27.10.12

Entradas e Saídas (1)

Shane (1953), George Stevens


Existe em Shane um ciclo, uma história que começa e acaba, um princípio, um meio e um fim (como mandam as regras convencionais de uma narrativa). Ao raiar do dia, Shane, o homem, entra em cena para introduzir-nos o conto, para agitar e baralhar aquela família, mas também, e principalmente, para dar uma ajuda às necessidades patentes do quotidiano. O tempo passa, os minutos avançam e a acção desenrola-se. Ao pôr do sol, Shane, o homem outra vez, sai de cena para fechar o livro, para terminar um capítulo com aquelas pessoas, e para não se prender, e prender os outros, à sua presença e irreverência. Sobre o mesmo cenário e sobre o mesmo enquadramento se completa um ciclo, e se faz um filme.

26.10.12

TCN Blog Awards 2012: Nomeados



O Caminho Largo está nomeado a Melhor Novo Blogue de Cinema/TV nos TCN Blog Awards 2012, uma iniciativa do blogue Cinema Notebook, na sua já 3ª edição oficial, que permeia todos os anos blogues e sites nacionais de cinema e televisão. Para além desta nomeação, inesperada a propósito (este espaço é ainda tão recente e tão embrionário), mas não menos desejada e gratificante, o blogue também está nomeado, em meu nome, na categoria Melhor Crítica de Cinema, com a crítica ao Dersu Uzala, de Akira Kurosawa.

De destacar ainda o meu envolvimento em duas iniciativas conjuntas que foram igualmente nomeadas na respectiva categoria Melhor Iniciativa, de seu nome Cinema Blogger Awards (no qual sou jurado) e Filmes que toda a gente gosta, mas eu não do blogue Cine31 (no qual fui participante).

Resta-nos agradecer aos que nos elegeram e que, portanto, apreciam o que aqui é escrito e publicado, e garantir o mesmo entusiasmo, interesse e regularidade em partilhar o nosso caminho e escrever sobre esta arte tão bela e fascinante. Entretanto, aconselhamos a ida ao blogue que organiza tamanha iniciativa e que por lá confiram todos os nomeados e categorias - certamente descobrirão excelente material para agradáveis e sérias leituras, bem como espaços de estatuto e referência inquestionáveis. E já agora, não deixem de votar no vosso preferido, que caso seja este blogue basta seleccionar as opções Caminho Largo e/ou Dersu Uzala. Obrigado desde já. Para votar e para mais informações dirijam-se ao Cinema Notebook (as votações encontram-se na barra lateral do mesmo).

Jorge Teixeira e Pedro Teixeira

20.10.12

5 Grandes Filmes de Terror (3)


Psico, Alfred Hitchcock

The Texas Chain Saw Massacre (1974)
Massacre no Texas, Tobe Hooper

Halloween (1978)
Halloween - O Regresso do Mal, John Carpenter

A Nightmare on Elm Street (1984)
Pesadelo em Elm StreetWes Craven

Saw (2004)
Saw - Enigma Mortal, James Wan

por Jorge Teixeira e Pedro Teixeira

18.10.12

Bandas Sonoras (2)

Raging Bull (1980), Martin Scorsese


Pertencente ao interlúdio da aclamada e famosa ópera Cavalleria Rusticana de Pietro Mascagni, este tema torna-se o elemento chave, qual cereja no topo do bolo, para a derradeira imortalidade e sucesso da obra de Scorsese. Na ausência de banda sonora, a presença desta música como que ainda ressoa, e a cena correspondente inicial perdura até aos dias de hoje, no que será provavelmente uma das melhores entradas de sempre de que o cinema já produziu. Transcendente e de rara poesia.

Por intermédio desta faixa, inserida no início e no final do acto (curiosamente os extremos do seu propósito original), o filme ganha todo um sentido mais uno, cíclico e completo, como uma porta que se abre e que se fecha quando já se contou tudo o que havia para contar, quando uma vida deixa de ter reflexões e memórias que valham a pena partilhar. Arrancamos, assim, de forma fulgurante, e porque não mágica, para uma experiência avassaladora, no seu núcleo fria e silenciosa, mas poderosa que baste e que se exceda, para no fim regressarmos novamente à contemplação e introspecção de uma autêntica lição de vida.

16.10.12

Dersu Uzala (1975)

Dersu Uzala - a Águia da Estepe, Akira Kurosawa


Filme riquíssimo na mensagem, na narrativa, naquilo de que talvez o cinema mais precisa hoje em dia – verdade. Essa verdade é-nos dada através de Dersu Uzala, personagem que dá título ao filme, um homem de idade avançada e de estatura diminuta que vive da e para a natureza, que se movimenta como se da própria estrutura elementar da mesma fizesse parte, o que na realidade até faz. Todo o ser-humano é parte integrante e insignificante de um todo, em perfeita comunhão com o primitivo e selvagem. Dersu é por isso uma personificação de um estado antigo, de uma vivência pré-temporal nostálgica, sábia e experienciada. Tal como ele próprio, com a sua humildade, está constantemente a evidenciar perante a arrogância e ignorância do exército russo e do seu oficial, recém chegados. Facto que este último acaba por perceber passando de imediato a admirar, contrariando assim a tendência, ao ponto de erguer uma amizade sem precedentes e começá-lo a seguir cegamente pelos meandros do desconhecido e da aventura.

Ás tantas, e lá mais para o fim, a situação inverte-se, invertendo-se também o espaço (e o tempo) para os dois protagonistas. A amizade conquistada fortalece-se, mas as motivações, os medos, os prazeres e a rotina trocam de lado e adensam-se, inevitavelmente. Surgem então as dificuldades onde antes residiam apenas facilidades (e vice-versa), demasiado evidentes e desconfortáveis, tão fortes quanto a dureza da personalidade em si, ou tão rígidas quanto a inflexibilidade do orgulho. Tudo se resumirá às mais pequenas e pertinentes questões: estará  Dersu, um homem que respira a floresta e o campo como se de oxigénio se tratasse, preparado para enfrentar o meio Urbano, o meio onde o ambiente é mecanizado, formatado e contido? Ou alguma vez conseguirá um cidadão (como o oficial russo) assimilar tamanho conhecimento e destreza humanas no acto de sobrevivência e subsistência no meio selvagem? As respostas não são simples, nem tão pouco conclusivas perante o que assistimos. Bem patente, no entanto, revela-se a pequenez humana perante a magnitude das paisagens, sobretudo, a selvagem, a mais verdadeira, aquela a que Dersu faz parte e a que o oficial russo (e nós) nos apercebemos como mais poderosa e essencial (ainda com tanto por desvendar).

Trata-se, pois, de um exercício narrativo e didáctico tremendo e muito bem escrito. Kurosawa, num estilo mais poético do que o habitual, conta-nos uma história de amizade, de partilha e de bom-senso, mas acima de tudo, remete-nos para o valor unitário do ser-humano inserido numa escala desmesuradamente superior. É neste contexto que o cineasta também nos conduz para o significado do tempo e da vida, tão efémera quanto a memória dos que cá ficam, dos que se lembram. Valores estes que depois são (re)tratados na sua maioria à distância, em magníficos planos gerais perfeitamente enquadrados sempre com as duas personagens (humanas e naturais), como se nunca tirasse partido apenas de um detalhe, ou da folha da árvore ou do rosto do homem, antes nos mostrando (e não sensibilizando) os acontecimentos, única e exclusivamente. Toda essa imponência fílmica e narrativa nunca é, nessa medida, desviada, nunca se desvirtua, porque invariavelmente aponta ao essencial e logo à profundidade que temas deste calibre requerem.


Soberba ainda a fotografia que completa o quadro e nos brinda com contrastes e luminosidades de paisagens absolutamente deslumbrantes. E se por um lado se pode dizer que este é um filme sobre a natureza, sobre a dualidade entre o natural e o artificial e sobre a noção de escala entre o Homem e o meio-ambiente, por outro, é acima de tudo um filme que nos transporta para a autenticidade e para a amizade na relação entre os seres-humanos, no caso de duas pessoas tão diferentes social e culturalmente, o que é extraordinário e simplesmente maravilhoso.

"How can man live in a box?"

Crítica nomeada em 'Melhor Crítica de Cinema' nos TCN Blog Awards 2012


Jorge Teixeira
classificação: 9/10

11.10.12

Citações (1)

Ben-Hur (1959), William Wyler


Sextus: You can break a man's skull. You can arrest him. You can throw him into a dungeon. But how do you fight an idea?
Messala: Sextus, you ask how to fight an idea. Well, I'll tell you how... with another idea!