11.11.12

Oldboy (Oldeuboi) (2003)

Oldboy - Velho Amigo, Chan-wook Park


Estamos talvez perante uma das melhores histórias de que o cinema se serviu, genialmente preparada, cozinhada e manipulada num filme que escasseia os elogios que lhe poderemos dar. Numa obra que nem precisava de grande arrojo no plano da realização, detendo esta maravilha de argumento, é-lhe ainda adicionada um esquema e (des)organização na filmagem a todos os níveis brilhante. Chan-Wook Park é o hábil manipulador das sensações e desta constante instabilidade que se sente no decorrer da história e do encadeamento da trama, ao ponto de passar uma mensagem terrivelmente violenta e forte ao espectador, tornando-se inclusive ela própria algo estranha, incompreensível e, porque não, do outro mundo.

Desde o início, é claro e ao mesmo tempo incerto, para onde Park nos vai levar, para onde aquela rede de vingança, traição e sentimentos ocultos nos vão conduzir. Os olhos do protagonista, numa performance arrebatadora, dizem tanto e tão pouco, e nós, testemunhas, indefesos e rendidos, vê-mo-nos cedo a acompanhar e a sentir todos os passos dados por tal homem, e de arrasto, por situações que lhe vão (en)calhando, um pouco sem se perceber porquê. A claustrofobia, o medo, a solidão e a própria condição e existência humanas são temas bem evidentes aqui, que extrapolam inevitavelmente para fora do ecrã. Daí que as interrogações são mais que muitas e as respostas quase nenhumas, e durante muito tempo a confusão e a incompreensão não diminuem. O enigma vai permanecendo, mas sempre em doses apelativas e nunca frustantes, tanto quanto a desconfiança da resolução que presumivelmente se traduzirá à nossa frente.


Por outro lado, e paradoxalmente, vamos edificando uma espécie de confiança na expectativa e na própria história em si, quase como se fosse impossível nos defraudarem com o levantamento do véu, com a solução daquele quebra-cabeças, cada vez menos importante. Isto porque o deleite visual, sonoro e interpretativo é constante, atingindo mesmo patamares de rara imprevisibilidade, diversidade e originalidade. Tudo se constrói, física e psicologicamente, de forma surpreendente e por demais virtuosa, pelo que se compreende que às tantas já estamos divididos num equilíbrio entre o prazer de assistir a tão belas sequências e entre tentar desvendar o propósito deste jogo, digamos.

Talvez já não interesse se o final é de ficar de boca aberta, talvez o que importe mesmo é a reflexão e as sub-camadas de um puzzle que se encaixa diante de nós. O interessante, para além da inequívoca qualidade dos efeitos narrativos, está no reflexo e na força com que somos atingidos por eles mesmos, pela mensagem central e marginal, ou pelos temas de ódio, maldade, compaixão, lembrança e esquecimento. O passado estará sempre na mesma balança que o futuro, numa espécie de peso ideal, e a esperança é tão necessária quanto a verdade e a culpa dos actos praticados.


Destaque para a montagem de toda a película, provavelmente o factor decisivo, unificador e de classe para a excelência do projecto final, bem como de uma cena em particular, o plano-sequência da luta entre o personagem principal e uns quantos (muitos) adversários, em que a câmara assume vontade própria, desenhando e programando a acção num estilo impróprio e em ângulos, no mínimo, irreverentes e audazes, e no máximo, de uma criatividade, capacidade e versatilidade imensas. Um exímio exercício, de um formalismo e confluência de géneros assaz inovadores. O grafismo e algumas técnicas em câmara lenta são igualmente muito bem utilizados e enquadrados na intensa narrativa, neste exemplo mas de um modo geral.

Grande parte das cenas são ainda, aliás, de uma ambiguidade desarmante e, não menos, inquietante. Detentoras, por vezes e em simultâneo, de uma contenção e brutalidade sem precedentes. Para isso a fotografia e toda a atmosfera do filme estão à altura, a condizer e a respirar entre si e ainda adequadas aos níveis de emoção presentes. Tal como a banda sonora realça e sublinha parágrafos certeiros do guião. Então os momentos finais são qualquer coisa de irreal, de tão poderosos, simples e aflitivos que se tornam, confirmando e arquivando este Oldboy como uma peça de arte em bruto, de um grau de perfeição ímpar.

"Your gravest mistake wasn't failing to find the answer. You can't find the right answer if you ask the wrong questions."
Woo-jin Lee


Jorge Teixeira
classificação: 9/10

16.10.12

Dersu Uzala (1975)

Dersu Uzala - a Águia da Estepe, Akira Kurosawa


Filme riquíssimo na mensagem, na narrativa, naquilo de que talvez o cinema mais precisa hoje em dia – verdade. Essa verdade é-nos dada através de Dersu Uzala, personagem que dá título ao filme, um homem de idade avançada e de estatura diminuta que vive da e para a natureza, que se movimenta como se da própria estrutura elementar da mesma fizesse parte, o que na realidade até faz. Todo o ser-humano é parte integrante e insignificante de um todo, em perfeita comunhão com o primitivo e selvagem. Dersu é por isso uma personificação de um estado antigo, de uma vivência pré-temporal nostálgica, sábia e experienciada. Tal como ele próprio, com a sua humildade, está constantemente a evidenciar perante a arrogância e ignorância do exército russo e do seu oficial, recém chegados. Facto que este último acaba por perceber passando de imediato a admirar, contrariando assim a tendência, ao ponto de erguer uma amizade sem precedentes e começá-lo a seguir cegamente pelos meandros do desconhecido e da aventura.

Ás tantas, e lá mais para o fim, a situação inverte-se, invertendo-se também o espaço (e o tempo) para os dois protagonistas. A amizade conquistada fortalece-se, mas as motivações, os medos, os prazeres e a rotina trocam de lado e adensam-se, inevitavelmente. Surgem então as dificuldades onde antes residiam apenas facilidades (e vice-versa), demasiado evidentes e desconfortáveis, tão fortes quanto a dureza da personalidade em si, ou tão rígidas quanto a inflexibilidade do orgulho. Tudo se resumirá às mais pequenas e pertinentes questões: estará  Dersu, um homem que respira a floresta e o campo como se de oxigénio se tratasse, preparado para enfrentar o meio Urbano, o meio onde o ambiente é mecanizado, formatado e contido? Ou alguma vez conseguirá um cidadão (como o oficial russo) assimilar tamanho conhecimento e destreza humanas no acto de sobrevivência e subsistência no meio selvagem? As respostas não são simples, nem tão pouco conclusivas perante o que assistimos. Bem patente, no entanto, revela-se a pequenez humana perante a magnitude das paisagens, sobretudo, a selvagem, a mais verdadeira, aquela a que Dersu faz parte e a que o oficial russo (e nós) nos apercebemos como mais poderosa e essencial (ainda com tanto por desvendar).

Trata-se, pois, de um exercício narrativo e didáctico tremendo e muito bem escrito. Kurosawa, num estilo mais poético do que o habitual, conta-nos uma história de amizade, de partilha e de bom-senso, mas acima de tudo, remete-nos para o valor unitário do ser-humano inserido numa escala desmesuradamente superior. É neste contexto que o cineasta também nos conduz para o significado do tempo e da vida, tão efémera quanto a memória dos que cá ficam, dos que se lembram. Valores estes que depois são (re)tratados na sua maioria à distância, em magníficos planos gerais perfeitamente enquadrados sempre com as duas personagens (humanas e naturais), como se nunca tirasse partido apenas de um detalhe, ou da folha da árvore ou do rosto do homem, antes nos mostrando (e não sensibilizando) os acontecimentos, única e exclusivamente. Toda essa imponência fílmica e narrativa nunca é, nessa medida, desviada, nunca se desvirtua, porque invariavelmente aponta ao essencial e logo à profundidade que temas deste calibre requerem.


Soberba ainda a fotografia que completa o quadro e nos brinda com contrastes e luminosidades de paisagens absolutamente deslumbrantes. E se por um lado se pode dizer que este é um filme sobre a natureza, sobre a dualidade entre o natural e o artificial e sobre a noção de escala entre o Homem e o meio-ambiente, por outro, é acima de tudo um filme que nos transporta para a autenticidade e para a amizade na relação entre os seres-humanos, no caso de duas pessoas tão diferentes social e culturalmente, o que é extraordinário e simplesmente maravilhoso.

"How can man live in a box?"

Crítica nomeada em 'Melhor Crítica de Cinema' nos TCN Blog Awards 2012


Jorge Teixeira
classificação: 9/10

23.9.12

Inglourious Basterds (2009)

Sacanas Sem Lei, Quentin Tarantino


Este capítulo da carreira de Tarantino revela-se como o seu mais requintado projecto. Isto porque se trata de uma confluência abismal (e surreal) de géneros, reinterpretados e reinventados com surpreendente equilíbrio e mestria. Não é ao acaso, por isso, que se privilegiam sobretudo, e como tem de ser, o argumento e a realização, não descurando ainda assim aspectos técnicos, igualmente muito bons.

Ora, por um lado, é nos diálogos, no texto e nas palavras que o cineasta se debruça, se baseia para construir a sua história (a sua visão) e as suas personagens. De facto, este filme é ele próprio um romance, seja pela sua divisão em capítulos, seja na sua dependência (e valência) pelos diálogos, tão preponderantes numa leitura. Por outro lado, é também e em simultâneo, nas imagens que o realizador sustém o filme. É no poder dos planos que a construção, a tensão e os vários níveis do argumento se apoiam. Se num prisma, aquilo que se diz é sintomático dos acontecimentos, do desenvolvimento narrativo, noutro, aquilo que se mostra e como se mostra, denuncia as sensações e as emoções contidas. Tarantino, apesar disso, ainda consegue, com igual eficácia, baralhar e distribuir isto tudo. Tanto está a desenvolver a acção por meio de falas e de respirações, como a seguir conclui o episódio recorrendo a toda uma linguagem imagética, perceptível nos contrastes, nas saturações, nos cortes, nos ângulos e nas profundidades de campo.

Daí que também seja muito uma questão de montagem, de jogo, de arte, de saber quando e como fundir (ou alternar) essa dualidade. Digo alternar, porque por vezes as pausas e a cadência num diálogo ofuscam a visão, ou melhor, retiram protagonismo aos planos e àquilo que estamos a ver. Ouve-se e interpreta-se mais, ao ponto de quase nos cegar, digamos. Todo o diálogo inicial (excelente Christoph Waltz) é exemplo disso mesmo, onde estamos, sobretudo, atentos às falas e aos detalhes.

É, acima de tudo, este poder de nos concentrar, seja pela excelência do argumento, seja pela genialidade da câmera, que Quentin Tarantino se revela portentoso. Aqui talvez mais do que nunca, na medida em que transpira cinema e referências por todos os poros. A influência de Sergio Leone é, pois, clara (sempre e mais uma vez), tal como do género associado - o Western Spaghetti. Aliás o filme, no seu começo, confunde-se com a abertura de muitos filmes do Oeste no seu período áureo. A casa isolada, as paisagens distantes, o silêncio, os olhares, as expressões, etc. Já em Reservoir Dogs isso era notório, com a respectiva cena inicial à volta da mesa. Assim como em Kill Bill, 1 e 2, se denota essa marcante influência, inclusive na banda-sonora. Daí a impressão que Tarantino se vem aprimorando, vem limando as arestas da sua irreverência e ousadia (não necessariamente que os seus trabalhos anteriores sejam inferiores). Espelhada e acabada aqui, neste sublime argumento, que trai a história e a própria realidade, por assim dizer.


De referir ainda a banda-sonora, que está igualmente ao nível dos acontecimentos. E se, muitas vezes, serve apenas como adorno ou complemento, aqui ela assume linguagens próprias, catapultando o resultado final para um patamar ainda mais elevado. É por tudo isto e muito mais, que Inglourious Basterds é um dos melhores filmes do seu ano, e um dos melhores da década, sem sombra de dúvidas. Grandioso.


Jorge Teixeira
classificação: 10/10

15.9.12

Le Charme Discret de la Bourgeoisie (1972)

O Charme Discreto da Burguesia, Luis Buñuel


Grande surpresa. Não porque os filmes de Buñuel predisponham o inverso, antes pelo contrário. O que acontece, ou o que me aconteceu, foi abordar este filme sem qualquer expectativa, e daí que me tenha surpreendido com o resultado final. É tremendamente refrescante, e actual, por incrível que pareça.

Seguimos uns burgueses, amigos, numa constante tentativa inicial de planear um jantar de convívio e de partilha de experiências. Gente de classe social alta, com etiqueta o suficiente para tornar as situações e os diversos imprevistos em algo de caricato, cómico até. De largar genuínas gargalhadas interiores, confesso. À medida que o argumento avança, as sucessivas interrupções entram numa espiral cada vez mais surrealista e entrecruzada, acabando o espectador por deixar-se influenciar (e influenciar?) com o rumo dos acontecimentos.

O estilo, apesar de ser frio, é inventivo e, no mínimo, invulgar (nenhuma cena igual à outra, nenhum piloto automático a funcionar), e os mecanismos de narração (saltitantes), encontram-se atentos à manipulação e controle da cena, da estrutura-base e do espectador. De resto a cara de Buñuelaqui talvez com uma extrapolação e refinamento acima da média. Os actores também estão em grande nível, enigmáticos e excêntricos, mas credíveis, e toda a cenografia, guarda-roupa e demais departamentos adequados à excelência de todo o projecto. Grande grande filme.


Jorge Teixeira
classificação: 9/10