31.1.14

Cenas (9)

Revolutionary Road (2008), Sam Mendes


Tremendo exemplo da força da representação, do vigor das personagens e do poder dos actores ou, noutra perspectiva, do esforço e da firmeza do realizador na direcção destes mesmos, num exercício cinematográfico mais teatral e contemplativo que propriamente inventivo. Se quisermos, mais altruísta e paciente que rigorosamente introspectivo e exaltado, deixando, por isso, respirar o diálogo e o seu rumo em direcções e sentidos altamente imprevisíveis e angustiantes.

Particularmente, os últimos planos a empregarem-se e a dedicarem-se à personagem de Kate Winslet, sempre em primeiro plano, são deliciosos, vorazes até, de tão intensos e minuciosos que se enquadram, tal como a profundidade, através do contraste e da (não) definição, adquire contornos cénicos e de contexto deveras vibrantes e culminantes de toda uma situação sensível ou, enfim, de toda uma discussão inflamável. Grande Leonardo DiCaprio, grande Kate Winslet, grande Michael Shannon e grande Sam Mendes, no mínimo, por toda a energia que propagam nesta espantosa cena.

10.11.13

Cenas (8)

Network (1976), Sidney Lumet


Assustadoramente actual de tão certo e de tão previsível que se torna, esta cena é senão uma chamada de atenção e um grito de revolta de uma sociedade que cada vez mais está presa ou se prende a si mesma sem se dar conta. "Enlouqueçam" diz às tantas repetida e derradeiramente Howard Beale (Peter Finch numa performance delirante e arrebatadora) - "Mad as Hell" - como a frase final de efeito e de propaganda da revolução.

Extraordinária composição de visão e pensamento, no meio (a televisão) que atinge o seu fim (o espectador) e vice-versa, ou ainda numa mistura praticamente imperceptível de realidade com ficção. Nunca é demasiado tarde, por isso, para abrirmos os olhos seja para o que for, sobretudo quando se relaciona com a integridade e a sanidade do ser-humano. Uma pequena cena que tem o alcance e o valor do mundo.

29.9.13

Cenas (7)

The Great Dictator (1940), Charles Chaplin


Num dos discursos mais fortes e mais comoventes de toda a história do cinema, Charles Chaplin despe-se de máscaras e de fabulação para tocar(-nos) num assunto necessário e urgente, senão mesmo intrínseco ao ser-humano. Decorrente da acção e num momento de pressão pública para se manifestar, o ditador (personagem principal) constrói uma mensagem a todos os níveis fracturante, essencialmente para a época nazista de então, mas curiosamente também para os dias de hoje, para a actualidade (ainda que aparentemente por outros motivos). Visionária, oportuna ou intemporal, uma coisa é certa, esta cena (aqui ligeiramente adulterada no que ao som diz respeito) fica para a memória de quem a vê, daí nada melhor que revisitá-la doseada e regularmente.

15.7.13

Cenas (6)

Full Metal Jacket (1987), Stanley Kubrick


É praticamente unânime a ideia de Kubrick ser genial. Mas essa genialidade não é aparente e superficial no que somente à popularidade dos seus filmes diz respeito, é, com efeito, também na análise plano a plano, cena a cena, ou de objectivo em objectivo que se constata pormenores e propósitos concretos que sustentam e substanciam a excelência da mente do cineasta. A concentração deve ser, portanto, máxima em todos os seus filmes (e em todos os sentidos) até ao ponto de se atingir, e sermos atingidos, invariavelmente pelo substracto final e por uma experiência global e totalmente imersiva.

A cena aqui destacada pertence ao filme Full Metal Jacket, a incursão de Kubrick na guerra ou a sua interpretação da mesma, sendo que é bem evidente a minúcia e o cuidado no detalhe, seja na preocupação de seguir ou ocultar o momento, seja no relaxe, no gozo e no aproveitamento das potencialidades morais e satíricas do acto de combater em si. Começa no "toca e foge" do soldado a falhar e a matar de seguida alguns inimigos (arrancando aqui a música ou o pecado e a irresponsabilidade de um sentimento de felicidade ingénua), passa pela (omi)presença de um helicóptero pronto a transportar e a aliviar os feridos (o mesmo que voa ou desaparece dali para fora no fim), culminando na encenação de um plano dentro de outro em que os intervenientes distribuem e brincam aos papéis ou às personagens de um hipotético filme, no que será provavelmente o auge de toda a cena. Ao som de Surfin' Bird dos The Trashmen e pelo andamento e movimento da câmera, assistimos a uma mudança de escala e a um distanciamento maior face à acção, presenciando simultaneamente a descontracção em primeira instância, e em primeiro plano, e por detrás o horror da destruição num contexto incrível de jogo e guerra. De uma estupidez e de uma ignorância como só Stanley Kubrick sabe transmitir.

7.6.13

Cenas (5)

2001: A Space Odyssey (1968), Stanley Kubrick


Cena poderosa, visceral, triunfante, visionária. É tudo aquilo que quisermos, porque na verdade ela própria se transcende e se imortaliza como peça rara e imprescindível para a história do cinema. Conhecimento e evolução se misturam aqui para dar lugar a uma mística, a uma ideia de profundidade e de significação da vida, do Homem, ou do que a arte nos pode fornecer. No fim, nem conseguimos percepcionar correctamente o que assistimos e damos por nós a contemplar uma viagem de milhares de anos. Fica tão somente para a posteridade uma cena que a bem dizer não se deve compreender, mas sim interiorizar ou simplesmente receber.

1.5.13

Cenas (4)

Lady in the Water (2006), M. Night Shyamalan


Belo exemplo de como começar uma história, de como introduzir uma temática e um universo paralelo. Se poucas dúvidas existiam de que Shyamalan é um exímio contador de histórias e um hábil explorador de ambientes e atmosferas (pesem embora os seus últimos trabalhos), esta cena retira toda e qualquer desconfiança que possa haver do senhor. Tremenda na forma como inicia o conto, apresenta as personagens, insere a narração, contempla o espaço e dá tempo à montagem. Brilhante em como ainda nos oferece uma clara harmonia entre a própria história e a música, ou até entre o desenho e a meticulosa realização. Grande cena.

10.4.13

Cenas (3)

Mar Adentro (2004), Alejandro Amenábar


Magnífico momento ou magnífica viagem aos confins interiores e exteriores da humanidade. De facto, por vezes é com o movimento e uma certa liberdade em percorrer um caminho que se dá uma revelação, e com isso uma abertura de espírito, que é tão necessária a quando de dificuldades ou simples limitações. Se no cômputo geral estamos perante uma divagação, um delírio pujante e denunciado, em particular, estamos na presença de uma escapatória, de uma fuga à realidade e, portanto, da consciencialização terrível e palpável. Este excerto aqui referenciado não é mais que um episódio, musicalmente acutilante, poderoso, abismal e fracturante de todos estes aspectos.

Inocente e criminosa ao mesmo tempo, a cena oferece-nos uma combinação de enquadramentos com movimentos de câmara num plano-sequência delicioso. Pode-se dizer que ainda há uma contaminação da vida quotidiana do lar pela natureza e pelo ar puro. É, pois por isto e muito mais, para ver e apreciar, seguir e contemplar, ou, simplesmente, olhar e deixarmo-nos levar. Quanto maior o salto, maior a queda, é certo, mas também é verdade que sem o salto ou o sonho que possibilita o mesmo, nunca haverá motivo, ambição, objectivo e esperança num dia melhor.

15.3.13

Cenas (2)

Amadeus (1984), Milos Forman


Num filme em que as sensações e o fio condutor da narrativa se alinham e se baseiam na música, sob o astro intemporal de Wolfgang Amadeus Mozart, é perfeitamente compreensível que se atinjam momentos como este aqui destacado. Momentos estes que revelam todo o poderio emocional que está por detrás de composições musicais, ou de uma vida recheada por esta actividade (tão nobre e tão antiga), ou ainda simplesmente por detrás de uma paixão e de uma vocação a todos os níveis extraordinárias.

Relativamente à cena, trata-se de um exemplo entre muitos durante o filme, onde é bem visível a concentração de Frederick Murray Abraham (como Salieri, numa arrebatadora interpretação) em nos fazer passar, e acreditar, na beleza e na rara qualidade de uma melodia ou de um trecho musical idealizado por Mozart, numa exímia capacidade em alcançar patamares do outro mundo. Quase divinos, diria. Tendo a desconstrução e a gradação instrumental como base, a cena fala por si, não necessitando de grandes adornos linguísticos de modo a se compreender o fascínio e a admiração oculta que Salieri detinha por Mozart, sendo ele um colega de profissão ou, no fim de contas, um rival à época. A forma como nos surpreende e nos prende a atenção (tal como fixa a câmera e prende a respiração) é a prova cabal do sucesso desta curta cena, e porque não, do sucesso do filme. É, portanto, para ver e rever.