31.1.14

Cenas (9)

Revolutionary Road (2008), Sam Mendes


Tremendo exemplo da força da representação, do vigor das personagens e do poder dos actores ou, noutra perspectiva, do esforço e da firmeza do realizador na direcção destes mesmos, num exercício cinematográfico mais teatral e contemplativo que propriamente inventivo. Se quisermos, mais altruísta e paciente que rigorosamente introspectivo e exaltado, deixando, por isso, respirar o diálogo e o seu rumo em direcções e sentidos altamente imprevisíveis e angustiantes.

Particularmente, os últimos planos a empregarem-se e a dedicarem-se à personagem de Kate Winslet, sempre em primeiro plano, são deliciosos, vorazes até, de tão intensos e minuciosos que se enquadram, tal como a profundidade, através do contraste e da (não) definição, adquire contornos cénicos e de contexto deveras vibrantes e culminantes de toda uma situação sensível ou, enfim, de toda uma discussão inflamável. Grande Leonardo DiCaprio, grande Kate Winslet, grande Michael Shannon e grande Sam Mendes, no mínimo, por toda a energia que propagam nesta espantosa cena.

27.1.14

À Boleia (16)

Um convidado responde a questões nucleares ou essenciais sobre o cinema.
Entrevistado: Hugo Gomes, autor do blogue Cinematograficamente Falando....
Obrigado, Hugo, pela colaboração.

Caminho Largo: Habitualmente como avalias, estruturas e classificas todo e qualquer filme? Há sempre algum ponto de partida ou oscila de caso para caso?

Hugo Gomes: A avaliação e consideração dos filmes nas minhas críticas e textos deriva de vários factores, como também das minhas necessidades cinematográficas. Com isto saliento que não avalio os filmes por iguais, existe sempre uma apreciação para os diferentes géneros, estilos, intenções e nacionalidades. Como por exemplo, uma comédia tem que funcionar não por via dos seus gags mas pelos seus personagens e argumento, o terror tem que saber arrepiar ou em todos os casos criar novas fronteiras, nos blockbusters aprecio a modéstia, se existir, e nos seus objectivos como entretenimento e no cinema de autor, esse, o qual tenho mais cuidado na apreciação, tem que saber a acima de tudo comunicar com o espectador. Porém e como tenho reparado ao longo da minha "viagem" pelo cinema, sou um aficionado não pelo argumento em si, mas pela forma como é exposta, a narrativa. Talvez seja por isso que estou constantemente a abordar a narrativa dos filmes por "tu", a sua planificação e os seus diversos ritmos. Quantos às notas, admito que tento ser o mais cuidadoso possível, o qual são dadas diante daquilo que exprimi em texto. Esforço em ser imparcial, mas acima de tudo detentor de uma opinião independente e persistente.

CL: Na sua essência e no seu conceito, o que é para ti o cinema? Mais arte ou mais entretenimento?

HG: Esse é sim, a questão das questões para qualquer cinéfilo e consoante a resposta, aquilo que o define. Eu penso que o cinema, acima de tudo é uma interacção com o público, uma forma corrente de espalhar a sua mensagem, as suas intenções e visões. É uma arte polivalente, versátil e multifacetada que tão bem funciona como "peça de museu", como também "circo". E é nessas temáticas que se concentra a verdadeira essência do cinema, ele é como barro moldado por diversas mãos, o qual são sujeitas a diferentes “impressões digitais” que permanecem salvaguardados para a posteridade. Entretenimento ou arte, o cinema não se fica por uma única posição, e é isso que o distingue.

CL: Como diferencias genérica, temática e conceptualmente Hollywood do resto do mundo, em especial do Cinema Europeu? Os seus objectivos e as suas motivações, à partida e à chegada, conferem-lhes maior ou menor qualidade?

HG: O grande problema de Hollywood é o facto de se assumir como uma indústria de entretenimento, uma “fábrica” capitalista que se esconde por entre o glamour e o brilhantismo. E tal como uma “fábrica”, onde o negócio soa como o elemento predominante da produção, o profissionalismo é a preocupação e para isso há que conformar com a fórmula. Infelizmente nos dias de hoje, o cinema de Hollywood é composto por fórmulas, modelos académicos, lugares-comuns ou simplesmente os mesmos esquemas narrativos, tudo isto satisfaz o espectador, aliás se encaramos a realidade em linguagem de restaurantes, podemos comparar a grande parte do cinema vindo dos cantos do "Tio Sam" como autênticos pratos de fast-food, são populares, fáceis de digerir e deixam no mínimo as audiências satisfeitas, mesmo que a fome "cinematográfica" não esteja por completo saciada. Ódio gradual dos grupos elitistas e puristas, confesso que cada vez mais sinto desprezo pelo cinismo de Hollywood, temos que acima de tudo admitir que muita da linguagem cinematográfica e da tecnologia e práticas capaz de elaborar novos campos narrativos e fílmicos advém desse cinema norte-americano de requinte. Ou seja, por um lado temos muito que agradecer e a dever a Hollywood. Quanto à Europa! Ao contrário daquilo que muitos pensam, o cinema é originariamente europeu, os irmãos Lumiére foram os responsáveis pela invenção do cinematógrafo, mecanismo pelo qual foi possível projectar as primeiras imagens em movimento e com isso a expansão da Sétima Arte propriamente dita. Durante muito tempo, a Europa (mais particularmente a França) eram as Hollywoods da altura do cinema mudo, as constantes inovações e as fronteiras da tecnologia em si. Em consequência da 1ª Guerra Mundial, o cinema europeu ficou badalado e devastado pelo panorama social que se vivia, o desfecho do conflito ditou a soberania do cinema. Enquanto a Europa tentava "renascer" dos escombros e da "humilhação", os EUA tinha agora o poder sobre a capital do Velho Mundo, o retardamento de um levou ao avanço de outro. Mas felizmente e tendo em conta aquilo que vivemos e experienciamos, o cinema europeu conseguiu dar a volta e duas uma, ou aspira nas fórmulas hollywoodescas ou transcende de um estilo próprio. Ao contrário da chamada "fabrica dos sonhos", o cinema do Velho Mundo é maioritariamente mais amargurado, cinzento, realista e existencial. Apenas temo que esse padrão se instale por completo na sua essência.

CL: Nesse sentido, onde enquadras o Cinema Português? Por onde se deverá enveredar para o mesmo se autonomizar e se divulgar mais?

HG: O problema do cinema português é que é um cinema imaturo que teve à força de acompanhar o desenvolvimento dos grandes. A nossa aposta cinematográfica foi tardia, aliás limitada pela nossa ditadura que impediu um desenvolvimento gradual do nosso património cinematográfico. Tal se notou também na mentalidade dos nossos espectadores, que se agravou (e ainda agrava) com a fraca cultura cinéfila, ou a ausência de uma educação nesse ramo. É triste ver um país que cada vez mais abandona as nossas raízes culturais, apesar do cinema nunca ter tido lugar no programa educacional das escolas. Devido a isso temos um leque de uma audiência cinematográfica impaciente, inconformada e pouco dedicada aquilo que se chama "cultura", o que se complementa com os nossos "artesãos" que confundem o amadorismo com o experimental. Obviamente que temos profissionais no sector, mas infelizmente são mais os incompetentes que normalmente os competentes, mas isso é outra história! Para o cinema português, o cenário futuro é uma incerteza. Actualmente são produzidas excelentes obras que alcançam "lugares" onde o cinema português nunca esteve, contudo carecem de público. A culpa para tal advém de inúmeros factores, a falada fraca educação cinematográfica até à própria mediocridade de muita comunicação social que prefere promover o blockbuster norte-americano com mais dedicação que o nosso património, depois existe uma débil preocupação em divulgar tais obras por parte das produtoras. É triste mas ainda continuamos a preferir o circo.

CL: Comenta a seguinte citação do realizador Alfonso Cuarón: "A única razão para se fazer um filme não é fazer ou propor-se a fazer um bom ou um mau filme, é apenas ver o que se pode aprender para o próximo."

HG: Aliás como tudo na vida, deve-se aprender com os erros, as glórias, com os nossos passos em geral e nunca, como popularmente citando "descansar à sombra da bananeira". Akira Kurosawa dizia que o artista só chegará à perfeição na sua arte no seu octogésimo ano de vida, no trajecto até essa crucial etapa eram somente ensaios e tentativas. Engraçado é que na altura que o autor proferiu tais palavras já possuía obras como Rashomon ou Seven Samurai na sua filmografia, o que para muita gente são patamares altíssimos da Sétima Arte. Quem concretiza ou se envolve com filmes deve ter a noção de que tudo o que se faz, o que produz, o que se presta é só meio caminho andado para um objectivo maior, a derradeira obra. Porém é verdade que a chamada "derradeira obra" é um fruto de romantização do artista face à sua jornada artística, trata-se do motivo pelo qual se lançam a uma batalha que nunca será terminada - a da perfeição. Diante de tais palavras, Alfonso Cuarón acredita piamente que o dito artista mantêm uma eterna posição de aprendiz, não em relação a eventuais mentores ou dogmas, mas à sua própria excursão. E os verdadeiros homens da Arte admitem tal maldição. A busca pela matriz única e capaz, tal como Almada de Negreiros proclamou quando segundo este, descobriu a fórmula uniforme da forma. Aliás até os mestres estão sempre a aprender.

24.1.14

O Caminho Largo na LuxWoman



É com prazer que anunciamos a presença do Caminho Largo na recente edição de Fevereiro da revista LuxWoman, juntamente com outros companheiros destas andanças. Num âmbito de expectativas ou apostas aos Óscares e ao que de melhor o ano transacto nos trouxe, acedeu-se ao convite e às perguntas e consequentes respostas que assim partilhamos, em meu nome, e em virtude da presente distinção nos TCN Blog Awards. Acima de tudo, um legítimo destaque à blogosfera cinéfila nacional, que gritantemente já merece este tipo de visibilidade.

Das ausências e surpresas às confirmações nos prémios que se avizinham, passando ainda por questões inerentes ao blogue e à respectiva comunidade, assim se respondeu a esta espécie de questionário, que pode ser lido na íntegra com a compra da revista, já nas bancas. De resto, obrigado pelo convite, pela colaboração e pela divulgação.

19.1.14

CCOP: Top de Dezembro de 2013



O último top mensal de 2013 reservou quatro títulos a merecerem entrada directa no top 10 do ano. Short Term 12 (Temporário 12) não deixou ninguém indiferente e conseguiu uma nota média de 8,75 em 10, ligeiramente abaixo do filme mais votado de 2012 (Tabu, com 8,89). O filme é o líder de Dezembro de 2013 e o segundo melhor classificado do ano, abaixo de Before Midnight (Antes da Meia-Noite) (8,82). A surpresa - ainda que notoriamente merecida - ocupa a segunda posição do mês (e quinta do ano) com o brasileiro Kleber Mendonça Filho e o seu O Som ao Redor a receberem a nota média de 8,50 - apesar do filme ter tido uma distribuição limitada em Portugal. Já os irmãos Coen finalizam o pódio de Dezembro, com Inside Llewyn Davis (A Propósito de Llewyn Davis) a receber a nota média de 8,45 (é agora o sexto filme melhor classificado do ano). Nota ainda para The Hobbit: The Desolation of Smaug (O Hobbit: A Desolação de Smaug) que conseguiu quatro décimas acima que o primeiro filme, o ano passado. Destaque para as reposições nacionais (e por isso inelegíveis para o top mensal) de Hiroshima, mon amour (Hiroshima, Meu Amor) e Casablanca. O filme de Alain Resnais recebeu a nota média de 9 e o de Michael Curtiz atingiu os 8,54.

Para consultar os tops anteriores ou o top anual actualizado basta ir ao site oficial do Círculo de Críticos Online Portugueses aquiEis então o top completo dos filmes, com suficiente amostragem, estreados em Portugal em Dezembro de 2013:

1. Short Term 12 (2013)
Temporário 12, Destin Cretton | 8,75
2. O Som ao Redor (2012)
Kleber Mendonça Filho | 8,50
3. Inside Llewyn Davis (2013)
A Propósito de Llewyn Davis, Ethan Coen e Joel Coen | 8,45
4. Le Passé (2013)
O Passado, Asghar Farhadi | 8,38
5. The Hobbit: The Desolation of Smaug (2013)
O Hobbit: A Desolação de Smaug, Peter Jackson | 7,00
6. The Grandmaster (Yi dai zong shi) (2013)
O Grande MestreKar Wai Wong | 6,89
7. Mandela: Long Walk to Freedom (2013)
Mandela: Longo Caminho para a Liberdade, Justin Chadwick | 6,11
8. The Secret Life of Walter Mitty (2013)
A Vida Secreta de Walter MittyBen Stiller | 5,86
9. Oldboy (2013)
Oldboy - Velho Amigo, Spike Lee | 5,33

15.1.14

À Boleia (15)

Um convidado responde a questões nucleares ou essenciais sobre o cinema.
Entrevistado: Axel Ferreira, autor do blogue Por Natureza Morta.
Obrigado, Axel, pela colaboração.

Caminho Largo: O modo como abordas um filme depende de algum conceito à priori estabelecido ou a avaliação incide somente naquilo que o filme é ou como o mesmo se define automática e singularmente? A crítica é indissociável do filme?

Axel Ferreira: A pergunta afigura-se interessante, mas a resposta pode-se afigurar demasiado grande para a intenção. Todos os filmes têm um preconceito associado, isto porque muito raramente se vê filmes ao acaso e, quando se faz isso, normalmente existe um arrependimento posterior. Portanto existe sim um preconceito antes do filme, existe sempre, mas para mim este deve acabar no momento em que o próprio filme começa. Mesmo assim, esta espécie de dissociação gnosiológica é muito difícil de atingir, ainda para mais se tivermos algum conhecimento adicional sobre o próprio enredo. Por isso tenho uma aversão a ver trailers, que têm a fantástica capacidade de já estarem a classificar e a digerir o próprio filme por ti. Portanto, sim, cada filme se deve definir por si na sua totalidade e assim o tento fazer, apesar de isso ser quase impossível.
No mesmo esquema de pensamento, a crítica, no particular (dada por mim ou por seja quem for), pode e deve ser dissociada do filme, pelo menos se tivermos intenção de o visionar (se não o fizermos ficamos inevitavelmente apenas com o preconceito). Por isso também tenho uma aversão a chavões que normalmente se ditam segundo o famoso “como já era de esperar…”. Já no aspeto geral da questão, a crítica, desta vez a de cada um, não pode ser dissociada do filme, a opinião após o sujeito se tornar cognoscente é inevitável. Não se me afigura possível uma abstração tal que separe o filme de nós próprios até porque tudo o que percecionamos está associado a uma sensação. Na minha experiência pessoal apercebi-me que não gosto de ler críticas e interpretações de filmes, por duas razões, a primeira será a de normalmente discordar e a segunda será por tentativa de abstração máxima de ideias pré-concebidas (mesmo que seja já após o seu visionamento). Por isso também tento não o fazer quando escrevo, apenas tento explicar a minha perspetiva sobre os conceitos gerais da própria arte, apesar de já ter acontecido, uma ou duas vezes, de não o conseguir evitar.

CL: Para efeitos de qualidade, que mecanismos e linguagens no seu todo tem a mais a realização em detrimento do argumento cinematográfico? De que forma a montagem interfere nesta dualidade?

AF: Explicando de novo em duas partes, afigura-se-me como regra que um argumento cinematográfico mau significa um vazio de conteúdo para o filme, isto se considerarmos que o argumento inclui toda a mise en scène, o que raramente é o caso. E, não sendo o caso, a mestria do realizador pode influenciar todas as perspetivas e tornar algo banal em algo muito pouco óbvio (mas claro que no sentido teórico da ideia, ao fazê-lo, o realizador está a mudar o próprio argumento mesmo que seja apenas por mudança de intenção). Até a edição, ou montagem do filme, para inovar terá de alterar o argumento, pode-o fazer tanto quase na sua totalidade (como no caso de Annie Hall) como apenas para adicionar efeito de confusão e estranheza (retirando a tal banalidade de algo que se assemelha ao comum, como aconteceu com Memento). No sentido contrário também se me afigura óbvio que um bom argumento pode ser destruído pela banalidade do realizador (como é o caso de Steven Spielberg com Minority Report ou A. I. ou muitos outros).
A linguagem é característica de cada um dos realizadores, ela deve ser o mais original possível, e neste sentido a originalidade impõe-se quase como algo absoluto. A perspetiva e a edição, que é indissociável da linguagem do realizador (apesar de os estúdios de cinema insistirem em destruir esta ideia), são as que transmitem a sensação que acompanha a perceção dos acontecimentos. Sendo um filme uma experiência sensorial, a linguagem representa quase tudo. Ressalvando, no entanto, como acima dito, que o argumento mau torna o filme em algo vazio. Percebe-se também que para cada tipo de realização os eventos do filme têm de ser determinados pela intenção. Particularizando, ninguém imagina Blade Runner a acabar com os replicants, na apoteose final, a serem mortos por Decker a tiro de pistola. Esvaziaria o filme de quase todo o seu significado.

CL: Como poderá actualmente o cinema equilibrar e melhorar a sua veiculação e transmissão de valores transversais à cultura e à educação de um povo? Exemplifica.

AF: Não pode.
O cinema não é um meio educativo, ele não pode transmitir nada que não esteja já presente. Ele não adiciona, apenas multiplica. Sendo o cinema uma arte final, no sentido em que é uma mistura de artes visuais, sonoras e escritas que exige um conhecimento prévio de qualquer uma delas. Por muito que queiram, não há filme que torne o ato de leitura irrelevante, ou o ato de ouvir música irrelevante. Sendo uma experiência sensorial curta apenas transmitem uma interpretação (a algo que normalmente já devemos entender a priori). As interpretações são interessantes mas não ensinam a interpretar, muitas vezes fazem o contrário. O utilizador pouco avisado usa o cinema como um meio para esvaziar a mente de toda a reflexão, muito mais isto acontece quando esta mente se encontra já vazia por si. O cinema pode ser até contraproducente neste aspeto, pelo menos nesta a tendência popular contemporânea. Isto porque estamos a falar de cinema e não de documentários.
Não existem filmes que nos façam refletir, na verdade apenas há filmes que nos fazem ter medo de uma ideia que já sabíamos existir, mas não queremos acreditar ser possível.
Como meio de cultura é um meio final, tal como é uma arte final. Estende perspetivas e por vezes horizontes, mas apenas a algo a que já somos recetivos. Existem certos filmes incompatíveis com certas pessoas, porque essas mesmas pessoas não são recetivas a esse tipo de informação.
A interpretação de Haneke sobre violência só pode ser válida para nós se entendermos que a origem da violência (seja a existência de algo inqualificável como o holocausto seja a existência massiva de tortura física e psicológica) é algo que tem de ser questionado e continua a não ser óbvio. Precisamos de ter uma curiosidade e uma introspeção pessoal que só é dada pela informação e a reflexão sobre ela. O cinema não é nem deve ser informação.
Se o cinema transmite valores morais o único que vai fazer é o impedimento da formação de valores éticos.

CL: Tendo em conta a sua origem, o seu crescimento e a sua sobrevivência, a saúde da sétima arte necessita da inclusão do entretenimento? De que forma?

AF: Não. Em termos económicos os filmes de entretenimento não ajudam em absolutamente nada à sobrevivência do cinema como arte, normalmente apenas o prejudicam. Mais do que isso criam uma espécie de resistência nas pessoas ao cinema feito com intenção de arte. Numa Era em que tudo é acessível o cinema de qualidade continua a ser cada vez menos popular. Existe até uma menor tolerância do público à experimentação cinematográfica e à experimentação de sensações novas, que é na verdade a base do cinema.

CL: Comenta a seguinte citação do realizador David Cronenberg: "Há um ditado em arte que diz que para se ser universal deve-se ser específico. Penso que qualquer artista sente que está a lidar com coisas específicas, mas que elas têm significado universal."

AF: Concordo apesar de não apreciar terrivelmente o realizador. Até nos movimentos das artes que mais se separam da representação da realidade, como o surrealismo e o impressionismo (de maneiras muito diferentes), tudo começa no particular. Mas conseguir o significado universal é algo que necessita de mestria e poucas vezes é alcançado, até nas obras mais aceites nem sempre acontece.
Este conceito é moderno e levou até a uma obsessão com o significado. Sente-se até uma preocupação desmedida em tornar os eventos explicativos em si mesmos, como se se retirá-se o acaso da equação. Por isso acho tão apelativo o cinema japonês e coreano, onde a obsessão com o significado é muito menos patente.