12.1.14

Captain Phillips (2013)

Capitão Phillips, Paul Greengrass


De acompanhamento frenético e angústia predominante e palpitante, Capitão Phillips assume-se como uma agradável investida (audio)visual e como uma recordação recente colectiva pelos meandros lineares da perseguição, da clausura e da extorsão irrealísticamente entrelaçadas. Um tremendo drama (real e biográfico), ao jeito de um thriller crescente e desesperante, em (in)tencionada suspensão e em constante balanço entre a desgraça e o sucesso de uma missão antecipadamente de alto risco, onde nitidamente ninguém sairá ileso ou desprovido de cicatrizes após tamanha experiência comportamental ou condição existencial.

Um aparente filme de aventuras, à superfície das ondulações emocionais, que às tantas se vira, qual barco em alto mar, num autêntico braço de ferro entre dois homens, de igual para igual e sem heróis ou vilões definidos, encabeçados por Barkhad Abdi e Tom Hanks, que, a propósito, absorvem espantosas interpretações e, ainda assim, suficiente densidade psicológica (exigia-se mais) dentro e fora do seu ambiente ou habitat familiar e cultural. O primeiro, constitui admiravelmente uma descoberta ou conquista nestas andanças, mas é em especial o segundo que surpreende e que recorda o seu potencial, personificando o capitão sempre à frente ou, mais tarde, sempre atrás nas periclitantes situações do enredo. De facto, inesperado nível evidenciado por Hanks, num registo por demais natural e humano, isento de artifícios e condizente à sua melhor performance dos últimos anos (os derradeiros minutos com o personagem, de rastos e em lágrimas, correspondem mesmo a uma das grandes cenas, senão a melhor, em todo o filme).

Com uma banda sonora e uma montagem em relevo (sobretudo na edição e na mistura de som), o filme de Paul Greengrass, embora algo indeciso em grande parte no rumo a tomar e, acima de tudo, hesitante sobre como e o que filmar no segundo acto cénico, entre os actores e a acção, também se revela apesar de tudo acima da média no que à realização pontual diz respeito, nomeadamente com uma proximidade e uma subtileza em alguns momentos aflitivas, de tão trépidos ou frios que estes se apresentam. Completamente embriagantes até, e exibidos sem qualquer receio ou pudor. Tendo, por outro lado e igualmente como seria de esperar, a tensão e o suspense já habituais no realizador de The Bourne Supremacy e de United 93, tal como a recorrente câmera ao ombro ajustada quanto baste à imprevisibilidade e insegurança dos acontecimentos, aqui verdadeiros protagonistas de uma história pulsante sob um relato claustrofóbico e desnorteado vivido intensamente do primeiro ao último minuto.


Jorge Teixeira
classificação: 7/10

6.1.14

À Pergunta da Resposta (8)

Pergunta:
Um filme que revele a tolerância e a paciência que devemos ter com os outros na boa e irrepetível conduta diária?

Resposta:
(na resposta à questão está uma palavra a reter)

(na resposta à questão está uma palavra a reter)

(na resposta à questão está um nome a reter)

Pergunta:
Um filme que revele a tolerância e a paciência que devemos ter com os outros na boa e irrepetível conduta diária?

Resposta:
A resposta está nas pistas ou no que elas sugerem.
Adivinha qual o filme?
(soluções posteriormente nos comentários)

(os textos e as publicações envolvidas nas pistas são de consulta e leitura obrigatória)

4.1.14

Inside Llewyn Davis (2013)

A Propósito de Llewyn Davis, Ethan Coen e Joel Coen


Entre a intermitente comédia e a convergente tragédia, eis um notável retrato de uma classe artística num apropriado e urgente período da sua história. O músico, o cantor folk nos anos 60, e as suas contrariedades profissionais e embaraços pessoais em sobreviver, em subsistir e resistir às partidas do acaso, do tempo e do espaço em si, e da consequência em seguir sonhos e ambições, por mais (in)coerentes e (in)justos que eles sejam. No fundo, a luta contra si mesmo, contra as suas virtudes e os seus defeitos, e, conjuntamente, contra o poder implacável do dinheiro na sua vida, na condição de artista, e da sua capacidade em reverter ou não situações menos favoráveis, porventura irónicas de tão graves e improváveis que se tornam (facto que o filme eficazmente se apropria).

Num ritmo assaz distinto e temperado, a deambulação do protagonista pelas ruas de Nova Iorque, a meio por Chicago, e pelas ruas da sua consciência (na sua maioria pesada), se dá consoante os personagens assim o desejem ou a câmera assim o ambicione, num esforço, contudo, assimetricamente resolvido (com destaque para os inebriantes e sublinhados momentos cantados a solo), que no conjunto ainda assim não alcançam os seus intervenientes, autênticos faróis no oceano exploratório da narrativa. Brilhantes e intensas interpretações, todas, sem excepção, mas particularmente a de Oscar Isaac, que se empenha de alto a baixo, do interior ao exterior, com uma energia e contenção constantes e inabaláveis.

Ethan e Joel Coen, mais uma vez, a demonstrarem o seu exemplar e especial domínio no tom, na harmonia e na perspicaz montagem de todo um projecto que, na teoria se assume como ímpar nas suas carreiras e, na prática como mais um testemunho afectuoso e fraterno, ou como mais uns (de)graus adicionados à abertura da compaixão, para dentro (inside) do sensível. Facto, aliás, que acresce à clara e manifesta tendência por parte dos irmãos de ir permitindo receber, pouco a pouco, nos seus já habituais registos mais frios e descarados, algum sentimentalismo, algum assentamento e reflexão, provavelmente proveniente da idade e da sabedoria assimiladas. Mas é, sobretudo, na fabricação de um argumento deveras pertinente, competente e eloquente, onde o fim se confunde com o início num relevante ensaio social, que os realizadores mais peculiares do cinema moderno americano aqui se demarcam, quiçá se excedem.

Magnífico trabalho também na fotografia, a polir toda uma experiência muito reluzente e aconchegante e, porque não, quente numa época fria. Uma solitária viagem, que nos créditos, ao som da excelente banda sonora (de resto, polvilhada em todo o filme em sedutores trechos, ou direi, intervalos?!), nos deixa um doce sabor pelos minutos que passaram ligeiramente, na sua marcha muito própria, e um travo amargo pelo abandono de tão possantes e vigorosas performances e, em particular, de tão agradável visão e percurso individual, no que estabelece ou forma uma mais que certa companhia ao qual tão cedo não iremos esquecer ou deixar de recorrer.

"If it was never new, and it never gets old, then it’s a folk song."


Jorge Teixeira
classificação: 8/10

2.1.14

À Boleia (14)

Um convidado responde a questões nucleares ou essenciais sobre o cinema.
Entrevistado: Carlos Branco, autor do blogue Planos Perpétuos.
Obrigado, Carlos, pela colaboração.

Caminho Largo: De forma geral, que valores principais e detalhes fulcrais destacas numa apreciação e eventual avaliação de um filme?

Carlos Branco: Aquilo que na minha opinião e de uma forma geral mais valoriza um filme será porventura a forma como o realizador passa a mensagem através de uma linguagem que se distinga pelo individualismo estético da sua visão da realidade que quer retractar ou construir e que esse exercício de individualismo intelectual seja capaz de apelar aos mais puros sentidos do espectador, de um colectivo, formando assim a obra de arte. Existem com certeza aspectos materiais que fazem dar corpo a essa individualização de um realizador através do filme, mas nessa tal apreciação do objecto cinematográfico reservo muito da objectividade à sua subjectividade, ou seja, àquilo que não se consegue explicar e que foge às normais mais racionais ou convencionais da análise. É muito difícil chegar a uma conclusão objectiva sobre aquilo que nos toca mais no cinema e penso que a magia da sétima arte é toda essa, mas na minha opinião muito daquilo que faz o meu gosto é a forma como se mostram as coisas e como se constrói ou desconstrói a realidade e a ficção.

CL: As linguagens da forma são mais verdadeiras e intrínsecas ao cinema que as do conteúdo. Concordas com esta afirmação? Em que sentido e onde é que identificas a forma e o conteúdo num filme? Estarão ligados ao argumento e à realização única e exclusivamente?

CB: Aparentemente parece haver um conflito entre forma e conteúdo – a própria afirmação desta pergunta remete para isso mesmo - ou seja, há uma tendência para tomarmos estes termos como incompatíveis. Mas eu prefiro seguir um caminho de convergência e talvez juntando a isso alguma confusão, opto por despir os termos de qualquer tipo de concepção ou pré-conceito. Numa visão muito simplista ou até paradoxal acerca deste tema, eu posso afirmar-me como um formalista onde as impressões estéticas e artísticas (que em cinema assumem-se sob várias formas e meios) correspondem àquilo que entendo como a qualidade do filme dando-lhe a “eternidade”, mas a verdade é que o valor acrescentado a esta perspectiva mais adepta da formalidade terá de transportar consigo uma narrativa que contenha os fundamentos mais básicos da mensagem que se pretende transmitir. Talvez seja esta uma ideia muito utópica, mas na minha opinião por muito que se privilegie os aspectos formais de uma peça, se esta não tem um fundo de consciência narrativa e trabalho de representação, não há forma que lhe resista nesta óptica total da análise conceptual que se possa fazer. Ainda assim, existindo apenas a forma feito invólucro sem nada lá dentro que se possa significar, dependendo da abordagem do realizador, essa é uma ideia de que posso comungar positivamente. Com isto digo também que não há linguagens mais verdadeiras do que outras, todas elas se encontram e todas elas servem o objecto do cinema com o objectivo de ligar o filme ao seu tempo, mesmo que o tempo do filme seja alheado da realidade ou aliado puramente à ficção que o realizador tem em mente.

CL: Comparativamente, que importância ou relevância atribuis a toda a concepção, preparação e acto de filmar engenhosamente planos, com ou sem movimento, em detrimento da tarefa pós ou pré-definida de os montar com competência e imaginação? Em que sentido a filmagem tende para a montagem e vice-versa?

CB: Relativamente a esta questão quero acreditar que a qualidade do produto final é em todos os casos resultado do virtuosismo do realizador através da sua capacidade de dar corpo àquilo que tem como por objectivo para o seu filme. Sem grandes cenas, sem grandes planos e sem essa capacidade em reunir o melhor dos actores e da história que se conta a uma imagem forte que represente precisamente essa ligação, não há milagres que se possam fazer na fase da montagem. Com certeza a fase da montagem de um filme é uma parte importantíssima, e que em alguns casos é até mesmo a partir desta fase que se consegue imprimir ainda mais e melhor aquilo que se pretende mostrar. Mas no fundo acredito que, suportado pelo virtuosismo dos criadores das imagens, a montagem é como o processo natural da construção desse filme contribuindo como mais-valia para o resultado final, mas que per si não consegue transformar trabalhos sem qualidade em obras aceitáveis do ponto de vista mais intelectual ou mesmo tradutores da tal estética formalista aliada ao realismo do assunto que caracteriza os melhores e que eu tanto prezo.

CL: Tendo em conta a problemática relativa à identidade e definição artísticas, o cinema está, ou deveria estar, mais relacionado com cineastas e os seus filmes e carreiras acumulados ou mais associado a obras ou produtos cinematográficos que, gerados e geridos maioritariamente pelos seus valores de produção e divulgação, não dependem tanto do seu realizador? Teórica e idealmente que peso e medida deverá ter o realizador e a eventual indústria ou produção agregada na autoria do objecto cinematográfico?

CB: Na minha opinião o exercício artístico só existe em liberdade e é em liberdade que deve ser reconhecido. Apesar das condicionantes do mundo e do mercado e das várias limitações que os cineastas enfrentam, fazer um filme é e será sempre um exercício de liberdade e é nesse contexto que se deve definir a qualidade do produto. Dito isto, temos de viver bem com o facto de haver cinema para todos os gostos e para todos os públicos. O realizador que opte por fazer um blockbuster, sabe que vai ter ao seu dispor uma quantidade de meios e posteriores campanhas de marketing que irão ajudar a ter o retorno do investimento e reconhecimento comercial pelo seu trabalho, permitindo continuar a fazer um cinema mais direccionado para as massas ou então quiçá um cinema mais de acordo com os seus verdadeiros padrões livres da pressão ou opressão dos resultados comerciais. Se virmos bem, mesmo os mais independentes dos realizadores têm os seus modelos de negócio e usam os meios de marketing que têm à disposição para fazer chegar o seu produto ao maior número de pessoas. São opções que correspondem a formas de estar na vida e no cinema, são escolhas feitas livremente ou até obedecendo unicamente a padrões economicistas e de lobby, pouco importa. Cabe ao espectador escolher também livremente, embora tenhamos de reconhecer que a difusão global de opinião através da internet e redes sociais contribui para moldar e influenciar os gostos, para o bem e para o mal.

CL: Comenta a seguinte citação do realizador Samuel Fuller: "Cinema é um campo de batalha. Amor, ódio, violência, acção, morte... Numa palavra, emoção."

CB: Com esta definição podíamos voltar à primeira pergunta, é a emoção. Mas a emoção ou aquilo que nos emociona em cinema tem contornos difíceis de definir, depende muito do estilo, da perspectiva, da disponibilidade, mas sem dúvida, a palavra emoção está lá como uma certeza constante. Aquilo que nos emociona é aquilo que nos faz sentir vivos e o cinema faz-nos sentir vivos. Mesmo que odiemos o filme, sabemos que há um outro que vamos amar; mesmo que nos revoltemos com um diálogo, sabemos que há um silêncio que vamos querer ouvir; mesmo quando uma sequência não é a mais coerente, há sempre um outro plano que melhor enquadra aquilo que queremos ver naquele momento; enfim há no cinema essa função inata de dar um fundamento aos nossos sentimentos mantendo-os críticos e é isso que faz única esta arte.

24.12.13

1 Tema, 3 Filmes (11)

A nossa Casa

The Apartment (1960)
O Apartamento, Billy Wilder

Breakfast at Tiffany's (1961)
Boneca de Luxo, Blake Edwards

Fanny och Alexander (1982)
Fanny e Alexandre, Ingmar Bergman

por Jorge Teixeira e Pedro Teixeira