15.9.12

Le Charme Discret de la Bourgeoisie (1972)

O Charme Discreto da Burguesia, Luis Buñuel


Grande surpresa. Não porque os filmes de Buñuel predisponham o inverso, antes pelo contrário. O que acontece, ou o que me aconteceu, foi abordar este filme sem qualquer expectativa, e daí que me tenha surpreendido com o resultado final. É tremendamente refrescante, e actual, por incrível que pareça.

Seguimos uns burgueses, amigos, numa constante tentativa inicial de planear um jantar de convívio e de partilha de experiências. Gente de classe social alta, com etiqueta o suficiente para tornar as situações e os diversos imprevistos em algo de caricato, cómico até. De largar genuínas gargalhadas interiores, confesso. À medida que o argumento avança, as sucessivas interrupções entram numa espiral cada vez mais surrealista e entrecruzada, acabando o espectador por deixar-se influenciar (e influenciar?) com o rumo dos acontecimentos.

O estilo, apesar de ser frio, é inventivo e, no mínimo, invulgar (nenhuma cena igual à outra, nenhum piloto automático a funcionar), e os mecanismos de narração (saltitantes), encontram-se atentos à manipulação e controle da cena, da estrutura-base e do espectador. De resto a cara de Buñuelaqui talvez com uma extrapolação e refinamento acima da média. Os actores também estão em grande nível, enigmáticos e excêntricos, mas credíveis, e toda a cenografia, guarda-roupa e demais departamentos adequados à excelência de todo o projecto. Grande grande filme.


Jorge Teixeira
classificação: 9/10

25.8.12

Carnage (2011)

O Deus da Carnificina, Roman Polanski


Teatro camuflado, espécie de peça contemporânea, e por isso traiçoeira, provocatória. Influência da mecânica de outrora dos grandes estúdios de Hollywood, onde tudo era diálogo, onde tudo era reflectido e meticulosamente adequado, onde tudo era equilibrado sob o ponto de vista narrativo.

É nestes contornos que Polanski idealiza e concretiza este exercício, partindo para isso da adaptação da peça que lhe dá corpo. Exercício, porque nascendo do teatro, é isso mesmo que evidencia. Não importa se aquela cena ou se aquele adereço se encontra "direitinho", o que interessa é a fluidez, a espontaneidade, o momento, o que sai na hora e naquelas circunstâncias. Nessa linha, o contributo dos respectivos pares de protagonistas (e únicos actores do filme) é excelente, diga-se. Aliás é tudo. É o próprio filme. E, se por um lado, isso perfaz uma ou outra cena de génio, por outro não finaliza um produto igualmente genial, para efeitos de cinema propriamente dito. A realização é contida, perfeitamente enquadrada, mas pouco interessante. O cineasta já nos ofereceu, nessa sua recorrência a espaços confinados e potencialmente infinitos, ambientes bem mais cativantes (em RepulsionThe Tenant ou até mesmo em Rosemary's Baby).

O argumento, sendo bom, tem ainda assim também alguns defeitos, alguma insatisfação aqui e ali, numa certa redundância e inconsequência dos temas. O que não retira de todo a experiência em si, o modo de expôr uma ideia, de arquitectar um esboço e explorá-lo até aos limites. Por vezes, é com uma certa dose de risco, na diferença, que se obtém algo para a prosperidade, algo que marque e contribue para a evolução do cinema (aqui na relação estreita com o teatro). Pelo menos que o distinga da panóplia de repetições, sequelas e afins que o conduzem sempre ao mesmo.

Por outro lado, Twelve Angry Men ou Who's Afraid of Virginia Woolf? são fatias do mesmo bolo, tiradas há bem mais tempo e acabando no final por agradar mais. No caso de Carnage, fica somente (atendendo ao potencial) um bom filme e um louvável esforço.


Jorge Teixeira
classificação: 7/10