25.2.14

Gravity (2013)

Gravidade, Alfonso Cuáron


O vazio e o silêncio, ou a visão e a audiência. É com estas quatro pedras basilares e duas peças estruturais (ou direi astros elementares?) que o filme começa e se propaga, qual Big Bang em expansão, em incontáveis rotações e translações perspécticas. Lançado que está, desde logo, pelo espaço fora e pela mente dentro do espectador sedento de mergulho e de navegação, a fita como que se desenrola e se direcciona para o infinito, no emaranhamento do universo e do nosso sistema solar, com destino traçado e mais que programado ao alvo (e alto) astral. Se, por um lado, a astrofísica e o espaço cósmico são deveras aliciantes para nos embrenharmos de imediato no desconhecido e no proibido, por outro, a filmagem induzida, ao jeito de um videojogo na primeira e na terceira pessoas, são completamente inebriantes e fascinantes de uma ponta à outra da fita e de um globo terrestre - a nossa amável Terra - que vislumbramos ou que pressentimos sempre e a qualquer altura no grande (e definido) ecrã, segurando-nos e confortando-nos, ao ponto dos extremos se unirem e constituírem tão só a espiral existencial e emocional da nossa fé.

De movimentos de câmera a planos(-sequência) de encher o olho, literalmente, o filme surge a bem dizer como um objecto que não visualizamos, mas sim nos dispomos a receber e a aceitar prontamente, quiçá a nos envolvermos fisicamente, o qual por sua vez se debruça ou se inclina perante o observador - um mero grão no seio do oceano negro e inesgotável - que se sente desse modo totalmente absorto e esmagado em constantes e alucinantes percursos intra e inter-estações espaciais. O início de tamanha aventura é então espantoso, oportunamente de realce, sob um abismal e prolongado plano-sequência raras vezes visto em cinema. O impulso, as deslocações, a agitação e a agilidade digital de todo o processo abraça-nos de tal forma absorvente e extasiada (mais tarde desesperante até) que para nós é como se estivéssemos também ali, com falta de oxigénio, no vácuo e na escuridão, durante aqueles dez minutos, junto aos dois personagens, aos seres que circulam desenfreadamente defronte à plateia em suspensão ou mar de gente em notórias e visíveis vertigens.

Na verdade, inteiramo-nos como verdadeiros manipuladores da acção e, sobretudo, da reacção que simuladamente vamos desempenhando ou vivido timidamente, tal como se pertencêssemos, com efeito, ao filme. Este que, a propósito, não se concebe, por isso, sem um espectador receptivo, sem o sujeito dado o objecto. Dentro de outros motivos, simplesmente porque o quadro, em geral captado no seu inteligente enquadramento, deixa de fazer sentido ou, somente, deixa de ser sentido na sua plenitude (entre muitos exemplos, as atraentes e credíveis paisagens de um planeta com o nascer do Sol, de tão próximo e de tão afastado que se encontra e que se afigura simultaneamente).


Marcado que está o ritmo, e apresentado que estão os protagonistas e o contexto presente à primeira cena, ou diria às primeiras voltas e reviravoltas, o assombro ou a proeminente filmagem não se esgota aqui, existindo sempre em sistemático pano de fundo uma profundidade respeitável e estimável (potenciada com o 3D), hipnotizando-nos e intimidando-nos, com as emoções e as frustrações a acontecer à superfície e em primeiro plano. Este que é (des)construído invariavelmente, ora a poucos centímetros e com o protagonismo, ora a largos metros (ou anos-luz?) e com a irrelevância de um figurante ou de um detalhe, e vice-versa, na exímia composição ocular, quase esférica, que Cuarón nos propõe mediante opacidades e transparências ou reflexões (a Terra vista do capacete reflector, a Terra vista através do vidro da estrutura artificial em órbita, etc).

De exemplos está o filme sobre-carregado deles, desde os estilhaços da destruição a quase nos cegarem, figuradamente - em virtude da proximidade e da ligação aos acontecimentos - à entrada culminante na atmosfera numa fase mais emocional e mais musical. O destaque ainda assim vai especialmente para a conclusão do longo plano-sequência inicial ou para a transformação deste numa subjectiva na personagem, e na cara de Bullock. No começo do descalabro da missão, o remate dá-se segundo um plano que parte do espaço externo para o interno do capacete, ou da máscara, num completo ângulo circular que nos coloca expressamente com a engenheira médica (impelida a astronauta), percepcionando aí toda a angústia e toda a confusão da mesma e, porque não, também de nós mesmos. Aliás, estes frequentes e próximos planos de rosto são mais do que adequados ao medo e à fobia que o espaço sideral, entre astros e planetas, provoca opressivamente em todos, sem excepção.

Outro ênfase incide em duas ou três ocasiões em que a água entra em acção - elemento essencial além do ar, da terra e do fogo (todos eles simbólica e equilibradamente abordados) - aqui através das lágrimas à deriva e das gotas que perpassam ou embatem (alerta para a realidade?) a câmera, o campo e o entendimento, pois então, numa visceral coreografia de corpos. Notável metáfora esta, ou subtil habilidade no tratamento das potencialidades da narrativa, da filmagem e da tecnologia. Por último e apenas por agora, a distinção recai ainda no gesto embrionário, claramente referencial, que a Doutora Ryan Stone perpetua através da posição fetal aquando da entrada na nova e esperançosa estação, e no primeiro contacto com um interior fora do exterior implacável. Momento, diria, único em quase toda a longa-metragem, em que o simbolismo e a mensagem avançam em relação à intrincada, e por vezes perturbadora, diversão e estupefacção virais que alinhamos praticar durante infindáveis minutos.


O jogo é, portanto, complexo e recheado de múltiplas camadas, qual cebola que está pronta a ser descascada, passe a expressão, à medida que o entusiasmo aumenta e a comoção é desencadeada (porventura o choro, dependendo de cada um), bem como ainda quando o efeito de gravidade zero se estabelece, num então permanente exercício ou conversação entre objectos (de)talhados para as três dimensões (com ou sem a visualização em 3D). Camadas de percepção e de apreensão, claro está, não fossem o espaço cénico, os ângulos cónicos, as distâncias geométricas e os exemplos acima referidos verdadeiras ferramentas ou cruciais truques para a sempre surpreendente ilusão, nua e crua, sem artifícios e capaz de questionar a nossa própria sanidade. Trata-se, tão só, da magia do cinema em todo o seu encanto e sedução.

Por certo, estamos perante uma viagem deslumbrante, inquietantemente contagiante e pujante a todos os níveis, dos campos pensados e enquadrados, sempre em movimento, à subjectividade dos respectivos contra-campos, em gestos contínuos e determinados apenas com o intuito de sentir e habitar o espaço prometido, daí que sem uma suposta e aparente ambição de mistificar ou de reflectir perante o disposto. O guião não será, pois, regido maioritariamente por questões filosóficas, mas apesar de tudo tece respostas, por mais simples que sejam, sobre a solidão, a superação e a renovação da vontade em viver, ao jeito de uma nova gravidade que com Ryan voltamos a sentir e a vivenciar.

De qualquer modo, está-se, acima de tudo, sob contornos de aventura e de suspense, brilhantemente filmados e montados, não fosse o argumento, veiculado na sobrevivência ou constantes obstáculos em direcção à redenção, minimalista (e não menor, atenção) em toda a edificação do projecto. Pode-se considerar, a título informativo, algum descrédito para com eventuais imprecisões científicas e para com a narrativa, entre um personagem secundário aquém do patamar e um terço final inclinado e um pouco desalinhado para com o resto do filme, que creio não ser nem justo, nem, sobretudo, ajustável totalmente ao objectivo e linguagens próprias envolvidas. Não que isso diminua ou sequer belisque em demasia a obra do cineasta mexicano, até porque quem parece necessitar de acordar, a propósito e entretanto, somos nós, após tamanho ensaio ou prova visual, onde, de facto, se confere que as imagens valem mais que mil palavras.

Para além da realização e da montagem, nas suas intencionalidades, o filme ainda possui na fotografia, na banda sonora, no som, nos efeitos especiais e na interpretação de Sandra Bullock qualidades acima da média, que mais do que apropriadas, se revelam autónomas e cintilantes elas próprias, muito embora o deslumbramento esteja ou funcione pelo conjunto, como é óbvio. Alfonso Cuáron por seu lado, assume-se cada vez mais como um autor de renome da actualidade, nem que seja apenas porque nos cede, ou melhor, porque nos oferece o que geralmente ansiamos do leque de escolhas ou alternativas disponíveis neste meio artístico - total imersão e abstracção fílmica e pura do meio envolvente e circundante.

Nesse sentido, Gravity é absolutamente exemplar, uma vez que nos transporta telepaticamente, de mãos dadas, para outro universo, para outra noção de experiência inacreditável, levada ao limite e ao que cada um, intervenientes abrangidos, conseguirá suportar, quem sabe, deixar-se levar pelos seus estímulos e sensações. Para no fim, com a personagem a sorrir, nos lembrarmos, nos esforçarmos e nos reerguermos de baixo para cima (em contraste com a sistemática elevação da câmera ao longo de todo o filme), completando assim uma autêntica parábola experimental, entre os eixos horizontal e vertical ou, enfim, entre a terra e o céu.



Jorge Teixeira
classificação: 9/10

12.1.14

Captain Phillips (2013)

Capitão Phillips, Paul Greengrass


De acompanhamento frenético e angústia predominante e palpitante, Capitão Phillips assume-se como uma agradável investida (audio)visual e como uma recordação recente colectiva pelos meandros lineares da perseguição, da clausura e da extorsão irrealísticamente entrelaçadas. Um tremendo drama (real e biográfico), ao jeito de um thriller crescente e desesperante, em (in)tencionada suspensão e em constante balanço entre a desgraça e o sucesso de uma missão antecipadamente de alto risco, onde nitidamente ninguém sairá ileso ou desprovido de cicatrizes após tamanha experiência comportamental ou condição existencial.

Um aparente filme de aventuras, à superfície das ondulações emocionais, que às tantas se vira, qual barco em alto mar, num autêntico braço de ferro entre dois homens, de igual para igual e sem heróis ou vilões definidos, encabeçados por Barkhad Abdi e Tom Hanks, que, a propósito, absorvem espantosas interpretações e, ainda assim, suficiente densidade psicológica (exigia-se mais) dentro e fora do seu ambiente ou habitat familiar e cultural. O primeiro, constitui admiravelmente uma descoberta ou conquista nestas andanças, mas é em especial o segundo que surpreende e que recorda o seu potencial, personificando o capitão sempre à frente ou, mais tarde, sempre atrás nas periclitantes situações do enredo. De facto, inesperado nível evidenciado por Hanks, num registo por demais natural e humano, isento de artifícios e condizente à sua melhor performance dos últimos anos (os derradeiros minutos com o personagem, de rastos e em lágrimas, correspondem mesmo a uma das grandes cenas, senão a melhor, em todo o filme).

Com uma banda sonora e uma montagem em relevo (sobretudo na edição e na mistura de som), o filme de Paul Greengrass, embora algo indeciso em grande parte no rumo a tomar e, acima de tudo, hesitante sobre como e o que filmar no segundo acto cénico, entre os actores e a acção, também se revela apesar de tudo acima da média no que à realização pontual diz respeito, nomeadamente com uma proximidade e uma subtileza em alguns momentos aflitivas, de tão trépidos ou frios que estes se apresentam. Completamente embriagantes até, e exibidos sem qualquer receio ou pudor. Tendo, por outro lado e igualmente como seria de esperar, a tensão e o suspense já habituais no realizador de The Bourne Supremacy e de United 93, tal como a recorrente câmera ao ombro ajustada quanto baste à imprevisibilidade e insegurança dos acontecimentos, aqui verdadeiros protagonistas de uma história pulsante sob um relato claustrofóbico e desnorteado vivido intensamente do primeiro ao último minuto.


Jorge Teixeira
classificação: 7/10

4.1.14

Inside Llewyn Davis (2013)

A Propósito de Llewyn Davis, Ethan Coen e Joel Coen


Entre a intermitente comédia e a convergente tragédia, eis um notável retrato de uma classe artística num apropriado e urgente período da sua história. O músico, o cantor folk nos anos 60, e as suas contrariedades profissionais e embaraços pessoais em sobreviver, em subsistir e resistir às partidas do acaso, do tempo e do espaço em si, e da consequência em seguir sonhos e ambições, por mais (in)coerentes e (in)justos que eles sejam. No fundo, a luta contra si mesmo, contra as suas virtudes e os seus defeitos, e, conjuntamente, contra o poder implacável do dinheiro na sua vida, na condição de artista, e da sua capacidade em reverter ou não situações menos favoráveis, porventura irónicas de tão graves e improváveis que se tornam (facto que o filme eficazmente se apropria).

Num ritmo assaz distinto e temperado, a deambulação do protagonista pelas ruas de Nova Iorque, a meio por Chicago, e pelas ruas da sua consciência (na sua maioria pesada), se dá consoante os personagens assim o desejem ou a câmera assim o ambicione, num esforço, contudo, assimetricamente resolvido (com destaque para os inebriantes e sublinhados momentos cantados a solo), que no conjunto ainda assim não alcançam os seus intervenientes, autênticos faróis no oceano exploratório da narrativa. Brilhantes e intensas interpretações, todas, sem excepção, mas particularmente a de Oscar Isaac, que se empenha de alto a baixo, do interior ao exterior, com uma energia e contenção constantes e inabaláveis.

Ethan e Joel Coen, mais uma vez, a demonstrarem o seu exemplar e especial domínio no tom, na harmonia e na perspicaz montagem de todo um projecto que, na teoria se assume como ímpar nas suas carreiras e, na prática como mais um testemunho afectuoso e fraterno, ou como mais uns (de)graus adicionados à abertura da compaixão, para dentro (inside) do sensível. Facto, aliás, que acresce à clara e manifesta tendência por parte dos irmãos de ir permitindo receber, pouco a pouco, nos seus já habituais registos mais frios e descarados, algum sentimentalismo, algum assentamento e reflexão, provavelmente proveniente da idade e da sabedoria assimiladas. Mas é, sobretudo, na fabricação de um argumento deveras pertinente, competente e eloquente, onde o fim se confunde com o início num relevante ensaio social, que os realizadores mais peculiares do cinema moderno americano aqui se demarcam, quiçá se excedem.

Magnífico trabalho também na fotografia, a polir toda uma experiência muito reluzente e aconchegante e, porque não, quente numa época fria. Uma solitária viagem, que nos créditos, ao som da excelente banda sonora (de resto, polvilhada em todo o filme em sedutores trechos, ou direi, intervalos?!), nos deixa um doce sabor pelos minutos que passaram ligeiramente, na sua marcha muito própria, e um travo amargo pelo abandono de tão possantes e vigorosas performances e, em particular, de tão agradável visão e percurso individual, no que estabelece ou forma uma mais que certa companhia ao qual tão cedo não iremos esquecer ou deixar de recorrer.

"If it was never new, and it never gets old, then it’s a folk song."


Jorge Teixeira
classificação: 8/10

5.7.13

Collateral (2004)

Colateral, Michael Mann


Entre o ritmo pulsante e a acção contida, mas vibrante, está o grande trunfo deste filme. Obra que, a bem dizer, é coerente e identificativa dos traços de Michael Mann, o artífice por detrás das câmeras e o homem que é capaz de filmar a cidade e a sua noite com uma personalidade invejáveis. A reboque das personagens e das suas convicções, somos conduzidos para uma trama misteriosamente camuflada e à mercê de inúmeras metáforas, sempre envolta num clima de ansiedade e suspense, e segundo uma atmosfera irrequieta, vadia, que nunca dorme.

Num táxi entra um cliente, e na cidade entram dois destinos, dois flancos do mesmo campo mental, tal como na noite entramos nós, espectadores, à boleia com Mann e os seus permeáveis planos aéreos. De um lado, o taxista que planeia a vida, os seus sonhos, a sua família, o seu trabalho e as conquistas para o sucesso, do outro, o cliente, o vilão e o assassino que não cobiça qualquer futuro ou esforço algum em busca de um ideal caracterizado por signos e valores moralmente (e previamente) aceites. No seguimento, os (aparentes) opostos atraem-se e na necessária e inevitável confrontação os efeitos colaterais sobressaem-se e sobem à tona em electrizantes debates e em angustiantes combates (à boa maneira dos gangsters).

Temos, portanto, dois eixos numa mesma história, diametralmente distinguíveis, mas humanamente confusos e questionáveis, quase como se pudéssemos e tivéssemos a capacidade de enveredar por um ou por outro se tal fosse a nossa intenção, isto sem descrédito nenhum para o desenrolar dos acontecimentos, porque na verdade ambos os protagonistas têm algo de aliciante, de cativante, algo que nos diz respeito e com que nos identificamos. A competência do argumento neste aspecto é impecável, diga-se de passagem, embora a concretização ou as interpretações pudessem estar mais intensas (os actores apesar de tudo estão bem). A narrativa, essa, avança assim, desde a contenção à acção frenética e entusiasmante, sempre na cadência e tensão certas e sem grandes exageros ou montagens alucinantes (o que é de salutar).


A realização, por seu lado, está noutro patamar, tanto na vivacidade da pequena escala (ou do enredo propriamente dito), no carro - espaço confinado e expressivamente amplificado - ou até no metro, como na luminosidade e transparência da grande escala - Los Angeles - fabulosamente descrita e interpretada. Michael Mann é exímio neste retrato a três dimensões e em alta definição (dois intérpretes e uma cidade), ao arquitectar um gradual jogo de poder e de suspeita, incutindo simultaneamente a audiência a questionar, a duvidar e a reflectir sobre o que vê e o que não vê.

Colateral pode-se definir como um cruzamento de duas vidas, de duas jornadas, que na colisão dissipam belas sequências de diálogo e de acção exemplar e lateralmente filmadas na vivência urbana e nocturna de L.A., mas, sobretudo, conservam um rol de dúvidas e receios pessoais que, no fundo, dizem respeito a todos nós como indivíduos e como sociedade. Cada consciência fará por si e para si tudo o que a motivará, tudo o que acreditará e necessitará e, aí, os dois protagonistas aqui em foco são uma mera amostra, são duas faces da mesma moeda, adequadamente encaixada num nível entre tantos outros e onde a realidade é bem mais estratificada e abrangente. Alicerçado então por diversas camadas de entendimento e envolvimento, o filme acaba por impressionar na medida em que converte um argumento interessante numa experiência admirável.

Texto originalmente publicado na iniciativa 'O Cinema dos Anos 2000' do blogue Keyser Soze's Place


Jorge Teixeira
classificação: 8/10

24.5.13

Mystic River (2003)

Mystic River, Clint Eastwood


A cidade como que vive e sobrevive na sua quietude e paciência eternas. As pessoas caminham e se cruzam entre si, preenchendo as ruas, o espaço e os vazios da temporalidade. Na sombra está o rio, o Mystic, que corre sem pressas e sem problemas, sistematicamente, qual cenário belo e fixo. Contempla calmamente o panorama citadino e a vida dos intervenientes da sociedade em que se envolve. Circulando e assistindo ao dia-a-dia, o rio é, porventura, a única testemunha de algumas situações e acontecimentos graves ou preponderantes na charneira que por vezes se desenha à sua frente, incauta e despropositadamente. O rio sabe os segredos mais obscuros, mais esquecidos, e portanto, sabe quase sempre mais que nós, transeuntes e meros peões numa malha que por si só se perde e se emaranha na complexidade da vida.

É neste cenário e sobre este prisma que a história deste filme se desenrola. Divide-se, desde logo, em duas - a primeira, na infância e na inocência própria desta fase. As brincadeiras são muitas, as traquinices ainda mais, e, logo, não será de estranhar que um mero encontro despoletará a mais vil recordação e, infelizmente, a fractura decisiva. Acaso ou não, a situação mudará para sempre a vida dos três amigos, os três protagonistas do filme, à data parceiros inseparáveis. Na segunda parte da história, e transportados anos mais tarde, constatamos que a amizade antes inquebrável se situa agora no limiar entre a memória e o simples reconhecimento. A vida concede voltas, e o seu curso toma direcções díspares, pelo que os três amigos, ainda que vivendo sob o mesmo tecto urbano, assumem posturas e profissões sociais distintas. Os cruzamentos pelo bairro e pela vizinhança revelam apenas e só lembranças e (des)apreço mútuo. A reter, por isso, estará nesta fase, e inequivocamente, a família e o quotidiano que se adensa, pelo que a infância reflecte única e exclusivamente uma nostalgia do passado, vivido sob a alçada do bairro e do rio transversalmente atento.

Entretanto, outro acontecimento se dá, e, uma vez mais, o Mystic é testemunha. Evocando certas memórias, é a partir deste ponto que começará então o mistério e o drama profundamente enraizados e escondidos de há muito. A suspeita, o medo e a incerteza modelam o espaço e, sobretudo, o subconsciente. Como se aquele fatídico dia e o acontecimento consequente nunca pudesse cair no total e absoluto esquecimento. De facto, é evidente, certos traumas permanecem e se demarcam, definindo e construindo identidades e amizades socialmente precipitadas, ao ponto de a confiança dar lugar à acusação e ao desrespeito quando é conveniente. É triste, mas no fim de contas verdadeiro e humano, por mais atroz e cruel que isso possa parecer.

No fundo, três amigos, três adultos e três casais formam a estrutura e a evolução do próprio filme (e da própria vida), sem retorno e sem emenda. Particularmente, determinam a história e o drama presente, que entrelaçado na vivência e na actividade de cada um se desenhará segundo os contornos da personalidade e da crença individuais. Nada resiste à mudança e ao tempo, pelo que o crescimento é inevitável, no bom e no mau sentido, e o que antes era duvidoso e desconfortável, agora pode-se revelar certo e determinante. Ou não, quem sabe?! Aqui, apenas o rio, o Mystic, que é o elo entre as recordações e os acontecimentos presentes, é como que a metáfora das alegrias e das mágoas, as quais aparente e temporariamente ficam submersas, mas que face a actuais tragédias regressam à margem e à superfície com uma brutalidade e crueldade inesperadas. Resta o discernimento, a ponderação e a calma, tão difíceis nestes momentos.


Clint Eastwood, apoiado por uma excelente fotografia e por uma grande banda-sonora, filma o drama numa cadência sombria e policial, e com uma contenção e uma intensidade notáveis. Retrata e explora tanto as nuances psicológicas dos seus personagens, quanto a normalidade e a frieza do quotidiano de um bairro, onde todos se conhecem e onde todos estão, intimamente, prontos a apontar o dedo. Travellings sobre o rio acentuam a sua tal presença assídua, os planos fixos, sinceros e solidários com o argumento demonstram uma opção certa, tal como ainda os ligeiros movimentos de câmera denunciam particulares sequências e momentos fracturantes. A título de exemplo, a cena da revelação da morte de uma personagem e da consequente tomada de conhecimento paternal é tremendamente reveladora deste aspecto. Arrepiante. Grande cena, e a propósito, grande Sean Penn.

Mystic River se assume assim, qual rio profundo, como um dos mais ocultos e intensos dramas da década transacta. De emoções fortes e com uma densidade e profundidade destacáveis, é nas personagens, as tais seis pessoas (em sublimes interpretações), que verdadeiramente se define, ainda que, e sempre, a contenção e a respiração que Eastwood é capaz de sustentar o abrilhante ainda mais. Por tudo isto, resta-nos somente mergulhar na realidade, por mais cinzenta e violenta que ela seja.

Texto originalmente publicado na iniciativa 'O Cinema dos Anos 2000' do blogue Keyser Soze's Place


Jorge Teixeira
classificação: 9/10

3.4.13

Some Like It Hot (1959)

Quanto Mais Quente Melhor, Billy Wilder


Provavelmente das comédias que mais influenciou toda a história do cinema, e que mais sofreu como referência de todo um tipo de situações e posições numa sociedade e num regime cinematográfico presente. Curiosamente, é também, e inversamente, um filme que desconstrói estereótipos ou figuras assumidas como impenetráveis na sua natureza e no seu carácter. Na prática, o homem que se transfigura e se converte em mulher, e nas adversidades e comicidades que daí advirão. É, por último e ainda, uma obra que prima pela frescura que incute ao género - a comédia - e aos temas que envolve - a Lei Seca na América, os Anos 20 e o quebrar de preconceitos e tradições que existiam (de que alguns ainda hoje subsistem, daí a sua actual pertinência e sobrevivência).

Se, por um lado, começamos num registo mais sério, sóbrio e calculista nas cenas inaugurais, por outro depressa nos envolvemos e nos apercebemos da amálgama de soluções e surpreendentes derivações que o argumento nos oferecerá, não se ficando linearmente restringido a um tema ou a uma direcção, mas sim a todo um género que de abrangente e libertador tem muito. Falamos de comédia e de ironia, pois então, que assim timidamente surgem, e a longo prazo se desenvolvem e se afirmam como a tónica mais presente e a atmosfera mais apropriada para a narrativa e para os personagens que se manifestam à nossa frente. Jack Lemmon, Tony Curtis e Marilyn Monroe, em absolutas e intemporais interpretações (sobretudo o primeiro), constituem o trio da história e das múltiplas peripécias, ou, no fundo, da confusão e descontracção simultâneas que nos são imprimidas desde o início. De facto, se temas como o travestismo ou a emancipação feminina são abordados, são-no com uma certa liberdade e despreocupação aparente, revelando não só uma aposta ganha ao nível do entretenimento, mas também um veículo subtil e metafórico do constante caos em que vivemos ou de determinadas mensagens importantes e fracturantes no seio social corrente.

Com uma fotografia assinalável, uma banda-sonora sonante e o já falado argumento perspicaz, equilibrado e transversalmente contemporâneo, resta a realização como factor a destacar. Nesse sentido, Billy Wilder foi um mestre, na forma como recrutava actores, escrevia os seus próprios argumentos e arquitectava toda a mecânica de filmar e concretizar o idealizado no papel. Enquadramentos seguros,  planos com profundidade de campo e câmera ausente e presente nos momentos certos fazem deste filme não só um belíssimo exercício narrativo, especialmente nos diálogos e nas piadas eficazes, mas também uma clara composição da palavra com a imagem, em que a suposição é indissociável da realidade, ou, se quisermos, a transfiguração que o cinema em si acarreta e, em última análise, executa é ela própria transfigurada por meio de uma história e de personagens que, por exemplo, se disfarçam do sexo oposto. No fim de contas, há como que uma dupla camuflagem, que é nos servida e de que o filme se apropria, e à qual nos devemos debruçar, reflectir e apreciar consoante a sociedade e os costumes vigentes.

O filme, para além de todo o seu potencial interpretativo, ainda propicia, portanto, largos sorrisos e gargalhadas de um modo geral, sendo cativante mesmo para o espectador menos paciente como o da actualidade, o que torna mais que evidente que estamos perante algo de enorme valor e inteligência, que detém tão somente a marca de intemporalidade.


Jorge Teixeira
classificação: 10/10

13.1.13

Hugo (2011)

A Invenção de Hugo, Martin Scorsese


Antes de mais, congratular Scorsese na precisa e nostálgica homenagem que fabricou aos primórdios do cinema (ao que parece tão esquecido e enterrado) sobretudo, porque carrega em si, mesmo que involuntariamente, toda uma aprendizagem, uma história e acima de tudo uma cultura inestimáveis, rebuscadas desde o período mudo até à recente inovação a três dimensões de que, aliás, se serve adequadamente.

Depois, expressar a minha desilusão pelo produto final, pelo que aquilo que se antevinha como emocional, arrebatador e essencial, se traduziu num simples e descomplexo exercício narrativo (porque de filmagem Scorsesiana, caracterizada, nem vê-la) típico, sensacionalista, fantástico em demasia e escasso no que, essencialmente, diz. Em suma, uma história ingénua, de deslumbramento fácil e por isso pouco verdadeira e pouco profunda no que quer, tão altruisticamente, transmitir - ainda que inevitavelmente o consiga em parte, daí a significante estima que se lhe tem.

Hugo, o personagem e o filme, transportam inicialmente todo um imaginário fabricado pelas expectativas, pelas sugestões e indicações que nos vão sendo projectadas, e por todo um peso cultural que a sua história e mensagem acarretam. Tudo, repito, segundo um padrão ainda assim recorrente e mecanizado. A própria construção dos personagens é em si curta, pouco densa, usando (e abusando) de alguns membros como meros guias na viagem e interpretação temporais (a Isabelle de Chloë Moretz, por exemplo). Ao invés de explorar os instrumentos que detém para alcançar um melhor desempenho e destreza culturais e emocionais, recorre à técnica e tácticas usuais numa estrutura formal claramente repetitiva e dependente de mecanismos-base da indústria de que faz parte. Apesar de utilizar esses recursos, há que o dizer, equilibrada e proporcionalmente, nunca se desfazendo ou se reduzindo, nesse sentido, em demasia.

Por outro lado, no encalço da câmara (e do 3D) acompanhamos o início com alguma dinâmica, no excelente plano-sequência e na exploração que as potencialidades argumentativas evidenciam ou a inovação tecnológica assim o permita. No entanto, essa vontade às tantas também se reduz à tal cadência comum do seio no qual o filme se insere e se vende. Uma pena, novamente, perante o enorme alcance que poderia ter tido e a enorme capacidade que detinha, seja no tema em si, seja nas linguagens da sugestão e manipulação de um cinema mudo, que poderia e deveria ter sido muito mais explorado. No fim, contudo, o resultado não se afigura assim tão mau, está inclusive acima da média, sendo que se trata de um filme interessante, capaz, apesar de tudo, de reflectir e transmitir qualquer coisa, no caso - uma sugestão para toda a família e uma homenagem a George Méliès, um dos primeiros e maiores impulsionadores da sétima arte enquanto fábula, enquanto ficção.


Jorge Teixeira
classificação: 6/10

23.9.12

Inglourious Basterds (2009)

Sacanas Sem Lei, Quentin Tarantino


Este capítulo da carreira de Tarantino revela-se como o seu mais requintado projecto. Isto porque se trata de uma confluência abismal (e surreal) de géneros, reinterpretados e reinventados com surpreendente equilíbrio e mestria. Não é ao acaso, por isso, que se privilegiam sobretudo, e como tem de ser, o argumento e a realização, não descurando ainda assim aspectos técnicos, igualmente muito bons.

Ora, por um lado, é nos diálogos, no texto e nas palavras que o cineasta se debruça, se baseia para construir a sua história (a sua visão) e as suas personagens. De facto, este filme é ele próprio um romance, seja pela sua divisão em capítulos, seja na sua dependência (e valência) pelos diálogos, tão preponderantes numa leitura. Por outro lado, é também e em simultâneo, nas imagens que o realizador sustém o filme. É no poder dos planos que a construção, a tensão e os vários níveis do argumento se apoiam. Se num prisma, aquilo que se diz é sintomático dos acontecimentos, do desenvolvimento narrativo, noutro, aquilo que se mostra e como se mostra, denuncia as sensações e as emoções contidas. Tarantino, apesar disso, ainda consegue, com igual eficácia, baralhar e distribuir isto tudo. Tanto está a desenvolver a acção por meio de falas e de respirações, como a seguir conclui o episódio recorrendo a toda uma linguagem imagética, perceptível nos contrastes, nas saturações, nos cortes, nos ângulos e nas profundidades de campo.

Daí que também seja muito uma questão de montagem, de jogo, de arte, de saber quando e como fundir (ou alternar) essa dualidade. Digo alternar, porque por vezes as pausas e a cadência num diálogo ofuscam a visão, ou melhor, retiram protagonismo aos planos e àquilo que estamos a ver. Ouve-se e interpreta-se mais, ao ponto de quase nos cegar, digamos. Todo o diálogo inicial (excelente Christoph Waltz) é exemplo disso mesmo, onde estamos, sobretudo, atentos às falas e aos detalhes.

É, acima de tudo, este poder de nos concentrar, seja pela excelência do argumento, seja pela genialidade da câmera, que Quentin Tarantino se revela portentoso. Aqui talvez mais do que nunca, na medida em que transpira cinema e referências por todos os poros. A influência de Sergio Leone é, pois, clara (sempre e mais uma vez), tal como do género associado - o Western Spaghetti. Aliás o filme, no seu começo, confunde-se com a abertura de muitos filmes do Oeste no seu período áureo. A casa isolada, as paisagens distantes, o silêncio, os olhares, as expressões, etc. Já em Reservoir Dogs isso era notório, com a respectiva cena inicial à volta da mesa. Assim como em Kill Bill, 1 e 2, se denota essa marcante influência, inclusive na banda-sonora. Daí a impressão que Tarantino se vem aprimorando, vem limando as arestas da sua irreverência e ousadia (não necessariamente que os seus trabalhos anteriores sejam inferiores). Espelhada e acabada aqui, neste sublime argumento, que trai a história e a própria realidade, por assim dizer.


De referir ainda a banda-sonora, que está igualmente ao nível dos acontecimentos. E se, muitas vezes, serve apenas como adorno ou complemento, aqui ela assume linguagens próprias, catapultando o resultado final para um patamar ainda mais elevado. É por tudo isto e muito mais, que Inglourious Basterds é um dos melhores filmes do seu ano, e um dos melhores da década, sem sombra de dúvidas. Grandioso.


Jorge Teixeira
classificação: 10/10