar novas fronteiras, nos blockbusters aprecio a modéstia, se existir, e nos seus objectivos como entretenimento e no cinema de autor, esse, o qual tenho mais cuidado na apreciação, tem que saber a acima de tudo comunicar com o espectador. Porém e como tenho reparado ao longo da minha "viagem" pelo cinema, sou um aficionado não pelo argumento em si, mas pela forma como é exposta, a narrativa. Talvez seja por isso que estou constantemente a abordar a narrativa dos filmes por "tu", a sua planificação e os seus diversos ritmos. Quantos às notas, admito que tento ser o mais cuidadoso possível, o qual são dadas diante daquilo que exprimi em texto. Esforço em ser imparcial, mas acima de tudo detentor de uma opinião independente e persistente.

CL: Na sua essência e no seu conceito, o que é para ti o cinema? Mais arte ou mais entretenimento?

HG: Esse é sim, a questão das questões para qualquer cinéfilo e consoante a resposta, aquilo que o define. Eu penso que o cinema, acima de tudo é uma interacção com o público, uma forma corrente de espalhar a sua mensagem, as suas intenções e visões. É uma arte polivalente, versátil e multifacetada que tão bem funciona como "peça de museu", como também "circo". E é nessas temáticas que se concentra a verdadeira essência do cinema, ele é como barro moldado por diversas mãos, o qual são sujeitas a diferentes “impressões digitais” que permanecem salvaguardados para a posteridade. Entretenimento ou arte, o cinema não se fica por uma única posição, e é isso que o distingue.

CL: Como diferencias genérica, temática e conceptualmente Hollywood do resto do mundo, em especial do Cinema Europeu? Os seus objectivos e as suas motivações, à partida e à chegada, conferem-lhes maior ou menor qualidade?

HG: O grande problema de Hollywood é o facto de se assumir como uma indústria de entretenimento, uma “fábrica” capitalista que se esconde por entre o glamour e o brilhantismo. E tal como uma “fábrica”, onde o negócio soa como o elemento predominante da produção, o profissionalismo é a preocupação e para isso há que conformar com a fórmula. Infelizmente nos dias de hoje, o cinema de Hollywood é composto por fórmulas, modelos académicos, lugares-comuns ou simplesmente os mesmos esquemas narrativos, tudo isto satisfaz o espectador, aliás se encaramos a realidade em linguagem de restaurantes, podemos comparar a grande parte do cinema vindo dos cantos do "Tio Sam" como autênticos pratos de fast-food, são populares, fáceis de digerir e deixam no mínimo as audiências satisfeitas, mesmo que a fome "cinematográfica" não esteja por completo saciada. Ódio gradual dos grupos elitistas e puristas, confesso que cada vez mais sinto desprezo pelo cinismo de Hollywood, temos que acima de tudo admitir que muita da linguagem cinematográfica e da tecnologia e práticas capaz de elaborar novos campos narrativos e fílmicos advém desse cinema norte-americano de requinte. Ou seja, por um lado temos muito que agradecer e a dever a Hollywood. Quanto à Europa! Ao contrário daquilo que muitos pensam, o cinema é originariamente europeu, os irmãos Lumiére foram os responsáveis pela invenção do cinematógrafo, mecanismo pelo qual foi possível projectar as primeiras imagens em movimento e com isso a expansão da Sétima Arte propriamente dita. Durante muito tempo, a Europa (mais particularmente a França) eram as Hollywoods da altura do cinema mudo, as constantes inovações e as fronteiras da tecnologia em si. Em consequência da 1ª Guerra Mundial, o cinema europeu ficou badalado e devastado pelo panorama social que se vivia, o desfecho do conflito ditou a soberania do cinema. Enquanto a Europa tentava "renascer" dos escombros e da "humilhação", os EUA tinha agora o poder sobre a capital do Velho Mundo, o retardamento de um levou ao avanço de outro. Mas felizmente e tendo em conta aquilo que vivemos e experienciamos, o cinema europeu conseguiu dar a volta e duas uma, ou aspira nas fórmulas hollywoodescas ou transcende de um estilo próprio. Ao contrário da chamada "fabrica dos sonhos", o cinema do Velho Mundo é maioritariamente mais amargurado, cinzento, realista e existencial. Apenas temo que esse padrão se instale por completo na sua essência.

CL: Nesse sentido, onde enquadras o Cinema Português? Por onde se deverá enveredar para o mesmo se autonomizar e se divulgar mais?

HG: O problema do cinema português é que é um cinema imaturo que teve à força de acompanhar o desenvolvimento dos grandes. A nossa aposta cinematográfica foi tardia, aliás limitada pela nossa ditadura que impediu um desenvolvimento gradual do nosso património cinematográfico. Tal se notou também na mentalidade dos nossos espectadores, que se agravou (e ainda agrava) com a fraca cultura cinéfila, ou a ausência de uma educação nesse ramo. É triste ver um país que cada vez mais abandona as nossas raízes culturais, apesar do cinema nunca ter tido lugar no programa educacional das escolas. Devido a isso temos um leque de uma audiência cinematográfica impaciente, inconformada e pouco dedicada aquilo que se chama "cultura", o que se complementa com os nossos "artesãos" que confundem o amadorismo com o experimental. Obviamente que temos profissionais no sector, mas infelizmente são mais os incompetentes que normalmente os competentes, mas isso é outra história! Para o cinema português, o cenário futuro é uma incerteza. Actualmente são produzidas excelentes obras que alcançam "lugares" onde o cinema português nunca esteve, contudo carecem de público. A culpa para tal advém de inúmeros factores, a falada fraca educação cinematográfica até à própria mediocridade de muita comunicação social que prefere promover o blockbuster norte-americano com mais dedicação que o nosso património, depois existe uma débil preocupação em divulgar tais obras por parte das produtoras. É triste mas ainda continuamos a preferir o circo.

CL: Comenta a seguinte citação do realizador Alfonso Cuarón: "A única razão para se fazer um filme não é fazer ou propor-se a fazer um bom ou um mau filme, é apenas ver o que se pode aprender para o próximo."

HG: Aliás como tudo na vida, deve-se aprender com os erros, as glórias, com os nossos passos em geral e nunca, como popularmente citando "descansar à sombra da bananeira". Akira Kurosawa dizia que o artista só chegará à perfeição na sua arte no seu octogésimo ano de vida, no trajecto até essa crucial etapa eram somente ensaios e tentativas. Engraçado é que na altura que o autor proferiu tais palavras já possuía obras como Rashomon ou Seven Samurai na sua filmografia, o que para muita gente são patamares altíssimos da Sétima Arte. Quem concretiza ou se envolve com filmes deve ter a noção de que tudo o que se faz, o que produz, o que se presta é só meio caminho andado para um objectivo maior, a derradeira obra. Porém é verdade que a chamada "derradeira obra" é um fruto de romantização do artista face à sua jornada artística, trata-se do motivo pelo qual se lançam a uma batalha que nunca será terminada - a da perfeição. Diante de tais palavras, Alfonso Cuarón acredita piamente que o dito artista mantêm uma eterna posição de aprendiz, não em relação a eventuais mentores ou dogmas, mas à sua própria excursão. E os verdadeiros homens da Arte admitem tal maldição. A busca pela matriz única e capaz, tal como Almada de Negreiros proclamou quando segundo este, descobriu a fórmula uniforme da forma. Aliás até os mestres estão sempre a aprender.