3.9.13

Tokyo Story (Tôkyô monogatari) (1953)

Viagem a Tóquio, Yasujirô Ozu


Um dos filmes mais aclamados de Yasujirô Ozu é paradoxalmente um dos mais tristes e melancólicos da sua carreira, não pelo sentido cinematográfico em si, mas pelo sentido vivencial, terreno e emocional, que nos rasga, nos fere e nos consciencializa, em última análise, com a perda de algo ou de alguém que, eventualmente, não dedicamos tempo suficiente. Trata-se, acima de tudo, de (mais) uma incursão do cineasta japonês pelos meandros da vida comum, das origens, das relações humanas mais próximas, de questões geracionais e do próprio esgotamento das mesmas.

Viagem a Tóquio é um filme, antes de mais, sobre a família, sobre os costumes do dia-a-dia, sobre o peso dos anos (que não findam), sobre o crescimento, sobre a convivência vulgar, diária e difícil de sustentar, de equilibrar e de revitalizar. Os nossos, a nossa família, é única, é insubstituível, é um dado adquirido (mas também por adquirir, por degustar) no bom e no mau sentido, isto é, quando as coisas correm bem ou quando as coisas correm menos bem. Por isso, convenhamos, nem sempre é fácil a coabitação, a intimidade, a lembrança, a confrontação de preocupações de pais e filhos e o encaixe familiar entre os diversos membros em fases distintas de idade, por mais que a saudade e a união depois prevaleça na memória. Geralmente, e à posteriori, é quando menos se espera que a realidade, e a verdade, caem sobre nós, fulminantes, ultrajantes, impetuosas, que nem balas perdidas. Perfeitamente normal, diria, e que corresponde tão simplesmente à passagem das pessoas por diferentes estágios da vida, da irreverência e indiferença ao amadurecimento e à velhice.

Por outro lado, é também um filme sobre a frieza e a rigidez do sistema social e de tudo aquilo que nos regula e nos limita numa comunidade. Os pais criam, educam e formam os filhos, que por sua vez acabam décadas mais tarde por ter de cuidar reciprocamente dos seus progenitores, ou, no contexto do próprio filme, abandoná-los ficticiamente e, porque não, negligenciá-los cruel e amargamente em detrimento do trabalho e do seu núcleo familiar. É o curso natural, ao que parece, da vida, das limitações do espaço, da emancipação, do próprio Homem e da força da contemporaneidade. O conflito entre tradição e modernidade é também ele aqui retratado e exposto mais que não seja pelo impulso e pela firmeza que o novo detém sobre o velho, que a actualidade detém sobre a antiguidade (factos e valores, aliás, que são transversais do Oriente para o Ocidente e que sobrevivem até hoje, o que demonstra a intemporalidade e a universalidade do filme). Condenável, ainda assim, e de reflectir perante o que assistimos, principalmente, no que à solidão dos que já educaram e ao uso do quotidiano dos que educam, diz respeito.


E é aqui que entra, provavelmente, o código ou o pensamento mais predominante e mais fracturante de toda a película - o tempo. O seu uso e a sua exploração são, amiúde, espelhados em Ozu. No caso particular de Tokyo Story, é dado especial ênfase ao tempo enquanto passagem, enquanto meio e enquanto rosto. De um lado, o tempo é diferente para cada personagem, o seu ritmo, as suas prioridades, a sua experiência e a sua mastigação dos constantes problemas, por outro, o tempo é sinónimo de fatalidade, de exigência e de existência, para tudo e para todos. É, no fundo e em última instância, sobre a morte e sobre o fim de que falamos, e do que daí acarreta ou conduz em termos pessoais e culturais. O que nos diz Ozu é que dado a impossibilidade de estagnar ou paralisar o tempo, leia-se certos e determinados momentos, há que tentar, pois, consertar e acordar uma relação mais honesta para com o mesmo, reconhecer a sua autonomia e a sua força, e receber com satisfação os seus abrandamentos e acelerações, de forma a suavizarmos a sua dureza. Tem de existir como que uma entrega à (im)previsibilidade da vida e ao destino traçado para e por nós, inevitável e inconscientemente.

Essa cedência e essa rendição ao tempo, porém, não se desenvolve e se efectua apenas no argumento da história aqui analisada, e logo unicamente através da palavra e do diálogo. Também se perpetua, como é evidente e indissociável no cinema de Ozu, no campo da imagem e da realização, em cada plano e em cada cena da subtil filmagem que desfila defronte dos nossos olhos e demais sentidos. Como uma ave que voa sem parar e que nunca regressa pelo mesmo caminho, a cadência dos enquadramentos revelam uma viagem silenciosa, sincera, calma e sempre com o seu ar de frescura (ou de fresco, numa fotografia primorosa), ora pelos interiores, distantes, próximos e seguros simultaneamente, ora pelos exteriores, contemplativos e ressonantemente eternos. Na verdade, são, aqui e ali, planos vazios, como é costume dizer-se da formalidade do realizador, na medida em que encerram significados incompletos (o da morte não será porventura o maior?), que não se esgotam, antes se projectam em pequenos travellings além fronteiras, em direcção ao nada e ao tudo que é alcançável por cada um de nós, e que aqui se reduz ao olhar omnipresente, que observa mas não influencia. A escala é, deste modo, também ela personagem, sobretudo, na posição inferior e humana que a câmera assume disciplinarmente, num cinema mais horizontal e atemporal que propriamente perpendicular ou efémero (e ainda que o seja por vezes narrativa e simbolicamente).


Num dos últimos planos do filme, um comboio passa de um lado ao outro, move-se com a certeza de que dentro de alguns momentos já não estará mais no nosso campo visual, e isso, mais que tudo, revela ou oferece a noção que impera em toda a história - a passagem do tempo e a (aparente) incapacidade de revertê-lo e de aproveitá-lo consoante as nossas hesitações e os nossos erros. Para os que vão, existirá certamente sempre algo que gostariam ainda de ter feito ou dito, e para os que ficam, resta a amargura de uma palavra ou de um gesto que nunca mais transmitirão, ou, noutra perspectiva, a memória de alguém que lhe marcou a identidade e a personalidade como nenhum outro ser. Uma obra-prima, que tem tanto de concreto e de mundano como de transcendental.

Crítica nomeada em 'Melhor Crítica de Cinema' nos TCN Blog Awards 2013


Jorge Teixeira
classificação: 10/10

19.3.13

My Neighbor Totoro (1988)

O Meu Vizinho Totoro (Tonari no Totoro), Hayao Miyazaki


Miyazaki tem-nos brindado, ao longo das últimas décadas, com autênticas obras-primas da animação, género que se situa um pouco à parte dos restantes, mas que é tão unificador e tão poderoso como qualquer um dos outros. Verdadeiros exemplos disso mesmo são os filmes do mestre japonês, que, à falta de melhores palavras, emanam um carisma e uma frescura por demais cativantes. O Meu Vizinho Totoro é um desses casos, porventura um dos mais caracterizados e singulares, e por isso, de um valor inestimável.

A história é simples, o enredo é infantil, mas conduzido com uma pureza e imprevisibilidade simultaneamente aguçantes e apetecíveis. Ás tantas porque nos vemos transportados inevitável e entusiasticamente para um mundo de fantasmas e de seres improváveis, fruto da imaginação das crianças protagonistas da trama, as quais inseridas num novo espaço e terreno se vêm a explorá-lo e a captá-lo sob um prisma só delas, e só alcançado por uma ingenuidade e capacidade embrionárias. Esta liberdade sem limites e sem barreiras da infância (fase privilegiada), leva à aventura e ao desbravamento de impossibilidades, de caminhos onde valores são apreendidos e são interiorizados, mais que não seja, pelo erro e pela frustração. Totoro é o ser material e imaterial de todo este imaginário de mistério e descoberta, e o pai (a família) em casa, no lar, é a consciência, é a responsabilidade do passado e do futuro enquanto projecções pessoais e profissionais. É também ainda o equilíbrio, a estabilidade necessária para a deposição e mastigação das aventuras exteriores.

Facilmente se depreenderá que as mensagens são muitas, são aliás uma marca do cineasta, que através delas transmite e analisa as fases e diversas vertentes do ser-humano, tão complexo e fascinante, ou no fundo, tão humano que simplesmente é. Nas linguagens, Miyazaki assume o desenho à mão, em belíssimos e fantásticos retratos, seja a explorá-los, seja a contemplá-los. Neste caso, mais na contemplação, visto estarmos perante um filme distinguível na sua carreira, tratando-se, sobretudo, de um exercício narrativo e imaginário, que propriamente visual e estilístico. No fim, constatamos de que assistimos a um filme verdadeiramente belo e único.


Jorge Teixeira
classificação: 9/10

5.3.13

Spirited Away (2001)

A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no kamikakushi), Hayao Miyazaki


Como em qualquer filme ou trabalho fabricados por Miyazaki, estamos na presença de uma profundidade e de uma complexidade artísticas de enorme valor. Esta Viagem de Chihiro, no seu título português, aborda novamente todas as marcas do autor, contemplando, mais uma vez, todo um universo fantástico, rico em personagens e simbologia.

O filme conta a história de uma rapariga de 10 anos de idade que, vagueando, se envolve num mundo onde imperam estranhas criaturas e paisagens invulgares, segundo regras exteriores a qualquer lógica (alusão clara a Alice no País das Maravilhas). Um universo desconhecido, mas, à sua maneira, extremamente belo e cativante, que, acima de tudo, merecerá, por parte da protagonista e de nós, uma entrega total.

A viagem de Chihiro revela, assim, em jeito de jornada imaginária, uma busca pela identidade, pelo passado, na aventura e descoberta de valores (esquecidos) e de um mundo totalmente novo, onde às tantas damos conta de uma evolução e transformação a cargo de Chihiro, mas também de nós próprios, espectadores. A recompensa ao longo do filme e no seu término é, portanto, gigantesca e tremendamente benéfica. Para efeitos didácticos e educativos são imensas as referências a princípios e a posturas dentro da sociedade (pelo meio, por exemplo, o facto de nem sequer o ouro corromper Chihiro).

Uma viagem mais pessoal e menos épica do que outras obras do realizador, que, no seu curso, ainda nos vai retribuindo visualmente em deliciosos retratos e ambientes, e narrativamente em abundantes e intrincadas metáforas, ora nos seres transfigurados e mistificados sobre duras realidades, ora nas problemáticas e preocupações ambientais (mensagens recorrentes em Miyazaki). As próprias personagens, de tão bizarras e de tão mágicas que são, sugerem sempre mais que a mera aparência, transparecendo, invariavelmente, uma natureza implícita e, portanto, o humanismo que daí advém.

Na concepção, o realizador e toda a sua equipa, executam inúmeros frames desenhados à mão, de uma riqueza e esplendor extasiantes. O nível de detalhe em cada plano e em cada cena é impressionante, a tal ponto que basta a sua visualização e desfruto sem falas para ficarmos habilmente concentrados. Facto que permite não só o silêncio e a contemplação, mas também a respiração e posterior reflexão intrínseca.

Espécie de confluência de trabalhos anteriores, Miyazaki cria com este filme talvez a sua obra mais perfeita, mais una em todos os sentidos, reciclando conceitos e elementos já por si explorados. Possui o encantamento do mistério e da aventura de My Neighbor Totoro, a mensagem ecológica de Princess Mononoke, o universo paralelo, complexo e desconhecido de Castle in the Sky ou de Nausicaä of the Valley of the Wind, entre outros conceitos e referências que espelham bem esta sua tentativa de aperfeiçoamento. Revela, acima de tudo, o gosto e a dedicação pela criação de uma história e de uma visão, concretizadas na excelente alternativa que a animação a duas dimensões oferece.

Spirited Away é senão uma espécie de conto de fadas moderno, onde se aprende a enfrentar e a ultrapassar medos e limitações. O filme aborda, deste modo, diversos assuntos e sobre diversas vertentes, tornando-se, então, algo de extremo recurso e ao qual não se fica indiferente, seja pela sua complexidade, seja pelo fascínio visual que transmite. No início do filme, e no atravessar do túnel, no limiar entre o real e o imaginário, ou entre o comodismo e a (auto)descoberta, reside a verdadeira essência da película – o crescimento, sobretudo na infância, e o enriquecimento pessoal que está à espreita sempre ao virar de cada esquina. A eterna aprendizagem e os sentimentos ocultos que só alcançamos se tentarmos, se tivermos a audácia de caminhar.

Texto originalmente publicado na iniciativa 'O Cinema dos Anos 2000' do blogue Keyser Soze's Place


Jorge Teixeira
classificação: 9/10