30.5.13

Bandas Sonoras (6)

The Magnificent Seven (1960), John Sturges


Faixa e respectiva banda sonora fabricada e conduzida por Elmer Bernstein, naquele que é, indubitavelmente, um dos seus mais famosos trabalhos de composição no que à sétima arte diz respeito. A força que incute, a imprevisibilidade e a dinâmica alternada fazem deste tema em específico um autêntico hino à aventura e aos grandes Westerns de outrora. The Magnificent Seven só fica a ganhar (e de que maneira) com esta associação imortal de música e identidade.

27.5.13

Sergio Leone - A Reinvenção do Western



Sergio Leone é um cineasta que, para muitos, tem o seu nome gravado no panteão dos grandes realizadores que a sétima arte já nos presenteou. É, contudo, controverso e popular em demasia para outros, o que resfria a euforia e lhe retira talvez um pouco a aclamação e o respeito que, merecidamente, deveria ter. Nada de grave, aliás sendo a unanimidade nada saudável, a crítica e o desrespeito de certas elites até o favorecem, senão veja-se a legião de fãs e o sub-género Spaghetti que hoje o homenageiam e o dignificam um pouco por todo o lado.

Pode-se dizer, de facto, que o realizador, outrora assistente de câmera de Vittorio De Sica, deixou a sua marca indelével no cinema sobretudo com a reinvenção de um género - o Western Americano (à data moribundo e à procura da sua própria identidade) - através do denominado Western Spaghetti, que teve o seu começo sensivelmente em meados dos anos 60 com o seu filme Per un Pugno di Dollari (o qual Clint Eastwood protagonizou). Com a ajuda posterior de outros cineastas que alimentaram e expandiram as marcas deste tipo de cinema, a recriação dá-se, em traços gerais, pela implementação de um estilo altamente amplificado e irreverente, e por isso facilmente identificável e reconhecido, em que as histórias e as respectivas personagens se sobressaem não pelo encanto e pelo classicismo próprio dos Westerns Americanos, mas sim pelo aspecto grotesco, simplista e violento que povoam amiúde as desérticas paisagens.

Autênticas orquestras ou sinfonias, estes filmes iniciais também são conhecidos pela sua ponderada e alternada utilização de música, esta que detém um papel fundamental na tal estilização do sub-género, e no qual Ennio Morricone foi o mais proeminente de todos (sobretudo na sua parceria lendária com Leone). A forma como varia entre o êxtase e o silêncio total faz com que a emoção vibre e o entusiasmo se projecte, daí que o público, mais que a crítica, se reveja incondicionalmente com os filmes e os seus anti-heróis, ou a humanidade que eles evidenciam nas boas e nas más acções. Mas os críticos, americanos inclusive, também se renderam e se rendem (apesar de só mais tarde, anos após as estreias comerciais), seja pela filmagem em si e no que isso potencia, seja na montagem caracterizada e dilatada ao mais ínfimo pormenor. Do close-up (mecanismo inovador e preponderante nas expressões faciais dos protagonistas) até às panorâmicas (exímios retratos de uma América sonhadora, mas realista e desprovida de acessórios o quanto baste), Sergio Leone proporciona fabulosas sequências, harmonicamente equilibradas e humanamente trabalhadas, que têm na câmera e no enquadramento a sua verdadeira razão de existência.

A consolidação do sub-género foi-se então materializando e se propagando, no seu núcleo pelas obras de Leone, mas também por outros realizadores e por outros filmes que, aqui e ali, extravasaram o estilo e a sua direcção temática, não fosse a evolução um dos factores essenciais para a sobrevivência de um produto e de um sistema. Inevitavelmente chegou-se a um ponto que o Western Spaghetti definhou, restando então não mais que recordações e uma herança de centenas de filmes produzidos na sua maioria entre Espanha e Itália. A reter, acima de tudo e sem desprimor para outros, está Sergio Leone e uma respectiva e brilhante carreira. Curta, é certo, mas recheada de solidez, genialidade e intemporalidade. Os seus filmes, no seu todo contam-se apenas 7 longas-metragens como realizador, das quais 5 são Westerns (ou 6 se contarmos com o Il Mio Nome è Nessuno em que não é oficialmente um dos realizadores), espelham perfeitamente uma evolução, uma constante tentativa de aperfeiçoamento e de ambição (veja-se o triunfo de filmar mesmo na América com o seu C'era una volta il West). Facto que, dentre todas as nuances interpretativas e de análise pós-obra, confirma a revolução sobre um género e sobre uma mecânica de filmar, definindo e catapultando uma imagética e sonoridade estilísticas para outros países e décadas.

A título de exemplo e como legado tem-se, nos dias de hoje, autores como Quentin Tarantino e Robert Rodriguez nos seus famosos pastiches e na libertação de certas convenções, assim como na extrema referência que sofreu e ainda sofre o seu mais prestigiado filme - Il Buono, il Brutto, il Cattivo. A influência artística estende-se também a outros géneros, como muito bem prova o último filme de Leone ou a sua incursão pelo mundo dos gangsters - Once Upon a Time in America - que assume um estilo aproximado e que transporta para outro cenário e outras épocas a mesma dinâmica de narrar e filmar uma história. Poucos cineastas alcançaram a destreza e a inteligência de Leone no acto de desconstruir um género (e o correspondente sonho americano) ao mesmo tempo que retém e sustém uma total melancolia e saudade em revalidá-lo, a tal ponto de actualmente ser impossível dissociar, senão destacar, os seus filmes do Western em geral.


Filmes em destaque:
Per un Pugno di Dollari (A Fistful of Dollars) (1964), Sergio Leone
Per Qualche Dollaro in Più (For a Few Dollars More) (1965), Sergio Leone
Il Buono, il Brutto, il Cattivo (The Good, the Bad and the Ugly) (1966), Sergio Leone
C'era una volta il West (Once Upon a Time in the West) (1968), Sergio Leone
Giù la Testa (A Fistful of Dynamite) (1971), Sergio Leone
Il Mio Nome è Nessuno (My Name Is Nobody) (1973), Tonino Valerii e Sergio Leone

Texto originalmente publicado na iniciativa 'O meu ciclo' do blogue A janela encantada

26.5.13

Manual de Regras (4)

Quem conta um conto, acrescenta um ponto.

Rashômon (1950)
Rashômon - Às Portas do Inferno, Akira Kurosawa

24.5.13

Mystic River (2003)

Mystic River, Clint Eastwood


A cidade como que vive e sobrevive na sua quietude e paciência eternas. As pessoas caminham e se cruzam entre si, preenchendo as ruas, o espaço e os vazios da temporalidade. Na sombra está o rio, o Mystic, que corre sem pressas e sem problemas, sistematicamente, qual cenário belo e fixo. Contempla calmamente o panorama citadino e a vida dos intervenientes da sociedade em que se envolve. Circulando e assistindo ao dia-a-dia, o rio é, porventura, a única testemunha de algumas situações e acontecimentos graves ou preponderantes na charneira que por vezes se desenha à sua frente, incauta e despropositadamente. O rio sabe os segredos mais obscuros, mais esquecidos, e portanto, sabe quase sempre mais que nós, transeuntes e meros peões numa malha que por si só se perde e se emaranha na complexidade da vida.

É neste cenário e sobre este prisma que a história deste filme se desenrola. Divide-se, desde logo, em duas - a primeira, na infância e na inocência própria desta fase. As brincadeiras são muitas, as traquinices ainda mais, e, logo, não será de estranhar que um mero encontro despoletará a mais vil recordação e, infelizmente, a fractura decisiva. Acaso ou não, a situação mudará para sempre a vida dos três amigos, os três protagonistas do filme, à data parceiros inseparáveis. Na segunda parte da história, e transportados anos mais tarde, constatamos que a amizade antes inquebrável se situa agora no limiar entre a memória e o simples reconhecimento. A vida concede voltas, e o seu curso toma direcções díspares, pelo que os três amigos, ainda que vivendo sob o mesmo tecto urbano, assumem posturas e profissões sociais distintas. Os cruzamentos pelo bairro e pela vizinhança revelam apenas e só lembranças e (des)apreço mútuo. A reter, por isso, estará nesta fase, e inequivocamente, a família e o quotidiano que se adensa, pelo que a infância reflecte única e exclusivamente uma nostalgia do passado, vivido sob a alçada do bairro e do rio transversalmente atento.

Entretanto, outro acontecimento se dá, e, uma vez mais, o Mystic é testemunha. Evocando certas memórias, é a partir deste ponto que começará então o mistério e o drama profundamente enraizados e escondidos de há muito. A suspeita, o medo e a incerteza modelam o espaço e, sobretudo, o subconsciente. Como se aquele fatídico dia e o acontecimento consequente nunca pudesse cair no total e absoluto esquecimento. De facto, é evidente, certos traumas permanecem e se demarcam, definindo e construindo identidades e amizades socialmente precipitadas, ao ponto de a confiança dar lugar à acusação e ao desrespeito quando é conveniente. É triste, mas no fim de contas verdadeiro e humano, por mais atroz e cruel que isso possa parecer.

No fundo, três amigos, três adultos e três casais formam a estrutura e a evolução do próprio filme (e da própria vida), sem retorno e sem emenda. Particularmente, determinam a história e o drama presente, que entrelaçado na vivência e na actividade de cada um se desenhará segundo os contornos da personalidade e da crença individuais. Nada resiste à mudança e ao tempo, pelo que o crescimento é inevitável, no bom e no mau sentido, e o que antes era duvidoso e desconfortável, agora pode-se revelar certo e determinante. Ou não, quem sabe?! Aqui, apenas o rio, o Mystic, que é o elo entre as recordações e os acontecimentos presentes, é como que a metáfora das alegrias e das mágoas, as quais aparente e temporariamente ficam submersas, mas que face a actuais tragédias regressam à margem e à superfície com uma brutalidade e crueldade inesperadas. Resta o discernimento, a ponderação e a calma, tão difíceis nestes momentos.


Clint Eastwood, apoiado por uma excelente fotografia e por uma grande banda-sonora, filma o drama numa cadência sombria e policial, e com uma contenção e uma intensidade notáveis. Retrata e explora tanto as nuances psicológicas dos seus personagens, quanto a normalidade e a frieza do quotidiano de um bairro, onde todos se conhecem e onde todos estão, intimamente, prontos a apontar o dedo. Travellings sobre o rio acentuam a sua tal presença assídua, os planos fixos, sinceros e solidários com o argumento demonstram uma opção certa, tal como ainda os ligeiros movimentos de câmera denunciam particulares sequências e momentos fracturantes. A título de exemplo, a cena da revelação da morte de uma personagem e da consequente tomada de conhecimento paternal é tremendamente reveladora deste aspecto. Arrepiante. Grande cena, e a propósito, grande Sean Penn.

Mystic River se assume assim, qual rio profundo, como um dos mais ocultos e intensos dramas da década transacta. De emoções fortes e com uma densidade e profundidade destacáveis, é nas personagens, as tais seis pessoas (em sublimes interpretações), que verdadeiramente se define, ainda que, e sempre, a contenção e a respiração que Eastwood é capaz de sustentar o abrilhante ainda mais. Por tudo isto, resta-nos somente mergulhar na realidade, por mais cinzenta e violenta que ela seja.

Texto originalmente publicado na iniciativa 'O Cinema dos Anos 2000' do blogue Keyser Soze's Place


Jorge Teixeira
classificação: 9/10

19.5.13

Conversas Anónimas (1)

Oblivion (2013), Joseph Kosinski


Sujeito X: Já viste o Oblivion?
Sujeito Y: Já. Vi-o no fim-de-semana passado.
X: E então, gostaste? Qual a tua opinião?
Y: Mais ou menos. O filme até começa bem, tem ali boas premissas, o problema é que no fim se resume ao mesmo de sempre. Nada de novo.
X: Pois, também senti isso. Acaba por ser até frustrante, dado o potencial do conceito.
Y: Sim, tem potencial, ainda que tivesse de levar algumas voltas para não cair em algo já tão batido. Mas pronto, nem tudo é mau, eu gostei, por exemplo, dos cenários e da fotografia. Retratam bem o planeta destruído. Os efeitos especiais então nem se fala, muito bons.
X: Estão excelentes, sem dúvida. 
Y: Mas atenção, não gosto de me deslumbrar com isso, nem tão pouco prestigiar um filme por essa vertente, embora claro que possa constatar o bom trabalho realizado nesse campo. Normalmente neste tipo de discussão faço um esforço e prefiro, numa perspectiva, avaliar a história e a sua adaptação, noutra, o aspecto inovador da realização. O resto é puramente acessório na maioria dos casos.
X: Sim percebo o ponto de vista, de qualquer modo nunca se pode esperar algo de verdadeiramente inovador neste tipo de filmes mais comerciais, não é?! Penso que se deve apreciar um filme segundo o objectivo para o qual foi realizado, ou para o tipo de público para o qual é direccionado.
Y: Claro, há que ter isso em conta, mas se reparares até assim não deixa de ser mais do mesmo.
X: Nisso estou de acordo.
Y: Por outro lado, é sempre bom termos em mente a verdadeira dimensão do cinema, senão às tantas estamos sistematicamente a tentar descobrir diferenças e a tentar qualificar um produto numa escala redutora, quando existe todo um mundo lá fora e diversas outras formas de abordar qualquer tipo de argumento. Há que ter noção, acima de tudo, da capacidade e da abrangência do cinema, que não se restringe apenas a Hollywood. Por isso, e para não escorregarmos para universos particulares, convém sempre equilibrarmos e, porque não, compararmos este com aquele filme, independentemente se são para o mesmo público ou não. Resfriamos muitas vezes euforias, assim como reconhecemos noutras situações mais-valias que não percepcionamos logo à primeira.
X: Compreendo. São visões. Pessoalmente, gosto de separar as águas, ainda que no final se fale sempre do mesmo, daquilo que, no fim de contas e fora de divergências, tanto gostamos - filmes. Mas voltando ao Oblivion, reténs alguma coisa que possa ser lembrado no futuro?
Y: Isso é sempre incerto, depende de muitos factores, inclusive exterior ao cinema. Eu diria que, ainda que se trate de um filme de ficção científica, não. Será um filme de domingo à tarde, para passar na televisão e para entreter um maior número de pessoas. Nada mais.

Nota: O conteúdo destas "Conversas" não reflecte, necessariamente, as opiniões dos autores do blogue. 

18.5.13

1 Tema, 3 Filmes (6)

Voyeurismo

Rear Window (1954)
Janela Indiscreta, Alfred Hitchcock

The Conversation (1974)
O Vigilante, Francis Ford Coppola

The Lives of Others (Das Leben der Anderen) (2006)
As Vidas dos Outros, Florian Henckel von Donnersmarck

por Jorge Teixeira e Pedro Teixeira