2.12.13

2001: A Space Odyssey (1968)

2001: Odisseia no Espaço, Stanley Kubrick


Deus quer, o Homem sonha e a obra nasce. Será o repto ou o desejo máximo de uma Pessoa, dos mais recônditos cantos de sua alma, do seu ânimo, porém apenas e só alguns, raros, terão a remota capacidade de alcançar tamanho êxito ou conquista especial. Stanley Kubrick pertence certamente a esse restrito grupo de fenómenos intemporais. Um iluminado, um visionário e um artista, na verdadeira acepção da palavra. Deu-nos, em primeiro plano e não levitando para já da realidade, aquilo que tão simplesmente procuramos nestas andanças - arrebatamento, vibração e, sobretudo, dúvida. Esta, aliás, de que o objecto parte e se estende, sendo que termina sem nunca a dissipar ou sequer a desmembrar, restando por isso sempre, em toda e nova ocasião, algo que a redescobre, a recria e a alimenta na duração desta voraz experiência que, com efeito, se dissimula em incertezas e incessantes oscilações, e vice-versa.

Em segundo plano, face então ao cepticismo e à tentação e à imaginação induzidas, está-se literalmente noutra dimensão, mítica, filosófica e obscura, de tão avançada e sedutora que se apresenta. Um milagre do criador, aqui um verdadeiro fundador se atendermos à reinvenção da ficção-científica enquanto género cinematográfico, numa obra megalómana que decididamente ultrapassa os limites do tempo e da percepção humana. Deus quis deste modo, assim o Cinema o ansiava, o Homem sonhou, Kubrick transcendeu-se e a obra nasceu - 2001: Odisseia no Espaço, datava o ano de 1968, estava então entre nós e as estrelas, definitiva e obstinadamente, qual fragmento meteórico ou diamante em bruto que teima em ser riscado mas que risca tudo e todos, sem medo, sem sossego e com prazer e consciência, para o bem ou para o mal, do seu egoísmo e estímulo simultâneos.


Ouve-se um ribombar, ao longe ecos primitivos, sente-se o prelúdio, a génese entre matéria e imaginário, o nascimento da vida. O engenho ajeita-se, o funcionamento é despertado e o círculo toma conta do arco narrativo que se começa a desenhar em constantes desvanecimentos. O Sol e a Terra, a estrela e o nosso planeta, perfeitamente alinhados, absolutamente enquadrados, dão o mote para uma odisseia mais simbólica e ornamental que descritiva e compreensiva, e que disfarçada, (inter)calada e pausadamente se supera a si própria, numa clara (sente-se desde logo) metódica convergência e concorrência entre luz e sombra, entre palavra e som, entre melodia e volume, entre imagem e cor, ou entre representação e movimento. Uma autêntica nascente de nuances apreciativas e interpretativas que se principia a desvendar, para, em ultima análise, se chegar à conclusão da nossa manifesta falta de domínio sobre o universo e o abstraccionismo complementar.

No alvorecer da humanidade, o início da vida é como uma rocha ainda por se degastar, por se polir e por se definir, pelo facto de que a experiência, essencial, ainda está por adquirir. As pré-existências, a história e o conhecimento empírico podem facultar e instigar à evolução animal e à adaptação ao meio envolvente, tão natural quanto impressionante - o crescimento, a mudança ou o desenvolvimento são sempre etapas estimulantes - mas o que é certo é que de algum modo existe frequentemente no processo, e no progresso, um persistente efeito misterioso e extra-ordinário (extra-terrestre), que teima ora em esconder-se, ora em aparecer.

Portanto, se me é permitido deduzir, a aprendizagem, e logo o avanço corporal e intelectual, não se confinam unicamente ao concreto e ao perceptível, pressentindo-se quase sempre algo mais, em maior escala e segundo outra dimensão, quem sabe a sua oposta direcção? Provavelmente, no fundo não mais que a perspectiva do oculto, do desconhecido, a mesma que Kubrick se apercebe e se apronta a nos indiciar e a nos provocar, leia-se o vulgo e impossível monólito, um paralelepípedo tumular, estático, rectilíneo e negro, como o infinito, que surge e (com)parece cirúrgicas vezes, conforme o presente (o dedo indicador) assim o designe.


Num primeiro tomo ou decisão, introduz-se o berço, as fundações, com a visão da premonitória espécie de símio, os macacos (os antecessores mais próximos, quiçá os mais pertinentes), que às tantas influenciados e posteriormente manipulados pela vigia e controle do referido monólito (sobre-natural) são levados, compulsivamente, a descobrir o poder ofensivo, o combate, a arma de arremesso ou o chegado (e distante) osso, o instrumento basilar. Na prática, a descobrirem-se a eles mesmos. Importante revelação esta que somos dados a (re)ver, porventura uma das mais icónicas de que há memória, altura em que os nossos antepassados finalmente constatam o valor do ataque, da guerrilha, da força da destruição e, logo, da construção, moldagem e planeamento aderentes. Enorme capítulo do período anterior ao domínio do maior primata, o primata superior, o definitivo ser ascendente dos hominídeos e do próprio Homo sapiens. A sabedoria, impulsionada com um incremento incógnito, a consumar assim a sua energia e o seu papel no curso da ainda tão curta história do Homem.

Numa segunda ocasião, tem-se nova investida do estranho, mas não menos atraente, monólito, a fazer novamente das suas e incutindo, em déjà vu, a correspondente atmosfera sombria e enigmática, quando mais uma vez nada assim o previa. Nesta fase num campo, em anos e em metros, diametralmente longínquo (e de maior escuridão) - a superfície lunar, a nossa Lua. Nitidamente uma opção racional, oposta e discrepante, e que assenta no tecto e no horizonte controversos e, por tudo isso, ilimitada, se compararmos com a anterior decorrida na pré-história. Tempos ou momentos antagónicos, mas ambos antecedentes de uma alteração (ou alternativa) de natureza inspiradora. As dúvidas, essas persistem, assolam os então exploradores ou astronautas das estações espaciais (num ambiente deveras sofisticado e vanguardista - o design, a decoração e a valsa), de tal forma que uma missão é despoletada e idealizada com o intuito de resolver tamanho mistério ou, espera-se, a promessa de maior conhecimento do que nos rodeia universalmente, e a partir daí do que nos afronta interiormente.

A inteligência humana a projectar também deste modo a inteligência artificial e, pelo caminho, a se consciencializar dos benefícios e das consequências que poderão ou não resgatar com a sua exploração e a sua implacável (contra-)reacção, aqui talvez mais inesperada que o prognosticado, não fosse estarmos perante uma máquina que supera o seu intento e que terá assim a legítima avidez de se libertar e de se realizar artificialmente (e pessoalmente?). O real e inevitável cumprimento da estrutura na familiar "árvore genealógica" em que o sucessor (hesitantemente) suplanta o seu mestre, o seu inventor, ou, melhor, o ultrapassa apenas para se deixar dobrar uns metros mais à frente, numa longa-metragem hipoteticamente periódica e de sentido orbital, qual corpo celeste em permanente giratória. Não será o espaço, sem gravidade e sem fim, onde tudo se ensaia e se perpetua (solos que se convertem em paredes, horizontalidades que se confundem com verticalidades), um cenário ajustado e favorável, ou até o ideal, para esta problemática? É garantidamente tão incerto e tão provisório quanto as vicissitudes da existência e do tempo, e contra-tempo, em si.


Até aqui, duas aparições do monólito, o ex libris da jornada, e dois momentos distintos da nossa (suposta) evolução, o passado e o futuro. No meio, não ficou esquecido, o mais austero raccord que o Cinema já concebeu e o maior lapso histórico jamais contado, excluído ou sugado narrativa e visualmente ou, mais importante, jamais vivido em linguagem cinematográfica. Por certo, este é um dos instantes mais famosos de que se tem conhecimento, e diga-se, totalmente meritório, o qual é materializado no lançamento de um osso por parte de um (vulgar) macaco (na tal descoberta do poder da transformação, do nosso poder) e do corte do mesmo em pleno ar, no céu, no firmamento, sem aviso e sem antecipação, para, note-se, um salto temporal (e espacial) de milhares de anos, que nos transporta somente para o angustiante vazio do cosmos, do nosso sistema solar. Do osso à nave (ou se quisermos, à caneta, presente nesta última), os respectivos topos de gama do seu tempo. Uma fulminante (e ultrajante) viagem, assim, sem mais nem menos - de quebrar o mais insensível espectador. De uma potência e influência a todos os níveis brutal e, refira-se, capital.

No fundo, assume-se que o corte, e a elipse entre planos na montagem, representa um brusco intervalo que propositadamente nos devemos esquecer, uma pausa que na verdade não necessitamos, ou noutro sentido, um simples parêntesis que omite toda uma informação descartável, adicional e explicativa, que a ver bem (já) está lá, sabemo-lo, vivemo-lo, reconhecemo-lo (à nossa imagem), para se focar apenas no essencial, naquilo que importa aqui fundamentalmente destacar, dissertar e divagar - a nossa profunda ignorância e lucidez aleatórias e alternadas - nos ambientes mais transparentes e habilitados a tal - a origem e o destino, a certeza de um território e a expectativa de um rumo, ou, enfim, entre o que conhecemos, mas não imaginamos e o que aspiramos imaginar sem no entanto conhecermos.


A odisseia progride, geometricamente enquadrada, virtuosamente filmada, musicalmente acutilante, e, sobretudo na segunda metade da película, silenciosamente captada, numa cadência por demais vagarosa, ciente e evidente e, porque não, triunfal. A busca por respostas continua espaço fora e espaço adentro (o misterioso monólito perdura na consciência), rumo a Júpiter, suposta luz ao fundo túnel, sem, contudo, no trajecto evitar alguns percalços ou situações menos esperadas, digamos, em especial de onde não se adivinhava, de onde mais se tinha confiança e segurança. Um autêntico quid pro quo, uma reviravolta de 180 graus (mais tarde de 360), que coloca o Homem refém do mecanismo, aqui supercomputador, o célebre HAL-9000, e o torna completamente impotente e, nos primeiros minutos, incapaz de reverter os acontecimentos, leia-se a morte que tem de encarar entre colegas de expedição, para mais no eterno infinito, na escuridão total.

Em seguida, as posições invertem-se e a direcção lá se alinha, a custo e a contrafeito bem entendido, e apenas com recurso à (única) vantagem que o ser-humano ainda possui sobre o software - a emoção e o instinto de sobre-vivência (porventura a memória e o esquecimento), acima até de qualquer tipo de hardware. O que nos diz nem muito nem pouco, diz tudo em relação a esta dicotomia entre senso e razão e sentimento e reacção (e ainda que ambos os lados demonstrem argumentação ou sentidos inversos e aquele "olho" de HAL nos denuncie algum avanço ou maior conhecimento, traição, laivos de emoção, ou, tão só, os primeiros passos para uma mutação, para um legado da nossa ambição). Fica, adicionalmente, nova dúvida, certeira, imperial e incomodativa.


Agora numa demanda solitária e a caminhar para a recta final na circunferência do espaço sideral, no ritual do sistema solar e na ordem do universo, o envolvente altera-se e as circunstâncias camuflam-se, remetendo todo o âmbito circundante às mais eloquentes e delirantes visões. Um espectáculo alucinante, anestesiante e totalmente alienado de lógica ou compreensão pelo que se está, incredulamente, a assistir. Luz, cor e agitação tomam conta do quadro, do campo material, tangível ao observador, tal como o vento, o aroma e o tacto que sentimos são perfeitamente aceitáveis e credíveis, dado a comunhão que é impressa com o espectador, e por inerência com o protagonista, verdadeiro veículo do passeio e do deslocamento espesso e acelerado que, todos juntos, atravessamos até um extremo oposto. Que mais dizer desta particular corrida contra o tempo? Desta extravagante entrada, o salto para as estrelas, para lá do infinito, que mais parece um portal encantado e divinal para o então satélite e gigante monólito alcançado? Só Kubrick para nos rematar deste modo uma experiência por si só já marcante e recompensadora.

A interpretação de tudo o que se segue, de tudo o que é somado, subtraído, multiplicado ou dividido (e potenciado ainda com a presença, outra vez, do monólito), ou em suma calculado no nosso espectro ocular e sensível, é, pois, demasiado densa e receptível de pensamento ou de exercício mental e cultural, que se torna, a cada nova dedicação (devoção), uma genuína fonte particular e simultaneamente global para a compreensão do humanismo, da vida e da (sétima) arte. É infrutífero e, porventura até contraditório, portanto, a tentativa de completa resolução deste quebra-cabeças ou deste enigma que nos assola assim que nos retorna o derradeiro olhar, provocatório, intimidatório, mas inteiramente fascinante de uma ponta à outra, num novelo que cai (tipo ficha) e que começa desta forma a se desfiar consoante o percurso ou os obstáculos que terá pela frente, leia-se as convicções e as inquietações que pensamos ou não deter, e vir a deter, ou inclusive bloquear, perante a arte, a ciência e a contemplação do dia-a-dia existencial.

Ainda assim, uma possível análise a estas cenas ou a este capítulo da epopeia (porque de poesia tem muito) será seguramente o da imprevisibilidade das acções e do decorrer das respectivas reacções, num permanente jogo de espelhos e de reflexão (e refracção), onde não enxergamos nem uma oitava parte (número redondo) do que presenciamos no então quarto ou salão de estilo bizarro, de tão arcaico e moderno que se apresenta. O tempo e o espaço desordenam-se e embaraçam-se, embaraçando-nos nós também, convertendo aquilo que se estava a seguir em larga medida com a mente num intrínseco devaneio ou entranhado sonho, culminando, provavelmente, num despertar e numa ascensão a uma nova condição em que a quarta dimensão se exprime. O ênfase na viagem e no lugar do Homem no universo, dados os relevantes primeiros passos, e numa colossal e descomunal parábola cósmica, de levar o conceito de vertigem às nuvens, literalmente. A tontura e a sensação de falta de equilíbrio no vasto e negro oceano ganham por conseguinte todo um novo significado e pertinência à luz de tamanhas interrogações (retórica?).


2001: A Space Odyssey enquanto filme (operático) ou enquanto objecto cinematográfico possui também, para além de tudo o que se conjecturou anteriormente, outras qualidades, obviamente, algumas já sugeridas, nomeadamente ao nível da filmagem e da montagem, em que a imagem e a câmera justapõem-se ao diálogo, com um ritmo ora temperado e sereno, ora picante e mordaz, e ao nível da arquitectura dos planos, montados abruptamente como se de um esqueleto se tratasse, tal o seu detalhe, solidez e interdependência. Por demais estratégicos, harmoniosos e angulosos - a diagonal entre as linhas ortogonais, ou sobretudo o círculo, a rotação, sempre e outra vez, entre eixos de translação impõem um sentido perspéctico e de profundidade assaz inovador - de resto como é condição privilegiada e recorrente do seu autor.

Há amiúde inúmeros casos em que o enquadramento se comporta rigorosamente em consonância com o seu significado ou simbolismo implícito e se revela, pois, radioso, de nos comprometer instintivamente com o mesmo e com toda a repercussão que daí resulta. Desde o já referido plano do osso, que perfaz o ajuste (raccord) para o plano da nave, fluindo este depois num bailado entre câmera e personagens em perfeita circulação e respeito com a música presente, até ao último plano de uma secreta criança a contemplar o planeta Terra, o mundo, num limite e princípio coincidentes de uma outra história, a próxima, a que, por agora e para já, não nos concerne, aliás, em parte como todo o filme.

De destacar ainda, isoladamente, a banda sonora, na composição e orquestração de toda a imagética sensorial e interpretativa e no batimento ou na pulsação, arrebatadora, da ponderada selecção de música clássica (os temas Also Sprach Zaratustra e The Blue Danube de Richard e Johann Strauss, respectivamente, são eternos), que não raras vezes nos oferece um autêntico júbilo e deleite pelo que se está a ouvir, a ver e a dançar em sintonia, ou, em conjunto, pelo que se está a vivenciar, tão simples e naturalmente. Quando o silêncio e o som (e a respiração), apenas e só, substituem a banda sonora, é por dotes e definições próprias, não fosse o espaço, infinito e imensurável, a estrada e a paragem obrigatória para estes sóbrios passageiros.

Por outro lado, os efeitos especiais, a fotografia e todo o restante departamento técnico (e a tecnologia atingida) estão igualmente num patamar superior, ao rubro, se assim se pode dizer, pelo que não existirá, pelo menos à superfície (e dado o deslumbramento imediato e sistemático), nada fortemente a balançar em termos negativos esta transcendente, alegórica, polémica e abismal obra de Kubrick. Naquela que é habitualmente considerada como a obra-prima máxima do Cinema, o filme-charneira e o mesmo onde Deus, o omnipotente misterioso, o "nosso" monólito que vaguei sem fim, terá tocado e imortalizado, ao ponto de influenciar meio mundo, porque, se nos lembrarmos, a outra metade preconizada pelo recém-nascido, ainda está para existir.



Jorge Teixeira
classificação: 10/10

3.9.13

Tokyo Story (Tôkyô monogatari) (1953)

Viagem a Tóquio, Yasujirô Ozu


Um dos filmes mais aclamados de Yasujirô Ozu é paradoxalmente um dos mais tristes e melancólicos da sua carreira, não pelo sentido cinematográfico em si, mas pelo sentido vivencial, terreno e emocional, que nos rasga, nos fere e nos consciencializa, em última análise, com a perda de algo ou de alguém que, eventualmente, não dedicamos tempo suficiente. Trata-se, acima de tudo, de (mais) uma incursão do cineasta japonês pelos meandros da vida comum, das origens, das relações humanas mais próximas, de questões geracionais e do próprio esgotamento das mesmas.

Viagem a Tóquio é um filme, antes de mais, sobre a família, sobre os costumes do dia-a-dia, sobre o peso dos anos (que não findam), sobre o crescimento, sobre a convivência vulgar, diária e difícil de sustentar, de equilibrar e de revitalizar. Os nossos, a nossa família, é única, é insubstituível, é um dado adquirido (mas também por adquirir, por degustar) no bom e no mau sentido, isto é, quando as coisas correm bem ou quando as coisas correm menos bem. Por isso, convenhamos, nem sempre é fácil a coabitação, a intimidade, a lembrança, a confrontação de preocupações de pais e filhos e o encaixe familiar entre os diversos membros em fases distintas de idade, por mais que a saudade e a união depois prevaleça na memória. Geralmente, e à posteriori, é quando menos se espera que a realidade, e a verdade, caem sobre nós, fulminantes, ultrajantes, impetuosas, que nem balas perdidas. Perfeitamente normal, diria, e que corresponde tão simplesmente à passagem das pessoas por diferentes estágios da vida, da irreverência e indiferença ao amadurecimento e à velhice.

Por outro lado, é também um filme sobre a frieza e a rigidez do sistema social e de tudo aquilo que nos regula e nos limita numa comunidade. Os pais criam, educam e formam os filhos, que por sua vez acabam décadas mais tarde por ter de cuidar reciprocamente dos seus progenitores, ou, no contexto do próprio filme, abandoná-los ficticiamente e, porque não, negligenciá-los cruel e amargamente em detrimento do trabalho e do seu núcleo familiar. É o curso natural, ao que parece, da vida, das limitações do espaço, da emancipação, do próprio Homem e da força da contemporaneidade. O conflito entre tradição e modernidade é também ele aqui retratado e exposto mais que não seja pelo impulso e pela firmeza que o novo detém sobre o velho, que a actualidade detém sobre a antiguidade (factos e valores, aliás, que são transversais do Oriente para o Ocidente e que sobrevivem até hoje, o que demonstra a intemporalidade e a universalidade do filme). Condenável, ainda assim, e de reflectir perante o que assistimos, principalmente, no que à solidão dos que já educaram e ao uso do quotidiano dos que educam, diz respeito.


E é aqui que entra, provavelmente, o código ou o pensamento mais predominante e mais fracturante de toda a película - o tempo. O seu uso e a sua exploração são, amiúde, espelhados em Ozu. No caso particular de Tokyo Story, é dado especial ênfase ao tempo enquanto passagem, enquanto meio e enquanto rosto. De um lado, o tempo é diferente para cada personagem, o seu ritmo, as suas prioridades, a sua experiência e a sua mastigação dos constantes problemas, por outro, o tempo é sinónimo de fatalidade, de exigência e de existência, para tudo e para todos. É, no fundo e em última instância, sobre a morte e sobre o fim de que falamos, e do que daí acarreta ou conduz em termos pessoais e culturais. O que nos diz Ozu é que dado a impossibilidade de estagnar ou paralisar o tempo, leia-se certos e determinados momentos, há que tentar, pois, consertar e acordar uma relação mais honesta para com o mesmo, reconhecer a sua autonomia e a sua força, e receber com satisfação os seus abrandamentos e acelerações, de forma a suavizarmos a sua dureza. Tem de existir como que uma entrega à (im)previsibilidade da vida e ao destino traçado para e por nós, inevitável e inconscientemente.

Essa cedência e essa rendição ao tempo, porém, não se desenvolve e se efectua apenas no argumento da história aqui analisada, e logo unicamente através da palavra e do diálogo. Também se perpetua, como é evidente e indissociável no cinema de Ozu, no campo da imagem e da realização, em cada plano e em cada cena da subtil filmagem que desfila defronte dos nossos olhos e demais sentidos. Como uma ave que voa sem parar e que nunca regressa pelo mesmo caminho, a cadência dos enquadramentos revelam uma viagem silenciosa, sincera, calma e sempre com o seu ar de frescura (ou de fresco, numa fotografia primorosa), ora pelos interiores, distantes, próximos e seguros simultaneamente, ora pelos exteriores, contemplativos e ressonantemente eternos. Na verdade, são, aqui e ali, planos vazios, como é costume dizer-se da formalidade do realizador, na medida em que encerram significados incompletos (o da morte não será porventura o maior?), que não se esgotam, antes se projectam em pequenos travellings além fronteiras, em direcção ao nada e ao tudo que é alcançável por cada um de nós, e que aqui se reduz ao olhar omnipresente, que observa mas não influencia. A escala é, deste modo, também ela personagem, sobretudo, na posição inferior e humana que a câmera assume disciplinarmente, num cinema mais horizontal e atemporal que propriamente perpendicular ou efémero (e ainda que o seja por vezes narrativa e simbolicamente).


Num dos últimos planos do filme, um comboio passa de um lado ao outro, move-se com a certeza de que dentro de alguns momentos já não estará mais no nosso campo visual, e isso, mais que tudo, revela ou oferece a noção que impera em toda a história - a passagem do tempo e a (aparente) incapacidade de revertê-lo e de aproveitá-lo consoante as nossas hesitações e os nossos erros. Para os que vão, existirá certamente sempre algo que gostariam ainda de ter feito ou dito, e para os que ficam, resta a amargura de uma palavra ou de um gesto que nunca mais transmitirão, ou, noutra perspectiva, a memória de alguém que lhe marcou a identidade e a personalidade como nenhum outro ser. Uma obra-prima, que tem tanto de concreto e de mundano como de transcendental.

Crítica nomeada em 'Melhor Crítica de Cinema' nos TCN Blog Awards 2013


Jorge Teixeira
classificação: 10/10

30.4.13

Hero (Ying Xiong) (2002)

Herói, Yimou Zhang


Num filme em que o estilo e a forma dizem muito, é a poesia que mais se destaca. É na mesma que se limam as arestas e se articulam os contornos formais de todo o processo criativo que é este Hero. A começar pelo encaixe visual do diálogo com o guarda-roupa, passando pela junção entre música e cor, para acabar na simbiose entre a acção e o som ambiente. Uma obra exemplar nesta sua capacidade de harmonizar diversos departamentos.

Com clara influência em Rashômon (e Yojimbo, se atendermos à personagem de Jet Li) de Akira KurosawaYimou Zhang preocupou-se neste filme, sobretudo, em nos contar uma história, uma visão sobre diversos pontos de vista, que se vai construindo a ela própria, ou se vai aperfeiçoando detalhadamente à medida que avança e recua na transcrição dos acontecimentos. Cada personagem, nesta conjugação de pequenas histórias, assume uma importância tal que o seu protagonismo é extrapolado para fora do ecrã em inesgotáveis interpretações e inestimáveis transfigurações, ao ponto de nos gravar sentimentos ou pessoas e não situações. Honra, lealdade, amor, traição e sacrifício são alguns dos valores e motivações pessoais abordados e explorados na trama ou no novelo que, teimosamente, se afigura diante de nós, uma e outra vez.

A narrativa é, então, interpretada em diversas ocasiões e em constantes retrocessos ao passado, na intersecção de vários capítulos endereçados a cada um dos personagens principais, aqueles que fazem parte do núcleo e, no fim de contas, do propósito do enredo. A cada nova investida pela memória e por cenas já visitadas, novo ponto de vista, que é como quem diz, nova oportunidade de explorar as cores, os contrastes, as texturas, os movimentos e as emoções presentes ao longo das cenas e da própria mise-en-scène, talhada como nunca. Tremenda esta capacidade de reciclar ambientes e atmosferas com o mesmo vigor e sempre de forma refrescante e recompensatória.

Temos ainda, para além deste formalismo na fotografia, cenografia e guarda-roupa, confrontos de rara beleza, ou por outras palavras, acção e bailados exuberantemente coreografados segundo o cenário e o contexto presentes, e segundo o som da natureza e a alma dos intervenientes. A música, por outro lado, também interfere e se enquadra no conjunto, pelo que estes êxtases, por assim dizer e por aquilo que representam, acabam por culminar poeticamente um brilhante trabalho de realização e de argumento, sendo eles próprios um verdadeiro triunfo na arte de oferecer visual e narrativamente Cinema.

Pode-se dizer que o filme tem um potencial e uma capacidade em nos surpreender enormes, talvez exageradas mesmo, na medida em que assistimos, por vezes, ao absurdo e ao inverosímil. Mas não será esse exagero legítimo, e, sobretudo, único e característico o suficiente para nos abstermos de uma suposta credibilidade (des)necessária? Para mais vindo de um autor que incute tamanha audácia e risco, tanto na harmonia como na fruição entre uma visão (ou visões) e uma estética (ou estéticas) indistinguíveis. E isto porque, de facto, existe uma constante variedade na filmagem e na posição que a câmera assume em determinados momentos, ora de modo subjectivo e terreno, ora de forma totalmente objectiva e aérea, quase que induzindo os movimentos e os pensamentos envolvidos. Há, digamos, como que uma corrente artística que recebe e une diversas estéticas ou formas de apelar às emoções, que catapulta o resultado final para outra dimensão, literalmente.

Confluindo elementos como a água, o vento, o sol e as árvores, Herói se assume como uma combinação de ambiências e de sensações, partilhando com isso diversos campos ou panoramas, desde a montanha ao lago, ou da floresta ao deserto. Uma autêntica sincronia e espectáculo visuais, que vive essencialmente da imagem e da profundidade dos seus personagens. Numa palavra, magnífico.

Texto originalmente publicado na iniciativa 'O Cinema dos Anos 2000' do blogue Keyser Soze's Place


Jorge Teixeira
classificação: 10/10

3.4.13

Some Like It Hot (1959)

Quanto Mais Quente Melhor, Billy Wilder


Provavelmente das comédias que mais influenciou toda a história do cinema, e que mais sofreu como referência de todo um tipo de situações e posições numa sociedade e num regime cinematográfico presente. Curiosamente, é também, e inversamente, um filme que desconstrói estereótipos ou figuras assumidas como impenetráveis na sua natureza e no seu carácter. Na prática, o homem que se transfigura e se converte em mulher, e nas adversidades e comicidades que daí advirão. É, por último e ainda, uma obra que prima pela frescura que incute ao género - a comédia - e aos temas que envolve - a Lei Seca na América, os Anos 20 e o quebrar de preconceitos e tradições que existiam (de que alguns ainda hoje subsistem, daí a sua actual pertinência e sobrevivência).

Se, por um lado, começamos num registo mais sério, sóbrio e calculista nas cenas inaugurais, por outro depressa nos envolvemos e nos apercebemos da amálgama de soluções e surpreendentes derivações que o argumento nos oferecerá, não se ficando linearmente restringido a um tema ou a uma direcção, mas sim a todo um género que de abrangente e libertador tem muito. Falamos de comédia e de ironia, pois então, que assim timidamente surgem, e a longo prazo se desenvolvem e se afirmam como a tónica mais presente e a atmosfera mais apropriada para a narrativa e para os personagens que se manifestam à nossa frente. Jack Lemmon, Tony Curtis e Marilyn Monroe, em absolutas e intemporais interpretações (sobretudo o primeiro), constituem o trio da história e das múltiplas peripécias, ou, no fundo, da confusão e descontracção simultâneas que nos são imprimidas desde o início. De facto, se temas como o travestismo ou a emancipação feminina são abordados, são-no com uma certa liberdade e despreocupação aparente, revelando não só uma aposta ganha ao nível do entretenimento, mas também um veículo subtil e metafórico do constante caos em que vivemos ou de determinadas mensagens importantes e fracturantes no seio social corrente.

Com uma fotografia assinalável, uma banda-sonora sonante e o já falado argumento perspicaz, equilibrado e transversalmente contemporâneo, resta a realização como factor a destacar. Nesse sentido, Billy Wilder foi um mestre, na forma como recrutava actores, escrevia os seus próprios argumentos e arquitectava toda a mecânica de filmar e concretizar o idealizado no papel. Enquadramentos seguros,  planos com profundidade de campo e câmera ausente e presente nos momentos certos fazem deste filme não só um belíssimo exercício narrativo, especialmente nos diálogos e nas piadas eficazes, mas também uma clara composição da palavra com a imagem, em que a suposição é indissociável da realidade, ou, se quisermos, a transfiguração que o cinema em si acarreta e, em última análise, executa é ela própria transfigurada por meio de uma história e de personagens que, por exemplo, se disfarçam do sexo oposto. No fim de contas, há como que uma dupla camuflagem, que é nos servida e de que o filme se apropria, e à qual nos devemos debruçar, reflectir e apreciar consoante a sociedade e os costumes vigentes.

O filme, para além de todo o seu potencial interpretativo, ainda propicia, portanto, largos sorrisos e gargalhadas de um modo geral, sendo cativante mesmo para o espectador menos paciente como o da actualidade, o que torna mais que evidente que estamos perante algo de enorme valor e inteligência, que detém tão somente a marca de intemporalidade.


Jorge Teixeira
classificação: 10/10

26.12.12

Ordet (1955)

A Palavra, Carl Theodor Dreyer


Existem momentos em que questionamos as nossas crenças e os nossos valores, cravados profundamente nos degraus da nossa vivência, esses, que com o passar do tempo, se estabelecem e se re-constroem a partir desse estado de viragem e de ruptura, revelando, então, não só a sua importância, mas também o seu carácter fracturante e, não raras vezes, decisivo na nossa vida. Ordet se não é seguramente um desses casos logo à partida, virá a sê-lo mais tarde, sem qualquer dúvida - um filme que nos transporta para o divino, para o impossível, no fundo, para outra dimensão, tão próxima e tão distante de nós simultaneamente.

A Palavra, no seu significado traduzido, remete-nos narrativamente, e na sua essência, para o diálogo, para a cena e contra-cena, numa espécie de longa dança sincronizada e mimetizada (Dreyer influenciava e limitava cada gesto dos actores exaustivamente) numa mise-en-scène atmosférica e teatralizada, como se estivéssemos a assistir a algo já profetizado e descrito pormenorizadamente. Cada acção, tendo o filme apenas uma mão cheia delas, tem um peso enorme para a desenvoltura do enredo e para as próprias palavras que se seguem. Tanto mais que a interacção e o preenchimento dos espaços pelos protagonistas é feita pautada e ritmicamente (e a seu tempo), conforme o momento assim o determine, ou o autor assim o deseje (mais uma vez, o dinamarquês era exímio e um tanto ou quanto paranóico nos detalhes e na força que pretendia em cada acto).


Influência extrema do cinema mudo e do expressionismo alemão, em que cada gesto ou palavra pesavam toneladas, esta obra (porque de obra se trata mesmo) sempre se registou fora de correntes, sendo que sobrevive até estes dias envolta numa aura muito particular, actual e estranhamente intemporal. Trata-se, para além de todo o seu formalismo, de um manancial de explanações, sugestões e metáforas, tantas quanto quisermos explorar (ou acreditar). Ás tantas tudo se resume às mais velhas questões - o que existirá para além da vida? ou entre a vida e a morte? será a fé uma resposta? ou um caminho de aceitação? existirá, por mais recôndita que seja, a possibilidade de milagres? Tamanhas são as interrogações, e no fim, estamos a falar de assuntos transversais da nossa cultura, que têm percorrido gerações e gerações, sempre no balanço entre a dúvida e a confirmação do propósito da fé humana.

Os cenários espelhando o conteúdo, dentro e fora de portas, são autênticos quadros carregados de simbolismo e também por isso quase deduzidos com o trabalho à priori alcançado, como se a cena seguinte dependesse da cena anterior, numa cadência ainda assim imprevisível e angustiante (veja-se o caso simbólico de Johannes que se julga Jesus Cristo, facto que por si só aumenta a componente sombria, premonitória e fantasmagórica de que o filme é possuidor).


Toda a construção dos planos, no seu mais puro e belo enquadramento, é estupenda, digna do tema basilar, da transcendentalidade presente em cada acção, em cada significado ou em cada repercussão sensitiva. A mística e a beleza da fotografia a preto e branco, fria e cinzenta, nos já citados quadros (e sobretudo em exteriores - o campo e o céu principalmente), concretiza as ideias, mais especificamente através dos contrastes e da luz, moldando e caracterizando todos os movimentos e todas as nuances argumentativas que vislumbramos. Daí que as formas, nesse jogo de "luzes", surjam minimizadas, revelando-se apenas quando necessárias, e projectando o espaço eficazmente. Aliás Dreyer era um perfeccionista, capaz de sujeitar tudo e todos à sua vontade autoral. Esse facto é notório na união que existe entre pessoas e ambientes ou entre o que se diz e o que se faz, digamos, nunca se dando propriamente um confronto, antes uma sincronia e um constante respeito mútuo entre as várias partes. A contemplação cede ao diálogo, assim como este cede à sonoridade quando pertinente. Esta que é, por sua vez, muito pouco utilizada, e nunca, por isso, manuseada para influenciar, mas sim para enaltecer um ou outro momento-chave.

Se de quadro em quadro o cineasta se revela primoroso, o que dizer das transições e da solenidade da presença da câmera e das suas subtis rotações e aproximações?! Por vezes, mesclando o enquadramento com o movimento, nos seus famosos e magníficos planos-sequência. Evidenciando mais o invisível do que o visível, a condução da câmera se dá pelo seu próprio pé, ora acompanhando o que desejamos, ora reflectindo o que ansiamos (na sua maioria pelas expressões faciais dos personagens). No geral, estamos na presença de uma estética inconfundível, lenta e demorada é certo, mas estruturalmente inquebrável e muito bem assente e ciente dos seus alicerces.

Forte influência para o realizador sueco Ingmar Bergman, por exemplo. Dreyer, no entanto e numa época anterior, foi pouco influenciado ao longo da sua carreira (abstinha-se inclusive de assistir a filmes durante anos e anos), o que só aumenta o mérito e a originalidade do património que nos deixou. Carregado, em toda a sua plenitude, de um humanismo do mais puro e verdadeiro que possa haver. Sem grandes adornos, restringia-se habitualmente à simplicidade e à virtuosidade que daí advém.


Ordet, na sua idealização, concretização e interpretação exprime muito, talvez em demasia perante o que os planos, e em particular a cena final, nos indiciam. O filme poder-se-ia condensar em todo um acto, no fazer-nos acreditar que determinada ilusão (mesmo no Cinema em que tudo é possível, mas não facilmente interiorizável) torna-se verosímil, em última instância através da suspensão da vida, só alcançada por meio da imagem e da palavra.

As referências são, pois, inúmeras, do próprio cinema em si até à religião, liberdade, lealdade e laços familiares. Toldadas como um espírito à deriva, é quando menos se espera que se manifestam, rompendo pré-disposições ou (pre)conceitos estabelecidos de ante-mão, à medida que o desenvolvimento e suposta previsão do argumento avança, qual Ser, sem rumo e sem destino. Sem sabermos bem como, perante esta misteriosidade e contemplação exageradamente simples e calma, vamo-nos embrenhando na história e nos personagens (sobretudos estes), e sem admiração, no culminar de algo que se avizinha, ao mesmo tempo, estranho e inevitável. Das melhores obras que a sétima arte já nos ofereceu.


Jorge Teixeira
classificação: 10/10

28.10.12

C'era una volta il West (1968)

Aconteceu no Oeste, Sergio Leone


Era uma vez no Oeste, ou Era uma vez O Oeste, título e tradução do inglês - Once Upon a Time in the West, por sua vez traduzido do original C'era una volta il West - mais correcta e, sobretudo, mais fiel à essência do filme e ao conceito inicial criado. Para o português chega-nos a tradução Aconteceu no Oeste, que provém e insiste no erro do homónimo título inglês, e que pouco nos diz sobre a película de Sergio Leone.

Aconteceu no oeste, como poderia ter acontecido a nascente, passe a ironia, remetendo-nos, à partida, para mais uma história no velho Oeste Americano, que na certa se destacará por um vilão mais carismático ou por um par central mais romântico que nunca. E é assim que idealizamos o filme, se nos restringirmos apenas ao título do mesmo e não olharmos para o verdadeiro (e único) título - o original, o italiano, o tal que nos anuncia a queda de algo, o declínio de anos vividos ou o derradeiro fim de um estado e de um sistema de costumes.


Ainda mal nos aconchegamos no nosso lugar para a sessão, já estamos desaconchegados, digamos, perante o silêncio e a tensão estrategicamente desenvolvida à nossa frente. Tudo se desenha com tamanho detalhe e minúcia que os próprios minutos parecem não avançar. Estamos, pois, num cenário à parte, acabamos de aterrar num local distante - uma estação - incaracterística e, à falta de melhor, ficamos também à espera que o comboio chegue, seja lá o que isso for, ou o que isso nos traga, melhor dizendo. Acção, pistolas e tiroteio, inevitavelmente, mas estranhamente, na medida em que nada sabemos sobre os protagonistas da cena em questão, apenas que um suposto ajuste de contas está inerente. Culminamos, desta forma, no expoente de uma cena que terá todos os motivos para lhe tecer rasgados elogios, desde os ângulos e enquadramentos arquitectados ao pormenor, até à montagem sequencial e harmónica que potencia as personagens e o poder da antecipação, como ainda por um trabalho notável de sonoplastia. De génio, e é dizer pouco.

Introduzida que está uma das personagens principais (a que sai ilesa do confronto), seguimos para outra, e do suposto herói passamos para o vilão, tal como da estação passamos para o campo. Agora, por terras "ainda" longe do tão próspero caminho-de-ferro, seguimos outras pessoas, aqui não um bando ou uma gangue, antes uma família, e portanto, o retrato de hábitos diários, que ao que parece não tão diários quanto isso - é evidente que se está a preparar alguma ocasião especial. As poucas palavras indiciam isso mesmo e o silêncio mais uma vez adensa-se, voltando a fazer das suas. Estamos, então e novamente, com a tensão lá em cima e preconizamos algo, desta vez mais forte, quiçá mais preponderante para a história. E, nada acontece. Mau sinal. Sinal de que não acabou e que virá mais, e aí sim para devastar, para introduzir o propósito e o cerne de toda a trama. É senão, o mau da fita e os seus desígnios. Está encontrado, pois, o vilão, o adversário, e os opostos estão preparados para se começar a atrair.

Tudo o que virá a seguir se desenhará sob os mesmos contornos e sob a mesma mecânica episódica de filmar. E é dessa mecânica, dessa matéria-prima que o filme se faz, marcado que está agora o ritmo. A comprovar essa tendência estão as duas cenas seguintes que apresentam mais dois protagonistas: a personagem feminina, que confere a elegância e o balanço emocional precisos e cirúrgicos, e a personagem carismática, por assim dizer, aquela que acrescenta a descontração que o filme equitativamente possui, tantas vezes necessária para assentar e retemperar forças. As referidas cenas são muito bem filmadas, para não variar, e à semelhança das anteriores dão primazia às expressões, aos olhares, ao tempo como personagem (mas sem pressas), respirando quase sempre nas entre-linhas. O folgo ou a descompressão acontece porque há silêncios, mas também e principalmente porque a música se intromete, de uma forma brutal e emocionalmente fracturante.


Posto isto, as personagens principais estão apresentadas e perfeitamente definidas (em desempenhos exemplares a propósito), mas ainda por explorar. Ao longo do filme, a circulação das mesmas se dá consoante o próprio argumento as convoca, equilibrada e proporcionalmente, assim como a banda sonora surge aliada aos protagonistas e ao contexto presente (não será a faixa correspondente a Jill das mais belas de sempre?). Existe, pois, como que uma sequência de capítulos construindo a história, uma sequência de sub-narrativas paralelas (e perpendiculares) que, eventualmente, se cruzarão e culminarão de vez no desenlace final, sempre numa cadência certa e doseada quanto baste.

Para além disso, pode-se dizer que tudo o resto está, de igual modo, ao mais alto nível, desde a fotografia, perfeita no retrato interior de uma América desértica, até a uma cenografia de um primor extasiante, bem como ainda por uma banda-sonora do melhor que Ennio Morricone nos deixou - a beleza e a versatilidade das músicas estão, como já foi dito, na correspondência que existe entre protagonistas e determinadas faixas, ao ponto de marcar e imortalizar cada plano e cada cena. A realização é, nesse sentido, também ela genial, sempre atenta à mensagem por de trás tanto quanto sensível às linguagens, ora no detalhe, ora na fruição e contemplação de panorâmicas. Dentre inúmeros planos fabulosos e potencialmente com muito para analisar, destaque especial para uma das cenas finais, em analepse, em que tudo se mexe, tudo faz parte da orquestra e contribui para a realização atempada, crescente e apoteótica de uma revelação e posterior duelo final a todos os níveis extraordinários e deveras prodigiosos.

No trabalho de montagem e no departamento de som o assombro continua, já referido particularmente na cena inaugural, pelo que mais uma vez encontramo-nos perante um verdadeiro exemplo de perfeito encaixe entre tudo o que constitui um filme, no caso enquadrado e mantido em quase três horas de duração, mas preparado para mais se tal fosse pertinente, tal o encadeamento e lógica perceptíveis.


Sergio Leone brinda-nos talvez com a sua melhor obra, pelo menos no que a valores estéticos e artísticos dizem respeito. Se é notória aqui uma forte influência dos westerns clássicos americanos, de que John FordHoward Hawks, Anthony Mann, entre outros, fazem parte, também associamos o próprio sub-género spaghetti (ao qual este filme pertence) como o factor preponderante e a principal influência para ingerir a audácia e uma nova identidade que, não raras vezes, vinha a faltar aos clássicos do género maior.

Por outro lado, a evolução desde A Fistful of Dollars (do mesmo Leone) é evidente, dando a sensação que o cineasta se foi completando e ambicionando a cada novo projecto um voo maior. Um pouco como Tarantino fez (e vem fazendo) anos mais tarde, realizador que sofreu imensa influência destes westerns à italiana, e sobretudo, do mestre citado.


C'era una volta il West contém, deste modo, tanto por onde depurar e apreciar que é absolutamente delicioso e refrescante, sendo que tem sobrevivido (e se elevado) com o passar do tempo, nunca se esgotando às primeiras visualizações. Há sempre mais qualquer coisa por ver, por descobrir e por degustar outra vez. A mensagem subliminar também é ela mais que pertinente e marcante na época que se insere a narrativa - o início do fim do Oeste, tal como o conhecemos de então, destruído pelo progresso, pelo dinheiro e pelo poder invisível.

Diria que esta obra, acima de tudo, condensa e homenageia o western em si, ou o estilo nas suas várias correntes, como nunca antes se tinha feito. Artisticamente falando, o filme extravasa qualquer género e sub-género (ainda que se inserindo neles), tal como ultrapassa referências e estereótipos vincados em várias décadas, destacando-se mesmo como um dos melhores filmes jamais realizados. Obra-prima.

"Do you know anything about a guy going around playing the harmonica? He's someone you'd remember. Instead of talking, he plays. And when he better play, he talks."
Cheyenne


Jorge Teixeira
classificação: 10/10

23.9.12

Inglourious Basterds (2009)

Sacanas Sem Lei, Quentin Tarantino


Este capítulo da carreira de Tarantino revela-se como o seu mais requintado projecto. Isto porque se trata de uma confluência abismal (e surreal) de géneros, reinterpretados e reinventados com surpreendente equilíbrio e mestria. Não é ao acaso, por isso, que se privilegiam sobretudo, e como tem de ser, o argumento e a realização, não descurando ainda assim aspectos técnicos, igualmente muito bons.

Ora, por um lado, é nos diálogos, no texto e nas palavras que o cineasta se debruça, se baseia para construir a sua história (a sua visão) e as suas personagens. De facto, este filme é ele próprio um romance, seja pela sua divisão em capítulos, seja na sua dependência (e valência) pelos diálogos, tão preponderantes numa leitura. Por outro lado, é também e em simultâneo, nas imagens que o realizador sustém o filme. É no poder dos planos que a construção, a tensão e os vários níveis do argumento se apoiam. Se num prisma, aquilo que se diz é sintomático dos acontecimentos, do desenvolvimento narrativo, noutro, aquilo que se mostra e como se mostra, denuncia as sensações e as emoções contidas. Tarantino, apesar disso, ainda consegue, com igual eficácia, baralhar e distribuir isto tudo. Tanto está a desenvolver a acção por meio de falas e de respirações, como a seguir conclui o episódio recorrendo a toda uma linguagem imagética, perceptível nos contrastes, nas saturações, nos cortes, nos ângulos e nas profundidades de campo.

Daí que também seja muito uma questão de montagem, de jogo, de arte, de saber quando e como fundir (ou alternar) essa dualidade. Digo alternar, porque por vezes as pausas e a cadência num diálogo ofuscam a visão, ou melhor, retiram protagonismo aos planos e àquilo que estamos a ver. Ouve-se e interpreta-se mais, ao ponto de quase nos cegar, digamos. Todo o diálogo inicial (excelente Christoph Waltz) é exemplo disso mesmo, onde estamos, sobretudo, atentos às falas e aos detalhes.

É, acima de tudo, este poder de nos concentrar, seja pela excelência do argumento, seja pela genialidade da câmera, que Quentin Tarantino se revela portentoso. Aqui talvez mais do que nunca, na medida em que transpira cinema e referências por todos os poros. A influência de Sergio Leone é, pois, clara (sempre e mais uma vez), tal como do género associado - o Western Spaghetti. Aliás o filme, no seu começo, confunde-se com a abertura de muitos filmes do Oeste no seu período áureo. A casa isolada, as paisagens distantes, o silêncio, os olhares, as expressões, etc. Já em Reservoir Dogs isso era notório, com a respectiva cena inicial à volta da mesa. Assim como em Kill Bill, 1 e 2, se denota essa marcante influência, inclusive na banda-sonora. Daí a impressão que Tarantino se vem aprimorando, vem limando as arestas da sua irreverência e ousadia (não necessariamente que os seus trabalhos anteriores sejam inferiores). Espelhada e acabada aqui, neste sublime argumento, que trai a história e a própria realidade, por assim dizer.


De referir ainda a banda-sonora, que está igualmente ao nível dos acontecimentos. E se, muitas vezes, serve apenas como adorno ou complemento, aqui ela assume linguagens próprias, catapultando o resultado final para um patamar ainda mais elevado. É por tudo isto e muito mais, que Inglourious Basterds é um dos melhores filmes do seu ano, e um dos melhores da década, sem sombra de dúvidas. Grandioso.


Jorge Teixeira
classificação: 10/10

11.8.12

Psycho (1960)

Psico, Alfred Hitchcock


Imagino, porque só posso imaginar, o fascínio que o filme deve ter provocado às pessoas que o visionaram a quando da sua estreia. Um verdadeiro privilégio, não só por ser um clássico e um marco nos dias de hoje, mas também no que toca à sensação única de abarcar todo o suspense pela primeira vez. Suspense e tensão, porque realmente, são a matéria-prima aqui. Mais do que nunca, é desarmante, esse sentimento de impotência e total descontrole do que acontece, do que se sente, ao ponto de não se saber, por meio de nenhum artifício (banda-sonora, continuidades, lógicas, etc.), para onde a história se vai desenvolver a seguir. Não que isso aconteça sempre (a narração existe e o desenvolvimento das personagens também), o facto é que nada é ao acaso, nada é fortuito e por isso previsível e aborrecido.

Rodam as personagens (e rodamos nós com o rumo dos acontecimentos), e a imprevisibilidade está lá outra vez, incisiva, poderosa e fracturante. Trata-se de um filme de terror, e ao contrário do que possa parecer, o preto e branco reforça-lhe esse estatuto. A ausência de cor e ao mesmo tempo a sugestão frequente dela mesma (a icónica cena do "duche" é um exemplo, com todo o sangue a ser mais sugerido e interiorizado do que propriamente mostrado), confere a todo o ambiente e ao enredo o ritmo pulsante próprio do género. Reflectido, por sua vez, em última (e primeira) análise na destreza da montagem, na excelente banda-sonora, e na força das várias interpretações, todas elas destacáveis.


Por um instante esquecemo-nos ou distraímo-nos (imersos que estamos), e lá está outra vez a mestria a funcionar, aquele movimento de câmera (a nossa visão, a visão de Hitchcock) estonteante, criativo, e eficaz acima de tudo. Alguns enquadramentos são igualmente dignos de profunda admiração. Destaco um, aquele que, porventura, será o mais famoso e simbólico até hoje - o plano final com o "revelado" ou "enigmático" Norman Bates. Fabuloso, a rematar toda uma experiência, no mínimo, recompensadora. Enfim, dizer mais será sempre pouco, um filme para ver e rever.


Jorge Teixeira
classificação: 10/10