4.8.13

À Boleia (4)

Um convidado responde a questões nucleares ou essenciais sobre o cinema.
Entrevistado: António Tavares de Figueiredo, autor do blogue Matinée Portuense.
Obrigado, António, pela colaboração.

Caminho Largo: Como avalias abstracta e essencialmente um filme? Ou varia de caso para caso?

António Figueiredo: Desconfio sempre de quem diz poder-se estruturar rigidamente a crítica cinematográfica (ou cinéfila, conforme o autor). Ou de quem rediga seguindo sempre o mesmo modelo. Talvez porque para o fazer há que assumir que todos os filmes são iguais, e que o sendo se propõe todos ao mesmo objectivo. Ora, não me parece que seja esse o caso. Acho que é o filme que "pede a crítica": não faz sentido abordar A e B - que são objectos de valor diferente, seja por que motivo for - de igual maneira, apenas para se chegar à conclusão que um é "melhor" do que o outro. Isso é limitar a função da crítica, enquanto actividade intelectual, ao mero comentário.
Iniciei-me na minha actividade crítica seguindo essa regra da formatação. Fazia uma introdução, expunha a premissa, a estética e a técnica em partes separadas e rematava com uma conclusão. Hoje em dia já não me parece correcto escrever sobre um filme nesses moldes. Continuo sem abdicar da introdução e da conclusão - por as achar necessárias a uma melhor compreensão do leitor do que é o meu entendimento da obra -, mas sou capaz de meter mais facilmente a premissa numa delas; ou de encaixar a estética na técnica, o background de determinado autor nas ideias veiculadas pelo filme. Se tal se justificar, é claro. Há tempos, aquando da exibição do L'ANNÉE DERNIÈRE À MARIENBAD, do Alain Resnais, no último Fantasporto, escrevinhei não sei quantas linhas sem tocar na premissa da obra. E fazia sentido, porque o filme, tal como é, não vive desse factor. Agora, se pegasse, por exemplo, no HIROSHIMA, MON AMOUR já teria um cuidado diferente a expor a história. É uma questão de relevância - de qualquer aspecto estético, técnico, fotográfico, diegético, etc. - atribuída ao objecto: se achar que se justifica distinguir alguma delas, faço-o. Caso contrário, parece-me que a prática se opõe ao objectivo da crítica.
Depois há outra coisa: custa-me (para não dizer que odeio) ler críticas pensadas numa formatação semelhante à minha. Sempre me julguei mais um comentador do que um crítico. E a questão nem passa tanto por escrever n parágrafos, como por tocar os pontos que devem ser tocados. Se forem precisos 20 para o fazer, então que seja; se não, é encher chouriços. É por esse motivo - entre tantos outros - que gosto imenso de ler o trabalho de gente como a Rita Morais de Carvalho, que escreve para o Cineclube FDUP e para o melancolia contemporânea (o seu blog pessoal), que consegue redigir uma imensidão de linhas sem nunca se repetir. E falo na Rita como podia falar no João Lameira, no Luís Mendonça, no Ricardo Vieira Lisboa, em ti [Jorge Teixeira], no Jorge Mourinha, no Samuel Andrade ou no Francisco Noronha - que escreveu para o À Pala de Walsh uma das melhores análises disponíveis em português do MARTHA, do R. W. Fassbinder -, entre tantos outros.
Mas trata-se, principalmente, de uma opção pessoal: se há quem prefira avaliar todos os filmes pela mesma bitola, nada contra. O importante é continuar a rever-me, fundamentalmente, como espectador no que escrevo. Quando deixar de o fazer, abandono definitivamente os meus comentários no que ao Cinema diz respeito. 

CL: Quais são para ti os campos da realização em todo o processo fílmico?

AF: Primeiro há que distrinçar entre dois conceitos que, misturando-se muitas vezes, tendem a confundir-se em demasia: os de realizador e autor. Porque nem sempre é o realizador que pare o filme. E temos os casos do Val Lewton na RKO dos anos 40 e o Roger Corman na Hammer como exemplos cabais da ideia; ou o Paul Schrader, que é tão criador do TAXI DRIVER (e do RAGING BULL, já agora) como o Scorsese.
Sempre mantive a ideia romântica de que a obra é filha do autor. O autor sofre por ela, cria-a do vazio, dá-lhe luz. Nesses casos, o campo da realização será, obviamente, maior: mais do que a mera coordenação, há a orientação da equipa para a visão que se pretende alcançar. O Herzog é perito nisso: aquela mão férrea faz maravilhas quanto à perseguição do seu objectivo enquanto autor. Para o tarefeiro, não passa de um trabalho: chega, pica o ponto, desempenha a tarefa para a qual foi contratado, entrega o produto e segue com a sua vida. Se o campo continua a ser o da coordenação e o da concretização de determinada visão artística (que pode muito bem nem ser a sua), reduz-se mais ao que consta do seu contrato. Gosto de dizer que o autor é mecanismo e o realizador-tarefeiro engrenagem do estúdio.
Convém é distinguir entre maus autores e tarefeiros capazes. A malta dos Cahiers insistia que o pior filme de um autor seria sempre melhor do que o mais capaz de um tarefeiro. Nunca me revi nessa opinião. Até porque há tarefeiros que entregam com muita qualidade: casos, por exemplo, do Danny Boyle (que vai acertando, não obstante alguns tiros falhados), do Marc Forster e do Ang Lee.

CL: A música, ou a banda sonora, é um dos componentes de um filme. Como analisas a sua importância e a sua capacidade de indução na sétima arte em geral?

AF: A música, o próprio som, é uma das áreas a necessitar urgentemente de maior exploração e desenvolvimento crítico no Cinema. Porque é das que mais contribui para o objecto-filme e das que mais influenciam o espectador no seu relacionamento com a obra. Não admira, pois, que tantos realizadores se tenham dedicado tão intensamente a ela: o Carpenter, nas suas bandas sonoras, o Harmony Korine, nos seus raccords audio-visuais alimentados a ácidos, o Tarantino, nos seus anacronismos sonoros.
É daí que se parte para uma série de questões da maior relevância. Pegando no ruído ominoso do Carpenter, será o som diegético mais importante que o não-diegético? Fará assim tanta diferença ao espectador ouvir meia-dúzia de violinos ou meia-dúzia de passos em soalho envelhecido? E podemos extrapolar para a voz-off: o seu uso justifica-se? A Chantal Akerman, uma das senhoras Cinema, parece ter decidido a dúvida a seu favor. O JE, TU, IL, ELLE prova que a voz-off pode funcionar, reunidas as condições certas. Mesmo que haja centenas de realizadores que, desde aí, tenham falhado escandalosamente na sua aplicação.
Ou podemos tocar nos raccords do Korine. Se a lógica videoclip incomoda tão bom crítico, porque é que o Korine parece fazê-la resultar no seu SPRING BREAKERS? Eu tenho para mim que é por tratar-se de um acto terrorista, um processo de desmontagem. Ali não há filme, há Cinema puro e duro. Nos outros é precisamente o contrário: há um filme, porque é um objecto do audio-visual, mas não há Cinema, por nunca ter havido intenção de usar o meio como meio, mas antes como veículo de um outro (a televisão musical). E nem é tanto uma questão geracional como filosófica, na abordagem à Arte. Da mesma maneira, o anacronismo do Tarantino tanto resulta como falha rotundamente na imersão do espectador no ambiente. No INGLOURIOUS BASTERDS temos a MELÁNIE LAURENT a preparar-se para a vindicta ao som da Cat People do Bowie, e o efeito é máximo; no DJANGO UNCHAINED não senti o mesmo - o rap não me induziu tanto na brutalidade recriada como aquele belo plano do algodão manchado com sangue.
Há uns tempos ouvi um concerto dos Nurse With a Wound e senti-me num filme de terror. Isso só me prova que o som, por si só, tem a capacidade de criar na audiência uma "imagem" projectada. O João César Monteiro conseguiu semelhante com o seu BRANCA DE NEVE. Não há ali nada, senão o ruído. Mas - e voltando a um dos pontos que já referi - tem-se Cinema, pelo simples facto de dar-se a ver algo que, efectivamente, não está lá.

CL: A televisão é um princípio, meio ou fim para o cinema? Em que sentido a mesma influencia ou é influenciada pela sétima arte?

AF: Não sei se se deva relacionar tão estreitamente os dois meios. Nunca tive a televisão como um princípio, meio ou fim do Cinema. Sempre considerei haver a televisão, o Cinema e, num plano comum aos dois, o Cinema que a televisão transmite. Há, para começar, uma diferença enorme de tamanho entre os dois meios. E não me refiro apenas ao da tela: o Cinema permite uma imersão n vezes maior no filme. Não há maior prazer para mim do que estar sentado duas horas no escuro, sem preocupações, a ver o que é projectado. Em casa tens não-sei-quantas distracções: o telemóvel que não pára de tocar, as outras pessoas, o teu cão que quer ir à rua, os vizinhos que não param de fazer barulho, o que quer que seja.
Nesse sentido, a internet veio diminuir ainda mais o Cinema. Tu agora podes ver um filme praticamente em qualquer lugar. O Cinema, mesmo que seja pensado sobretudo para esse meio - e já desconsiderando para o efeito os telefilmes - deixou de ter esse lado social de te sentares numa sala escura com mais vinte ou trinta pessoas. A cinefilia passou a ser ainda mais onanista: querendo, metes-te a ver três ou quatro filmes de rajada na solidão do teu quarto. A interacções entre o público tornou-se mínima. É por isso que gosto tanto de cobrir festivais e ciclos: sendo o filme bom ou mau, estás rodeado de pessoas com quem podes interagir. Se o Cinema tem para mim a função de escape, tem também a de nos ligar ao Mundo, o da tela e o de fora dela.
Parece-me é incontornável que a televisão acabe, eventualmente, com o Cinema nos moldes em que o conhecemos. É impossível, do ponto de vista do filme para Cinema, competir com a economia inerente a esse meio: com os anúncios nos intervalos, com a quantidade massiva de público que alcança, até com a oportunidade de desenvolver uma narrativa ao longo de vários episódios. Desconfio que seja tentador para uma grande parte dos realizadores e argumentistas a capacidade de trabalhar mais a fundo o material. Gente como o Spielberg e o Fincher já se aperceberam disso e passaram a desenvolver, em simultâneo, Cinema e televisão. É apenas uma questão de tempo e de aperfeiçoar a fórmula.
Nessa perspectiva, teria de escolher a televisão como o fim para e do Cinema. Até porque, em tendência, o pequeno ecrã reduz o Cinema a um par ou trio de géneros. E fá-lo porque é para filmes que se encaixem nesse formato que consegue a grande fatia da sua audiência. Passassem Antonioni ou Fassbinder e ficavam às moscas: a malta mudava logo de canal para a trash tv que os concorrentes, aproveitando, escolhessem emitir. Vem também daí a importância de um serviço público de televisão que proteja essa minoria cinéfila da cinefagia sem critério dos Outros. E talvez seja também aí que reside o futuro dos cineclubes e das salas de Cinema, nas obras de autor que, de uma forma ou outra, continuam a explorar as potencialidades da Sétima Arte. Extinga-se uma ou as duas dessas condições e o Cinema morre; ficamos apenas com filmes e a sua carcaça.

CL: Comenta a seguinte citação do realizador Manoel de Oliveira: «O cinema só trata daquilo que existe, não daquilo que poderia existir. Mesmo quando mostra fantasia, o cinema agarra-se a coisas concretas. O realizador não é criador, é criatura.»

AF: Nunca soube se concordava ou não com essa afirmação do Diácono. No fundo, trata-se de uma ideia muito relacionada com a filosofia com que se entende o Cinema, com o aceitar-se, ou não, o hiperrealismo putativo da sétima arte. A problemática é semelhante na música: o compositor "limita-se" a combinar os sons que já existem; mas ao fazê-lo cria, à partida, algo novo. Extrapolando para o Cinema, o autor combina os elementos existentes - as técnicas, a narrativa, etc. - na criação de um produto até aí inexistente.
Mais correcto, para mim, seria considerar o Cinema concreto nos meios de que dispõe e inovador no resultado que produz. Em relação aos filmes tout court a minha opinião já é diferente. Quem me lê já terá certamente percebido que escrevo a palavra [Cinema] sempre com maiúscula. Faço-o porque gosto de distinguir a Arte, inocente e inovadora, do objecto comercial, que, salvo raras excepções - e o Sam Mendes e o Ang Lee são exemplos dessas excepções -, se restringe a reaproveitar elementos já estabelecidos por outros. A citação do Oliveira fará mais sentido para um blockbuster do que, por exemplo, para uma obra do Edgar Pêra ou do César Monteiro que, pegando no que já conhecem, transformam-no em algo novo.
Será esse o objectivo-último do Cinema experimental: criar, na exploração das potencialidades do meio, "Cinema novo"? A fundação é comum à das Vagas, quebrar com a instituição artística em vigor, com o Clássico. Ora, o Clássico é um conceito extremamente plástico e deformável, varia de época para época. No MIDNIGHT IN PARIS, do Woody Allen, diz-se que nenhuma época se atribui a si mesma o epíteto de "dourada"; a tarefa produz-se sempre em retrospectiva. O Oliveira, nesse prisma, é um realizador Clássico. Pode não ser considerado Clássico pelos padrões dos anos 70 ou 80 - décadas em que produziu alguns dos seus trabalhos mais inovadores -, mas é-o pelos dos novos anos 00.
A Fantasia - o Fantástico enquanto género - é uma extensão desse experimentalismo. Cria-se ali, em função do que já se conhece, algo ainda por conhecer. O del Toro é exímio nesse aspecto: o EL LABERINTO DEL FAUNO, dentre todas as suas obras, é inovador, alicerçando-se nos contos-de-fadas. E quem fala no del Toro fala em muitos outros. No Carpenter, por exemplo, que marcou décadas de Terror pela inovação que emprega nas suas fitas. Os que não se dedicam a essa tarefa de criação reaproveitam os resultados - agora elementos conhecidos - de quem o fez. O filme de A ou B passa a fórmula de C. Daqui a vinte anos talvez haja quem considere o del Toro ou o Carpenter realizador "Clássicos". E a malta que nunca viu nenhum filme dos dois e decida pegar numa câmara para fazer concretizar a sua própria visão seja a inovadora.
Vai-se ao Dreyer, que disse nunca ter visto Cinema até ter começado ele próprio a fazê-lo, e percebe-se o problema. O homem, naqueles enquadramentos miraculosos, criou algo de novo. E não foi por isso que deixou de utilizar como meio o que já conhecia (no seu caso, a imagem do Mundo e a narrativa). Não creio que seja necessário manter-se uma visão hiperrealista do Cinema para o compreender. Prefiro acreditar que basta tê-lo como algo maior do que a vida.

30.7.13

Citações (11)

Scarface (1983), Brian De Palma


Tony MontanaIn this country, you gotta make the money first. Then when you get the money, you get the power. Then when you get the power, then you get the women.

28.7.13

À Boleia (3)

Um convidado responde a questões nucleares ou essenciais sobre o cinema.
Entrevistado: David Furtado, autor do blogue Wand'rin' Star.
Obrigado, David, pela colaboração.

Caminho Largo: Em geral o que é para ti um bom filme? Ou depende de demasiados factores?

David Furtado: Para mim, um bom filme é um filme que me toca. E isso depende de vários fatores. Pode ser o enredo, que às vezes não está diretamente relacionado com a nossa experiência, mas que nos toca porque nos identificamos com parte dele. E isso pode ser porque o realizador universalizou a experiência. Um exemplo: Doze Homens em Fúria. Nunca fui jurado, pouco ou nada percebo de arquitetura ou leis, mas as questões sobre Justiça levantadas pelo filme são intemporais. Noutros casos, o filme pode nem ser “bom”, mas revemo-nos nos personagens e no que eles vivem no ecrã.
Também acontece que um bom filme não tenha desempenhos propriamente geniais. Como Profondo Rosso, para mim, a obra-prima de Dario Argento. Aqui o importante é a história, o modo como é filmado, e como tudo está construído e mexe com o subconsciente.
Outro caso é um mau filme com excelentes desempenhos. Hitchcock, a meu ver, é um mau filme, mas tem boas atuações de Anthony Hopkins e Helen Mirren. Esta última e, por exemplo, Theresa Russell fizeram maus filmes, mas mesmo maus. E, no entanto, acho que os salvaram, em parte.
Os bons filmes tendem a ser originais em todos os campos. No fundo, acaba por ser um diamante com as faces lapidadas. Às vezes, brilha mais uma do que as outras. Quando quase todas brilham, estamos perante uma obra-prima. 

CL: O cinema tem de se debruçar sempre apenas e só sobre realidades ou a utopia pode ser explorada?

DF: Claro que a utopia pode e deve ser explorada. Se fossem só realidades, ninguém aguentava. Há coisas utópicas como Chuck Norris a matar 520 pessoas sozinho… e gosto muito de ficção científica. Por exemplo, um dos meus favoritos é Silent Running, em que toda a flora se extinguiu na Terra, e o que resta é mantido numa estufa, a bordo de uma nave espacial. Será isto assim tão utópico? Podia parecer em 1972, mas é para aí que caminhamos em 2013. De uma forma mais direta, acho que não há limites para a imaginação.

CL: As novas tecnologias devem ou não servir a sétima arte? Desde a cor e o som até ao 3D quais é que foram as mais bem sucedidas ou as mais decisivas?

DF: Acho que devem. A cor, o som e a alta definição são muito bem-vindos, depois do que muitos de nós tiveram de assistir em VHS ou com uma imagem terrível. Regra geral, não gosto de CGI, porque é usada em excesso. Dando um exemplo, para quem nunca tocou guitarra elétrica: Se a ligares através de efeitos e os puseres todos no máximo, aquilo soa a tudo menos a uma guitarra. A um OVNI, talvez ou a motores de avião.
Portanto, o mal não está na tecnologia em si, mas no modo como se emprega. Quando há muita pirotecnia, explosões e figurantes saídos de um computador, distrai. Não me consigo concentrar num filme desses. Por muito tosco que seja o Tron, a sequela é ridícula. Noutros casos, é a montagem. A Mighty Heart (2007) tem uma montagem execrável, o que é lamentável porque a história é razoável, Angelina Jolie, apesar de eu não a apreciar particularmente, tem excelentes momentos… e dei por mim a contar os segundos que durava cada plano. Um, dois, três segundos. Quatro já era muito. Resultado: Não vi até ao fim.
As novas tecnologias pretendem auxiliar o ser humano em todas as áreas, não escravizá-lo. E não são a resposta para todos os problemas da Humanidade. A maioria das pessoas tem tendência a usá-las mal. Acho que mais esforços deviam ser dedicados a encontrar uma cura para o cancro ou a SIDA do que em desenvolver parvoíces como a 3D e outros artefactos que não passam de um símbolo de status e uma praga… que infelizmente já contagiou Hollywood, com remakes, re-remakes, Lincoln a caçar vampiros e Brad Pitt a livrar o mundo de zombies. Acho que agora vem aí um remake de The Wizard of Oz (1939)... perderam a noção do ridículo.

CL: Cultura, lazer e cinema. Em que medida os três conceitos estão associados e entrelaçados?

DF: Podem surgir associados ou separados. Nunca achei que o cinema fosse um mero entretenimento, mas pode ser. Um filme com grande nível de entretenimento como Os Salteadores da Arca Perdida (e também um bom filme, segundo o meu padrão pessoal) também é lazer. E cultura. É o exemplo de como um filme se infiltrou na nossa cultura. E sejamos frontais, quem não adora o Indiana Jones?…
Um filme de Ingmar Bergman, como Persona, pode ser muito enfadonho. Mas o seu significado cultural e artístico é inegável, mesmo para quem saiba pouco sobre Bergman, como é o meu caso. Só posso dizer que gostei muito desse filme.

CL: Comenta a seguinte citação do realizador John Cassavetes: "O cinema é uma investigação sobre as nossas vidas. Sobre o que somos. Sobre as nossas responsabilidades, se houver. Sobre o que estamos procurando. Por que eu iria querer fazer um filme sobre algo que eu já conheço e compreendo?"

DF: Tinhas de pegar por John Cassavetes… já demonstrei a minha admiração por ele no Caminho Largo. É o realizador sobre o qual mais escrevi, vi todos os filmes realizados por ele, quase todos os papéis enquanto ator, inclusive em TV, li uma data de livros, vi inúmeros documentários… É uma exceção. Para ele, não fazia grande sentido trabalhar sem aprender com a experiência. E queria divertir-se. Queria até “encontrar uma revelação”, segundo Scorsese.
Por isso, dou-te um caso concreto, o Faces. Começou por querer criticar as pessoas e o status quo, mas ao filmar, começou a perceber que as pessoas que ele pretendia criticar e que eram cruéis para os outros, deviam sofrer imenso para terem o impulso de torturar os que os rodeavam. Assim, modificou um pouco o filme e o seu ponto de vista mudou. E talvez por isso Faces esteja lá no topo, juntamente com Citizen Kane (ou seja lá qual for o “melhor filme de sempre”) no “panteão” das obras-primas, apesar de não ser o meu filme favorito dele.
Cassavetes funcionava de modo totalmente diferente da maioria dos realizadores, e é uma fonte de inspiração para muitos. E não é por acaso. Até para mim, que não sou realizador nem tenho essas ambições. Também eu tento sempre conhecer e compreender melhor filmes ou aquilo que procuro, fazendo toda essa investigação, no que escrevo. Quando às vezes dizem, “aprendi muito sobre este filme, não sabia nada disto”, agradeço, claro. Mas também eu aprendi, sobre o filme e sobre mim, talvez. Portanto, compreendo bem o que ele quis dizer.

26.7.13

Manual de Regras (7)

Amor com amor se paga.

Gone with the Wind (1939)
E Tudo o Vento Levou, Victor Fleming

21.7.13

À Boleia (2)

Um convidado responde a questões nucleares ou essenciais sobre o cinema.
Entrevistado: João Palhares, autor do blogue Cine Resort.
Obrigado, João, pela colaboração.

Caminho Largo: Qual a principal característica ou valor essencial que um filme deve ter?

João Palhares: Eu prefiro dar aos filmes algum espaço de manobra de antemão, não partir para eles à espera que sejam assim ou assado... Portanto características, zero. Se for mesmo um filme já não é mau.

CL: O cinema está mais nos planos e nos movimentos de câmera ou na sua narrativa e mensagens subliminares? Ou na simbiose e na relação estreita e satisfeita entre os dois lados?

JP: O Samuel Goldwin disse que quem quisesse enviar mensagens devia usar a Western Union. Eu concordo. Em relação à narrativa, claro que tem que haver uma relação, não necessariamente estreita, não necessariamente satisfeita, que o conflito tem que nascer de alguma maneira. Mas a resposta tem que estar nas personagens, porque entre narrativas e mensagens há muito poucas combinações. Mas se aquela pessoa é assim e talvez mereça um plano para ser assim e a virmos assim, sem mais, a coisa pode ser especial. Que se tenha o estofo para dar a câmara e o tempo aos outros, sem mentiras, que é como dizer "saber o que se está a fazer" ou como mostrar o 'Duke' Wayne durante uns segundos a atravessar a cidade de Rio Bravo.

CL: Conteúdo vs Forma. Onde situas e a que associas cada um destes conceitos num filme?

JP: O conteúdo associo às grandes injustiças no cinema. É o conteúdo que faz alguns cineastas e é o conteúdo que desfaz outros, muitas vezes bem melhores. O conteúdo é a desculpa para não se levar certas formas a sério e o engodo que serve de bandeira aos "grandes cineastas" temáticos, licenciados da escola Stanley Kramer ou da escola Lars von Trier (ou de Todd Solondz ou de João Canijo circa Sangue do Meu Sangue). É vê-los com as mensagens e com as picardias da seriedade e com um imenso arsenal de temas para serem discutidos. As explosões e os temas servem para a mesma coisa: vender bilhetes. Mas à força toda, porque vender bilhetes por si só não é uma coisa má. A forma, se bem que também usada como bandeira por outros "grandes cineastas" (Sokurov, irmãos Coen), é ainda um grande mistério, e que não lida só com o esquema da coisa (a forma não são storyboards). A forma é o que faz um filme, mas o que é que faz um filme?

CL: Diz-se geralmente que a arte (e o cinema associado) é fortemente subjectiva. Concordas com esta posição? Haverá algo de objectivo no objecto artístico?

JP: Já concordei, já. Agora tenho menos certezas sobre o assunto. Se é tudo subjectivo, estamos numa grande embrulhada e, realmente, qualquer um é artista e qualquer um é cineasta e qualquer filme é uma obra-prima, que há sujeitos e objectos que cheguem para isso tudo. É por isso que "arte" e "artista" são palavras perigosas hoje em dia, se calhar. Parece que já não é um trabalho, não, não é esperar pela luz ou pelas palavras certas, é mais uma coisa de se estar a gostar do que se está ver e de vermos alguém explicar-se, ou analisar-se, por imagens. Os "autores" e não sei quê... Mas também é uma coisa que ultrapassa o cinema. Parece que vivemos em tempos em que se tem que ter opinião sobre tudo e isso é muitíssimo saturante. Sim, se calhar já não vivemos num século de artesãos ou dos blocos de mármore de Miguel Ângelo aos quais se tira tudo o que não é necessário, se calhar cansámo-nos de falar de formas e de luz e de sombras, mas há quem vá resistindo a isso, felizmente, e não se eleve acima de ninguém. James Gray, Pedro Costa, Jacques Rivette... Goste-se ou não, acho que se pode ver que são realizadores que se ocupam precisamente do que é objectivo no cinema.

CL: Comenta a seguinte citação do realizador John Carpenter: "Os filmes são pedaços de filmes unidos em um certo ritmo, uma batida absoluta, como uma composição musical. O ritmo de criar afecta o público."

JP: É genial. Como aliás tudo o que sai da cabeça de John Carpenter.

19.7.13

À Pergunta da Resposta (4)

Pergunta:
Um filme que explore a problemática da existência, da humanidade e do amor que se pode intrometer e prevalecer no meio?

Resposta:
(na resposta à questão está uma palavra a reter)

(na resposta à questão está uma palavra a reter)

(na resposta à questão está um nome a reter)

Pergunta:
Um filme que explore a problemática da existência, da humanidade e do amor que se pode intrometer e prevalecer no meio?

Resposta:
A resposta está nas pistas ou no que elas sugerem.
Adivinha qual o filme?
(soluções posteriormente nos comentários)

(os textos e as publicações envolvidas nas pistas são de consulta e leitura obrigatória)

18.7.13

CCOP: Top de Junho de 2013



Before Midnight (Antes da Meia-Noite), filme que completa a trilogia das personagens Jesse e Celine, foi considerado o melhor filme do mês de Junho. Mas não só. Com 8,82 de classificação média (especialmente impressionante agora que deram entrada seis novos membros no CCOP), o filme tem entrada directa para o primeiro lugar do top anual. Entre todos os filmes já votados pelo CCOP, Antes da Meia-Noite recebeu a décima segunda maior classificação de sempre, a mesma conseguida por Blade Runner (1982). Se comparamos com o ano passado, é uma nota apenas ligeiramente inferior à do líder de 2012: Tabu, que foi classificado com a nota média de 8,89. Os filmes que completam o pódio de Junho são ambos escandinavos: o sueco Searching for Sugar Man (À Procura de Sugar Man(vencedor do Óscar 2013 de Melhor Documentário), que deu entrada directa no décimo lugar do top anual e o norueguês Headhunters - Caçadores de Cabeças. Nota para a reposição em sala do clássico de 1953, From Here to Eternity (Até à Eternidade), com a média de 7,73.

Para mais informações e outros detalhes, assim como para os tops dos meses anteriores e para o top anual, ir ao site oficial do Círculo de Críticos Online Portugueses aqui. Eis então o top completo dos filmes, com suficiente amostragem, estreados em Portugal em Junho de 2013:

1. Before Midnight (2013)
Antes da Meia-Noite, Richard Linklater | 8,82
2. Searching for Sugar Man (2012)
À Procura de Sugar Man, Malik Bendjelloul | 7,91
3. Headhunters (Hodejegerne) (2011)
Headhunters - Caçadores de Cabeças, Morten Tyldum | 7,38
4. Lore (2012)
Cate Shortland | 7,13
5. Monsters University (2013)
Monstros: A Universidade, Dan Scanlon | 6,57
6. Star Trek Into Darkness (2013)
Além da Escuridão: Star Trek, J.J. Abrams | 6,50
7. World War Z (2013)
WWZ: Guerra Mundial, Marc Forster | 6,40
8. Now You See Me (2013)
Mestres da Ilusão, Louis Leterrier | 6,17
9. Man of Steel (2013)
Homem de Aço, Zack Snyder | 5,60
10. Stand Up Guys (2013)
Gangsters da Velha Guarda, Fisher Stevens | 5,43
11. Hyde Park on Hudson (2012)
Hyde Park em Hudson, Roger Michell | 5,00
12. The Internship (2013)
Os Estagiários, Shawn Levy | 5,00
13. Seal Team Six: The Raid on Osama Bin Laden (2012)
Operação Gerónimo: A Caça a Bin Laden, John Stockwell | 4,75
14. Sympathy for Delicious (2010)
Um Toque de Fé, Mark Ruffalo | 4,25
15. A Casa de Mi Padre (2012)
Matt Piedmont | 3,00