2.12.13

2001: A Space Odyssey (1968)

2001: Odisseia no Espaço, Stanley Kubrick


Deus quer, o Homem sonha e a obra nasce. Será o repto ou o desejo máximo de uma Pessoa, dos mais recônditos cantos de sua alma, do seu ânimo, porém apenas e só alguns, raros, terão a remota capacidade de alcançar tamanho êxito ou conquista especial. Stanley Kubrick pertence certamente a esse restrito grupo de fenómenos intemporais. Um iluminado, um visionário e um artista, na verdadeira acepção da palavra. Deu-nos, em primeiro plano e não levitando para já da realidade, aquilo que tão simplesmente procuramos nestas andanças - arrebatamento, vibração e, sobretudo, dúvida. Esta, aliás, de que o objecto parte e se estende, sendo que termina sem nunca a dissipar ou sequer a desmembrar, restando por isso sempre, em toda e nova ocasião, algo que a redescobre, a recria e a alimenta na duração desta voraz experiência que, com efeito, se dissimula em incertezas e incessantes oscilações, e vice-versa.

Em segundo plano, face então ao cepticismo e à tentação e à imaginação induzidas, está-se literalmente noutra dimensão, mítica, filosófica e obscura, de tão avançada e sedutora que se apresenta. Um milagre do criador, aqui um verdadeiro fundador se atendermos à reinvenção da ficção-científica enquanto género cinematográfico, numa obra megalómana que decididamente ultrapassa os limites do tempo e da percepção humana. Deus quis deste modo, assim o Cinema o ansiava, o Homem sonhou, Kubrick transcendeu-se e a obra nasceu - 2001: Odisseia no Espaço, datava o ano de 1968, estava então entre nós e as estrelas, definitiva e obstinadamente, qual fragmento meteórico ou diamante em bruto que teima em ser riscado mas que risca tudo e todos, sem medo, sem sossego e com prazer e consciência, para o bem ou para o mal, do seu egoísmo e estímulo simultâneos.


Ouve-se um ribombar, ao longe ecos primitivos, sente-se o prelúdio, a génese entre matéria e imaginário, o nascimento da vida. O engenho ajeita-se, o funcionamento é despertado e o círculo toma conta do arco narrativo que se começa a desenhar em constantes desvanecimentos. O Sol e a Terra, a estrela e o nosso planeta, perfeitamente alinhados, absolutamente enquadrados, dão o mote para uma odisseia mais simbólica e ornamental que descritiva e compreensiva, e que disfarçada, (inter)calada e pausadamente se supera a si própria, numa clara (sente-se desde logo) metódica convergência e concorrência entre luz e sombra, entre palavra e som, entre melodia e volume, entre imagem e cor, ou entre representação e movimento. Uma autêntica nascente de nuances apreciativas e interpretativas que se principia a desvendar, para, em ultima análise, se chegar à conclusão da nossa manifesta falta de domínio sobre o universo e o abstraccionismo complementar.

No alvorecer da humanidade, o início da vida é como uma rocha ainda por se degastar, por se polir e por se definir, pelo facto de que a experiência, essencial, ainda está por adquirir. As pré-existências, a história e o conhecimento empírico podem facultar e instigar à evolução animal e à adaptação ao meio envolvente, tão natural quanto impressionante - o crescimento, a mudança ou o desenvolvimento são sempre etapas estimulantes - mas o que é certo é que de algum modo existe frequentemente no processo, e no progresso, um persistente efeito misterioso e extra-ordinário (extra-terrestre), que teima ora em esconder-se, ora em aparecer.

Portanto, se me é permitido deduzir, a aprendizagem, e logo o avanço corporal e intelectual, não se confinam unicamente ao concreto e ao perceptível, pressentindo-se quase sempre algo mais, em maior escala e segundo outra dimensão, quem sabe a sua oposta direcção? Provavelmente, no fundo não mais que a perspectiva do oculto, do desconhecido, a mesma que Kubrick se apercebe e se apronta a nos indiciar e a nos provocar, leia-se o vulgo e impossível monólito, um paralelepípedo tumular, estático, rectilíneo e negro, como o infinito, que surge e (com)parece cirúrgicas vezes, conforme o presente (o dedo indicador) assim o designe.


Num primeiro tomo ou decisão, introduz-se o berço, as fundações, com a visão da premonitória espécie de símio, os macacos (os antecessores mais próximos, quiçá os mais pertinentes), que às tantas influenciados e posteriormente manipulados pela vigia e controle do referido monólito (sobre-natural) são levados, compulsivamente, a descobrir o poder ofensivo, o combate, a arma de arremesso ou o chegado (e distante) osso, o instrumento basilar. Na prática, a descobrirem-se a eles mesmos. Importante revelação esta que somos dados a (re)ver, porventura uma das mais icónicas de que há memória, altura em que os nossos antepassados finalmente constatam o valor do ataque, da guerrilha, da força da destruição e, logo, da construção, moldagem e planeamento aderentes. Enorme capítulo do período anterior ao domínio do maior primata, o primata superior, o definitivo ser ascendente dos hominídeos e do próprio Homo sapiens. A sabedoria, impulsionada com um incremento incógnito, a consumar assim a sua energia e o seu papel no curso da ainda tão curta história do Homem.

Numa segunda ocasião, tem-se nova investida do estranho, mas não menos atraente, monólito, a fazer novamente das suas e incutindo, em déjà vu, a correspondente atmosfera sombria e enigmática, quando mais uma vez nada assim o previa. Nesta fase num campo, em anos e em metros, diametralmente longínquo (e de maior escuridão) - a superfície lunar, a nossa Lua. Nitidamente uma opção racional, oposta e discrepante, e que assenta no tecto e no horizonte controversos e, por tudo isso, ilimitada, se compararmos com a anterior decorrida na pré-história. Tempos ou momentos antagónicos, mas ambos antecedentes de uma alteração (ou alternativa) de natureza inspiradora. As dúvidas, essas persistem, assolam os então exploradores ou astronautas das estações espaciais (num ambiente deveras sofisticado e vanguardista - o design, a decoração e a valsa), de tal forma que uma missão é despoletada e idealizada com o intuito de resolver tamanho mistério ou, espera-se, a promessa de maior conhecimento do que nos rodeia universalmente, e a partir daí do que nos afronta interiormente.

A inteligência humana a projectar também deste modo a inteligência artificial e, pelo caminho, a se consciencializar dos benefícios e das consequências que poderão ou não resgatar com a sua exploração e a sua implacável (contra-)reacção, aqui talvez mais inesperada que o prognosticado, não fosse estarmos perante uma máquina que supera o seu intento e que terá assim a legítima avidez de se libertar e de se realizar artificialmente (e pessoalmente?). O real e inevitável cumprimento da estrutura na familiar "árvore genealógica" em que o sucessor (hesitantemente) suplanta o seu mestre, o seu inventor, ou, melhor, o ultrapassa apenas para se deixar dobrar uns metros mais à frente, numa longa-metragem hipoteticamente periódica e de sentido orbital, qual corpo celeste em permanente giratória. Não será o espaço, sem gravidade e sem fim, onde tudo se ensaia e se perpetua (solos que se convertem em paredes, horizontalidades que se confundem com verticalidades), um cenário ajustado e favorável, ou até o ideal, para esta problemática? É garantidamente tão incerto e tão provisório quanto as vicissitudes da existência e do tempo, e contra-tempo, em si.


Até aqui, duas aparições do monólito, o ex libris da jornada, e dois momentos distintos da nossa (suposta) evolução, o passado e o futuro. No meio, não ficou esquecido, o mais austero raccord que o Cinema já concebeu e o maior lapso histórico jamais contado, excluído ou sugado narrativa e visualmente ou, mais importante, jamais vivido em linguagem cinematográfica. Por certo, este é um dos instantes mais famosos de que se tem conhecimento, e diga-se, totalmente meritório, o qual é materializado no lançamento de um osso por parte de um (vulgar) macaco (na tal descoberta do poder da transformação, do nosso poder) e do corte do mesmo em pleno ar, no céu, no firmamento, sem aviso e sem antecipação, para, note-se, um salto temporal (e espacial) de milhares de anos, que nos transporta somente para o angustiante vazio do cosmos, do nosso sistema solar. Do osso à nave (ou se quisermos, à caneta, presente nesta última), os respectivos topos de gama do seu tempo. Uma fulminante (e ultrajante) viagem, assim, sem mais nem menos - de quebrar o mais insensível espectador. De uma potência e influência a todos os níveis brutal e, refira-se, capital.

No fundo, assume-se que o corte, e a elipse entre planos na montagem, representa um brusco intervalo que propositadamente nos devemos esquecer, uma pausa que na verdade não necessitamos, ou noutro sentido, um simples parêntesis que omite toda uma informação descartável, adicional e explicativa, que a ver bem (já) está lá, sabemo-lo, vivemo-lo, reconhecemo-lo (à nossa imagem), para se focar apenas no essencial, naquilo que importa aqui fundamentalmente destacar, dissertar e divagar - a nossa profunda ignorância e lucidez aleatórias e alternadas - nos ambientes mais transparentes e habilitados a tal - a origem e o destino, a certeza de um território e a expectativa de um rumo, ou, enfim, entre o que conhecemos, mas não imaginamos e o que aspiramos imaginar sem no entanto conhecermos.


A odisseia progride, geometricamente enquadrada, virtuosamente filmada, musicalmente acutilante, e, sobretudo na segunda metade da película, silenciosamente captada, numa cadência por demais vagarosa, ciente e evidente e, porque não, triunfal. A busca por respostas continua espaço fora e espaço adentro (o misterioso monólito perdura na consciência), rumo a Júpiter, suposta luz ao fundo túnel, sem, contudo, no trajecto evitar alguns percalços ou situações menos esperadas, digamos, em especial de onde não se adivinhava, de onde mais se tinha confiança e segurança. Um autêntico quid pro quo, uma reviravolta de 180 graus (mais tarde de 360), que coloca o Homem refém do mecanismo, aqui supercomputador, o célebre HAL-9000, e o torna completamente impotente e, nos primeiros minutos, incapaz de reverter os acontecimentos, leia-se a morte que tem de encarar entre colegas de expedição, para mais no eterno infinito, na escuridão total.

Em seguida, as posições invertem-se e a direcção lá se alinha, a custo e a contrafeito bem entendido, e apenas com recurso à (única) vantagem que o ser-humano ainda possui sobre o software - a emoção e o instinto de sobre-vivência (porventura a memória e o esquecimento), acima até de qualquer tipo de hardware. O que nos diz nem muito nem pouco, diz tudo em relação a esta dicotomia entre senso e razão e sentimento e reacção (e ainda que ambos os lados demonstrem argumentação ou sentidos inversos e aquele "olho" de HAL nos denuncie algum avanço ou maior conhecimento, traição, laivos de emoção, ou, tão só, os primeiros passos para uma mutação, para um legado da nossa ambição). Fica, adicionalmente, nova dúvida, certeira, imperial e incomodativa.


Agora numa demanda solitária e a caminhar para a recta final na circunferência do espaço sideral, no ritual do sistema solar e na ordem do universo, o envolvente altera-se e as circunstâncias camuflam-se, remetendo todo o âmbito circundante às mais eloquentes e delirantes visões. Um espectáculo alucinante, anestesiante e totalmente alienado de lógica ou compreensão pelo que se está, incredulamente, a assistir. Luz, cor e agitação tomam conta do quadro, do campo material, tangível ao observador, tal como o vento, o aroma e o tacto que sentimos são perfeitamente aceitáveis e credíveis, dado a comunhão que é impressa com o espectador, e por inerência com o protagonista, verdadeiro veículo do passeio e do deslocamento espesso e acelerado que, todos juntos, atravessamos até um extremo oposto. Que mais dizer desta particular corrida contra o tempo? Desta extravagante entrada, o salto para as estrelas, para lá do infinito, que mais parece um portal encantado e divinal para o então satélite e gigante monólito alcançado? Só Kubrick para nos rematar deste modo uma experiência por si só já marcante e recompensadora.

A interpretação de tudo o que se segue, de tudo o que é somado, subtraído, multiplicado ou dividido (e potenciado ainda com a presença, outra vez, do monólito), ou em suma calculado no nosso espectro ocular e sensível, é, pois, demasiado densa e receptível de pensamento ou de exercício mental e cultural, que se torna, a cada nova dedicação (devoção), uma genuína fonte particular e simultaneamente global para a compreensão do humanismo, da vida e da (sétima) arte. É infrutífero e, porventura até contraditório, portanto, a tentativa de completa resolução deste quebra-cabeças ou deste enigma que nos assola assim que nos retorna o derradeiro olhar, provocatório, intimidatório, mas inteiramente fascinante de uma ponta à outra, num novelo que cai (tipo ficha) e que começa desta forma a se desfiar consoante o percurso ou os obstáculos que terá pela frente, leia-se as convicções e as inquietações que pensamos ou não deter, e vir a deter, ou inclusive bloquear, perante a arte, a ciência e a contemplação do dia-a-dia existencial.

Ainda assim, uma possível análise a estas cenas ou a este capítulo da epopeia (porque de poesia tem muito) será seguramente o da imprevisibilidade das acções e do decorrer das respectivas reacções, num permanente jogo de espelhos e de reflexão (e refracção), onde não enxergamos nem uma oitava parte (número redondo) do que presenciamos no então quarto ou salão de estilo bizarro, de tão arcaico e moderno que se apresenta. O tempo e o espaço desordenam-se e embaraçam-se, embaraçando-nos nós também, convertendo aquilo que se estava a seguir em larga medida com a mente num intrínseco devaneio ou entranhado sonho, culminando, provavelmente, num despertar e numa ascensão a uma nova condição em que a quarta dimensão se exprime. O ênfase na viagem e no lugar do Homem no universo, dados os relevantes primeiros passos, e numa colossal e descomunal parábola cósmica, de levar o conceito de vertigem às nuvens, literalmente. A tontura e a sensação de falta de equilíbrio no vasto e negro oceano ganham por conseguinte todo um novo significado e pertinência à luz de tamanhas interrogações (retórica?).


2001: A Space Odyssey enquanto filme (operático) ou enquanto objecto cinematográfico possui também, para além de tudo o que se conjecturou anteriormente, outras qualidades, obviamente, algumas já sugeridas, nomeadamente ao nível da filmagem e da montagem, em que a imagem e a câmera justapõem-se ao diálogo, com um ritmo ora temperado e sereno, ora picante e mordaz, e ao nível da arquitectura dos planos, montados abruptamente como se de um esqueleto se tratasse, tal o seu detalhe, solidez e interdependência. Por demais estratégicos, harmoniosos e angulosos - a diagonal entre as linhas ortogonais, ou sobretudo o círculo, a rotação, sempre e outra vez, entre eixos de translação impõem um sentido perspéctico e de profundidade assaz inovador - de resto como é condição privilegiada e recorrente do seu autor.

Há amiúde inúmeros casos em que o enquadramento se comporta rigorosamente em consonância com o seu significado ou simbolismo implícito e se revela, pois, radioso, de nos comprometer instintivamente com o mesmo e com toda a repercussão que daí resulta. Desde o já referido plano do osso, que perfaz o ajuste (raccord) para o plano da nave, fluindo este depois num bailado entre câmera e personagens em perfeita circulação e respeito com a música presente, até ao último plano de uma secreta criança a contemplar o planeta Terra, o mundo, num limite e princípio coincidentes de uma outra história, a próxima, a que, por agora e para já, não nos concerne, aliás, em parte como todo o filme.

De destacar ainda, isoladamente, a banda sonora, na composição e orquestração de toda a imagética sensorial e interpretativa e no batimento ou na pulsação, arrebatadora, da ponderada selecção de música clássica (os temas Also Sprach Zaratustra e The Blue Danube de Richard e Johann Strauss, respectivamente, são eternos), que não raras vezes nos oferece um autêntico júbilo e deleite pelo que se está a ouvir, a ver e a dançar em sintonia, ou, em conjunto, pelo que se está a vivenciar, tão simples e naturalmente. Quando o silêncio e o som (e a respiração), apenas e só, substituem a banda sonora, é por dotes e definições próprias, não fosse o espaço, infinito e imensurável, a estrada e a paragem obrigatória para estes sóbrios passageiros.

Por outro lado, os efeitos especiais, a fotografia e todo o restante departamento técnico (e a tecnologia atingida) estão igualmente num patamar superior, ao rubro, se assim se pode dizer, pelo que não existirá, pelo menos à superfície (e dado o deslumbramento imediato e sistemático), nada fortemente a balançar em termos negativos esta transcendente, alegórica, polémica e abismal obra de Kubrick. Naquela que é habitualmente considerada como a obra-prima máxima do Cinema, o filme-charneira e o mesmo onde Deus, o omnipotente misterioso, o "nosso" monólito que vaguei sem fim, terá tocado e imortalizado, ao ponto de influenciar meio mundo, porque, se nos lembrarmos, a outra metade preconizada pelo recém-nascido, ainda está para existir.



Jorge Teixeira
classificação: 10/10

28.10.12

C'era una volta il West (1968)

Aconteceu no Oeste, Sergio Leone


Era uma vez no Oeste, ou Era uma vez O Oeste, título e tradução do inglês - Once Upon a Time in the West, por sua vez traduzido do original C'era una volta il West - mais correcta e, sobretudo, mais fiel à essência do filme e ao conceito inicial criado. Para o português chega-nos a tradução Aconteceu no Oeste, que provém e insiste no erro do homónimo título inglês, e que pouco nos diz sobre a película de Sergio Leone.

Aconteceu no oeste, como poderia ter acontecido a nascente, passe a ironia, remetendo-nos, à partida, para mais uma história no velho Oeste Americano, que na certa se destacará por um vilão mais carismático ou por um par central mais romântico que nunca. E é assim que idealizamos o filme, se nos restringirmos apenas ao título do mesmo e não olharmos para o verdadeiro (e único) título - o original, o italiano, o tal que nos anuncia a queda de algo, o declínio de anos vividos ou o derradeiro fim de um estado e de um sistema de costumes.


Ainda mal nos aconchegamos no nosso lugar para a sessão, já estamos desaconchegados, digamos, perante o silêncio e a tensão estrategicamente desenvolvida à nossa frente. Tudo se desenha com tamanho detalhe e minúcia que os próprios minutos parecem não avançar. Estamos, pois, num cenário à parte, acabamos de aterrar num local distante - uma estação - incaracterística e, à falta de melhor, ficamos também à espera que o comboio chegue, seja lá o que isso for, ou o que isso nos traga, melhor dizendo. Acção, pistolas e tiroteio, inevitavelmente, mas estranhamente, na medida em que nada sabemos sobre os protagonistas da cena em questão, apenas que um suposto ajuste de contas está inerente. Culminamos, desta forma, no expoente de uma cena que terá todos os motivos para lhe tecer rasgados elogios, desde os ângulos e enquadramentos arquitectados ao pormenor, até à montagem sequencial e harmónica que potencia as personagens e o poder da antecipação, como ainda por um trabalho notável de sonoplastia. De génio, e é dizer pouco.

Introduzida que está uma das personagens principais (a que sai ilesa do confronto), seguimos para outra, e do suposto herói passamos para o vilão, tal como da estação passamos para o campo. Agora, por terras "ainda" longe do tão próspero caminho-de-ferro, seguimos outras pessoas, aqui não um bando ou uma gangue, antes uma família, e portanto, o retrato de hábitos diários, que ao que parece não tão diários quanto isso - é evidente que se está a preparar alguma ocasião especial. As poucas palavras indiciam isso mesmo e o silêncio mais uma vez adensa-se, voltando a fazer das suas. Estamos, então e novamente, com a tensão lá em cima e preconizamos algo, desta vez mais forte, quiçá mais preponderante para a história. E, nada acontece. Mau sinal. Sinal de que não acabou e que virá mais, e aí sim para devastar, para introduzir o propósito e o cerne de toda a trama. É senão, o mau da fita e os seus desígnios. Está encontrado, pois, o vilão, o adversário, e os opostos estão preparados para se começar a atrair.

Tudo o que virá a seguir se desenhará sob os mesmos contornos e sob a mesma mecânica episódica de filmar. E é dessa mecânica, dessa matéria-prima que o filme se faz, marcado que está agora o ritmo. A comprovar essa tendência estão as duas cenas seguintes que apresentam mais dois protagonistas: a personagem feminina, que confere a elegância e o balanço emocional precisos e cirúrgicos, e a personagem carismática, por assim dizer, aquela que acrescenta a descontração que o filme equitativamente possui, tantas vezes necessária para assentar e retemperar forças. As referidas cenas são muito bem filmadas, para não variar, e à semelhança das anteriores dão primazia às expressões, aos olhares, ao tempo como personagem (mas sem pressas), respirando quase sempre nas entre-linhas. O folgo ou a descompressão acontece porque há silêncios, mas também e principalmente porque a música se intromete, de uma forma brutal e emocionalmente fracturante.


Posto isto, as personagens principais estão apresentadas e perfeitamente definidas (em desempenhos exemplares a propósito), mas ainda por explorar. Ao longo do filme, a circulação das mesmas se dá consoante o próprio argumento as convoca, equilibrada e proporcionalmente, assim como a banda sonora surge aliada aos protagonistas e ao contexto presente (não será a faixa correspondente a Jill das mais belas de sempre?). Existe, pois, como que uma sequência de capítulos construindo a história, uma sequência de sub-narrativas paralelas (e perpendiculares) que, eventualmente, se cruzarão e culminarão de vez no desenlace final, sempre numa cadência certa e doseada quanto baste.

Para além disso, pode-se dizer que tudo o resto está, de igual modo, ao mais alto nível, desde a fotografia, perfeita no retrato interior de uma América desértica, até a uma cenografia de um primor extasiante, bem como ainda por uma banda-sonora do melhor que Ennio Morricone nos deixou - a beleza e a versatilidade das músicas estão, como já foi dito, na correspondência que existe entre protagonistas e determinadas faixas, ao ponto de marcar e imortalizar cada plano e cada cena. A realização é, nesse sentido, também ela genial, sempre atenta à mensagem por de trás tanto quanto sensível às linguagens, ora no detalhe, ora na fruição e contemplação de panorâmicas. Dentre inúmeros planos fabulosos e potencialmente com muito para analisar, destaque especial para uma das cenas finais, em analepse, em que tudo se mexe, tudo faz parte da orquestra e contribui para a realização atempada, crescente e apoteótica de uma revelação e posterior duelo final a todos os níveis extraordinários e deveras prodigiosos.

No trabalho de montagem e no departamento de som o assombro continua, já referido particularmente na cena inaugural, pelo que mais uma vez encontramo-nos perante um verdadeiro exemplo de perfeito encaixe entre tudo o que constitui um filme, no caso enquadrado e mantido em quase três horas de duração, mas preparado para mais se tal fosse pertinente, tal o encadeamento e lógica perceptíveis.


Sergio Leone brinda-nos talvez com a sua melhor obra, pelo menos no que a valores estéticos e artísticos dizem respeito. Se é notória aqui uma forte influência dos westerns clássicos americanos, de que John FordHoward Hawks, Anthony Mann, entre outros, fazem parte, também associamos o próprio sub-género spaghetti (ao qual este filme pertence) como o factor preponderante e a principal influência para ingerir a audácia e uma nova identidade que, não raras vezes, vinha a faltar aos clássicos do género maior.

Por outro lado, a evolução desde A Fistful of Dollars (do mesmo Leone) é evidente, dando a sensação que o cineasta se foi completando e ambicionando a cada novo projecto um voo maior. Um pouco como Tarantino fez (e vem fazendo) anos mais tarde, realizador que sofreu imensa influência destes westerns à italiana, e sobretudo, do mestre citado.


C'era una volta il West contém, deste modo, tanto por onde depurar e apreciar que é absolutamente delicioso e refrescante, sendo que tem sobrevivido (e se elevado) com o passar do tempo, nunca se esgotando às primeiras visualizações. Há sempre mais qualquer coisa por ver, por descobrir e por degustar outra vez. A mensagem subliminar também é ela mais que pertinente e marcante na época que se insere a narrativa - o início do fim do Oeste, tal como o conhecemos de então, destruído pelo progresso, pelo dinheiro e pelo poder invisível.

Diria que esta obra, acima de tudo, condensa e homenageia o western em si, ou o estilo nas suas várias correntes, como nunca antes se tinha feito. Artisticamente falando, o filme extravasa qualquer género e sub-género (ainda que se inserindo neles), tal como ultrapassa referências e estereótipos vincados em várias décadas, destacando-se mesmo como um dos melhores filmes jamais realizados. Obra-prima.

"Do you know anything about a guy going around playing the harmonica? He's someone you'd remember. Instead of talking, he plays. And when he better play, he talks."
Cheyenne


Jorge Teixeira
classificação: 10/10

11.8.12

Psycho (1960)

Psico, Alfred Hitchcock


Imagino, porque só posso imaginar, o fascínio que o filme deve ter provocado às pessoas que o visionaram a quando da sua estreia. Um verdadeiro privilégio, não só por ser um clássico e um marco nos dias de hoje, mas também no que toca à sensação única de abarcar todo o suspense pela primeira vez. Suspense e tensão, porque realmente, são a matéria-prima aqui. Mais do que nunca, é desarmante, esse sentimento de impotência e total descontrole do que acontece, do que se sente, ao ponto de não se saber, por meio de nenhum artifício (banda-sonora, continuidades, lógicas, etc.), para onde a história se vai desenvolver a seguir. Não que isso aconteça sempre (a narração existe e o desenvolvimento das personagens também), o facto é que nada é ao acaso, nada é fortuito e por isso previsível e aborrecido.

Rodam as personagens (e rodamos nós com o rumo dos acontecimentos), e a imprevisibilidade está lá outra vez, incisiva, poderosa e fracturante. Trata-se de um filme de terror, e ao contrário do que possa parecer, o preto e branco reforça-lhe esse estatuto. A ausência de cor e ao mesmo tempo a sugestão frequente dela mesma (a icónica cena do "duche" é um exemplo, com todo o sangue a ser mais sugerido e interiorizado do que propriamente mostrado), confere a todo o ambiente e ao enredo o ritmo pulsante próprio do género. Reflectido, por sua vez, em última (e primeira) análise na destreza da montagem, na excelente banda-sonora, e na força das várias interpretações, todas elas destacáveis.


Por um instante esquecemo-nos ou distraímo-nos (imersos que estamos), e lá está outra vez a mestria a funcionar, aquele movimento de câmera (a nossa visão, a visão de Hitchcock) estonteante, criativo, e eficaz acima de tudo. Alguns enquadramentos são igualmente dignos de profunda admiração. Destaco um, aquele que, porventura, será o mais famoso e simbólico até hoje - o plano final com o "revelado" ou "enigmático" Norman Bates. Fabuloso, a rematar toda uma experiência, no mínimo, recompensadora. Enfim, dizer mais será sempre pouco, um filme para ver e rever.


Jorge Teixeira
classificação: 10/10