27.11.13

À Boleia (12)

Um convidado responde a questões nucleares ou essenciais sobre o cinema.
Entrevistado: Rafael Santos, autor do blogue Memento mori.
Obrigado, Rafael, pela colaboração.

Caminho Largo: Como evidencias em geral a qualidade de um filme?

Rafael Santos: No geral, o argumento é o selo de apresentação do filme. É o aspecto que me leva ou não a aconselhar determinado visionamento. No decorrer da minha primeira viagem a uma obra, tento absorver a total essência do argumento. Os visionamentos seguintes complementam o meu olhar perante esse mesmo filme. Posso agora deliciar-me com as questões técnicas e as opções estéticas tomadas. Posso procurar as características que espelham o autor por detrás, tentando inserir essa obra nos parâmetros da sua filmografia.
Posso desfiar as várias camadas de significado. E aí reside a verdadeira qualidade. No facto do filme poder não ser finito tal qual o pacote de pipocas que teima em integrar a experiência cinematográfica. Se um filme é transcendente ao ponto de me fazer viajar na minha própria mente, poderei atribuir-lhe qualidade? A subjectividade actua.
A Clockwork Orange. 2001: A Space Odyssey. Persona. 2046. Synecdoche, New York. Kynodontas. Dogville. Solyaris. Zerkalo. Requiem for a dream. Inúmeros outros que poderiam aqui constar. Filmes que não terminam aquando dos créditos finais. Ao invés, reproduzem-se vezes e vezes sem conta com o auxílio da memória. Apesar de partirem de um ponto de vista pessoal, engolem-me e fazem-me perante questões essenciais da humanidade. Sob o meu olhar, tornam-se assim transcendentes. 
O argumento não é tudo. A trilogia "Before Sunrise/Sunset/Midnight" não seria titular da qualidade que apresenta se a química entre os protagonistas fosse inexistente. O argumento de determinado filme pode ser a ferramenta essencial mas perder-se-ia se não estabelecesse um diálogo com a montagem. A sua essência pode esfumar-se se o elenco não for competente e convincente na sua abordagem. 

CL: Artisticamente falando, agarras-te mais aos argumentos e aos seus simbolismos ou a toda a estética e modo de filmar?

RS: Aquando da leitura desta pergunta é-me inevitável não trazer à memória o recente caso que se dá pelo nome de "Gravity". Ainda que não seja tão superficial quanto aparenta à partida, não é pelo argumento que será lembrado posteriormente. A estrondosa experiência advém da realização de Cuarón. Os planos-sequência absolutamente brilhantes que nos remetem para um tempo e espaço real. Os movimentos de câmara que cobrem a acção necessária e que enlouquecem os sentidos do espectador. A mestria da direcção de fotografia que nos faz esquecer o facto da filmagem ter lugar num estúdio. Este é apenas um pequeno grande exemplo do prevalecer da estética em detrimento do argumento. Num cenário ideal, um filme cativa-me por saber conjugar as duas proposições presentes na pergunta. Tendo enaltecido anteriormente um filme decorrido no espaço, imediatamente a minha memória traz à tona "Solyaris" e "2001: A Space Odyssey". Estes dois filmes conseguem fazer essa conjugação de forma perfeita. 
A estética e o modo de filmar são alguns dos principais factores que me fazem idolatrar o cinema de autor. Por outro lado, o argumento e os seus respectivos simbolismos fazem-me querer rever determinado filme inúmeras vezes. Tal como referi na questão anterior, a cada nova visualização é revelada uma nova camada de significado. 
Todos estes elementos acabam por não ser independentes. Um argumento pode recorrer à estética para transmitir certos simbolismos. E obviamente, as opções tomadas pela "câmara" seguem a linha de argumento.

CL: Identificas-te mais com o academismo ou com o experimentalismo? Em que sentido as duas vertentes apoiam e completam o cinema?

RS: Com o experimentalismo. Mas atribuo igual valor a ambas as vertentes. O experimental é a via livre de pensamento, organizada na sua desorganização. Surgem novas ideias, novos movimentos artísticos, novas linhas de pensamento. Mas o que seria desse veículo alternativo sem o academismo como catapulta? Afinal de contas, para quebrar os moldes temos de conhecer os seus contornos. É preciso conhecer o filme para elaborar o anti-filme.

CL: Actualmente a sociedade e a cultura é muito dependente da sétima arte? E vice-versa?

RS: O cinema bebe as questões da humanidade. Recorre a acontecimentos mundiais para os difundir no grande ecrã. 
Uma ida ao cinema torna-se um ritual, um traço cultural. A sociedade necessita de uma fuga. Uma fuga à realidade. Encontra-a na sétima arte. Gradualmente, o ser humano começa a exibir dificuldades em distinguir a realidade da ficção.
"Parecia mesmo um filme": frase-padrão que tantas vezes preenche a voz do ser humano, quando este se encontra perante um acontecimento improvável. O mundo diegético apresentado no ecrã torna-se o modelo de primeira ordem. Onde reside o real? 

CL: Comenta a seguinte citação do realizador Lars Von Trier: "Um filme deve ser como uma pedra no sapato."

RS: A citação destacada espelha na perfeição a essência do seu próprio cinema. A sua filmografia não ousa carecer do choque, essa que parece ser a sua palavra de partida. Lars von Trier pretende incomodar o espectador, fazê-lo reflectir sobre o monstro que há em si. Quer que os seus filmes se tornem uma experiência indigesta para o corpo e mente. Tornam-se assim elementos integrantes da vivência do indivíduo.

20.11.13

À Boleia (11)

Um convidado responde a questões nucleares ou essenciais sobre o cinema.
Entrevistado: Roberto Simões, autor do blogue CINEROAD.
Obrigado, Roberto, pela colaboração.

Caminho Largo: Quais são para ti os principais factores para a qualidade de um filme?

Roberto Simões: Irei direto ao assunto. Para mim, o principal fator para a qualidade de um filme é o casamento entre o argumento, o movimento da câmera (da realização) e a fotografia e a beleza maior que daí pode provir, capaz de me emocionar ou de alguma forma transcender enquanto espetador. Logo depois, é importante que o mesmo efeito seja causado por qualquer outro aspeto do filme, a interpretação dos atores, a banda sonora ou o silêncio, essencialmente. Dificilmente aspetos mais técnicos me influenciarão, por si só, a qualificar um filme ao nível da excelência sem que esta base esteja assegurada.

CL: Preferes bons argumentos com fracas realizações ou boas realizações com fracos argumentos? Ou depende e ambas as situações são equiparáveis?

RS: O ponto de partida para qualquer grande filme é o argumento (não propriamente o guião). Por isso penso que o argumento prevalece sobre a realização. A técnica do cineasta pode ser tremenda, mas se não tem uma boa ideia a desenvolver e a contar com a sua arte, para que serve o seu filme senão para uma experiência? Só se estivermos a falar de cinema experimental; nesse caso já não podemos ver a questão com os mesmos olhos. 
Contudo, ainda não respondi à pergunta (naturalmente prefiro sempre os filmes em que ambos, argumento e realização se elevem; o tal casamento a que me referia na questão anterior). Para respondê-la tentei ser objetivo e analisar as minhas listas de filmes, classificados por pontuações, e referir-me a casos concretos. Não encontrei propriamente casos de bons argumentos com fracas realizações nem casos de boas realizações com fracos argumentos; encontrei, sim, casos com algum desnível entre ambos argumento e realização, os quais nunca classifiquei como excelentes ou muito bons filmes. Ao nível do bom, já identifico alguns exemplos, de argumento superior à realização. Vejamos o caso de Colisão de Paul Haggis, de Os Coristas de Christophe Barratier, de Elizabeth ou As Quatro Penas Brancas de Shekar Kapur, de O Fantasma da Ópera de Joel Shumacher ou Gattaca de Andrew Niccol. Somente ao nível do razoável e do fraco identifico alguns exemplos de realização superior ao argumento. É o caso de Avatar de James Cameron, de Eu Vos Saúdo, Maria de Jean-Luc Godard ou de Piratas das Caraíbas - Nos Confins do Mundo, de Gore Verbinski. Se me é permitida alguma conclusão após tão pragmática reflexão, concluo, portanto, que prefiro bons argumentos com realizações inferiores do que boas realizações com argumentos mais fracos.

CL: O cinema é arte e entretenimento. Separando, se é que se pode separar, em qual das duas definições te revês mais? Porquê?

RS: Arte, claramente, porque aquilo que me apaixona pelo cinema não são os documentários, as comédias ou os filmes de aventura e ação que me permitem rir, passar um bom bocado ou tão-somente escapar à minha realidade, a não ser que sejam artísticos (conhecendo nós toda a problemática no que concerne à definição do objeto artístico). Aquilo que mais me apaixona é a arte pela arte, a superação da imagem em movimento, da música e da palavra na criação de uma dimensão quase divina e transcendente, bela e de maior consciência.

CL: Onde se encaixa o cinema na cultura em geral? O seu papel actualmente é determinante ou acessório?

RS: Apesar de para mim representar a união da literatura, do teatro, da pintura e da fotografia, a fusão maior das artes (e das minhas paixões), o cinema é mais uma arte, capaz de movimentar tanto massas como meia dúzia de gatos pingados, consoante a natureza do objeto fílmico. Talvez por esse mesma fusão, no entanto, detenha um papel de especial relevo na transmissão de valores, ideais e influências.

CL: Comenta a seguinte citação do realizador Martin Scorsese: "Cinema é a importância do que está dentro do quadro e o que está fora."

RS: Necessariamente e por mais criativa ou fantasiosa que seja a pintura, a arte, o filme em si, será sempre uma representação. Qualquer representação se baseia no mundo que observamos e conhecemos, no que está fora do quadro. O que está fora confere significado ao que está dentro; aliás, a leitura,  a interpretação pode variar consoante o fora em que se está. Da mesma forma, também o dentro significa o que está fora, dando muitas vezes novos mundos ao mundo. O objeto artístico, por si só, não é mais do que matéria. Só pelo nosso olhar ganha sentido e existência.

29.10.13

À Boleia (10)

Um convidado responde a questões nucleares ou essenciais sobre o cinema.
Entrevistado: Inês Moreira Santos, autora do blogue Hoje Vi(vi) um Filme e do site Espalha Factos.
Obrigado, Inês, pela colaboração.

Caminho Largo: Onde deverá residir para ti na maioria dos casos a verdadeira qualidade de um filme?

Inês Moreira Santos: Quando um filme nos consegue tocar de forma intima, profunda, verdadeiramente singular em todos os seus aspectos – visual ou espiritualmente –, essa é certamente a sua verdadeira qualidade. É difícil apontar onde ela reside, pois de certo irá variar de filme para filme. Ainda assim, é na relação com o espectador que a verdadeira qualidade se encontra, já que sem essa espécie de partilha nenhum filme poderia resistir.

CL: Fotografia, banda-sonora, interpretações ou cenografia têm o mesmo peso que argumento, realização e montagem na avaliação de um filme? Como hierarquizas, se é que faz sentido, os vários departamentos da produção?

IMS: Mais uma vez, parece-me uma questão que não pode ser avaliada da mesma forma de filme para filme. O ideal seria que todos os elementos se fundissem numa união perfeita. Haverá contudo sempre a tendência para cada um avaliar um filme consoante a sua área de preferência ou de maior interesse – eu, por exemplo, costumo dar grande importância ao argumento, mas cada vez mais me interesso pela componente visual. Contudo, é claro que há filmes muito mais visuais – Gravidade é um bom e recente exemplo disso – em que de forma nenhuma se pode deixar a componente técnica para um plano secundário. Ainda assim, as interpretações, e mesmo o argumento não deixam de ter um peso fundamental na sua avaliação. Em conclusão, todos os departamentos da produção devem ter o mesmo peso na avaliação de um filme, ou não são eles mesmos que, juntos, formam a unidade fílmica?

CL: O cinema tem de subsistir e debruçar-se sempre na realidade e/ou verdade ou pode-se refugiar totalmente no abstracto e na fantasia?

IMS: Felizmente há espaço para tudo quando falamos de cinema. Os géneros são imensos (terror, suspense, drama, romance, thriller, comédia, ficção científica, documental, musical, e tantos outros...), ficção e documentário por vezes fundem-se, a liberdade é total e as possibilidades são imensas para quem quer fazer ou ver um filme. Entre os factos ficcionados serem mais ou menos reais, ou fugirem para um campo mais fantástico, abstracto, ou mesmo surrealista, o espaço é infindável para as opções dos realizadores, e, claro está, dos espectadores.

CL: O prazer e a apreciação de se assistir a um filme numa sala de cinema são completamente diferentes e decisivos em comparação, por exemplo, à visualização através da televisão? Porquê?

IMS: São experiências distintas, ambientes diferentes, cada um com as suas mais-valias. A sala de cinema convida a uma maior introspecção, interiorização do que é projectado na grande tela. A sala escura e silenciosa faz desfrutar em pleno – se as condições forem as melhores, claro, quer em termos de projecção como de comportamento dos espectadores em sala – dessa experiência que é assistir a um filme. Contudo, é uma experiência individual. Através da televisão é diferente, mais ligada a um ambiente familiar, ou entre amigos, por exemplo. A partilha de opiniões e emoções é exteriorizada. Eu prefiro a sala de cinema, sem dúvida. Mas há momentos certos para ambos.

CL: Comenta a seguinte citação do realizador Tim Burton: "Filmes são como uma forma cara de terapia para mim."

IMS: Uma frase curiosa, que pode adaptar-se também ao público. O cinema está caro – ou a actual conjuntura o faz parecer – e quem ainda resiste e gosta de ver filmes numa sala de cinema assumirá certamente esta frase como sua – uma terapia cara, mas que vale a pena. Quanto a Burton, ainda bem que o resultado dessa terapia é, normalmente, uma óptima terapia também para os seus fãs. E quando o trabalho é terapia, que mais se pode querer? O gasto na “consulta” tem duplo retorno: monetário e de satisfação pessoal. Tomara que fosse sempre assim.

26.9.13

À Boleia (9)

Um convidado responde a questões nucleares ou essenciais sobre o cinema.
Entrevistado: Luís Mendonça, autor do blogue CINEdrio e do site À pala de Walsh.
Obrigado, Luís, pela colaboração.

Caminho Largo: Genericamente e em abstracto o que é para ti a verdadeira essência de um filme?

Luís Mendonça: Não tendo uma resposta definitiva a essa questão - e talvez que nunca terei, até porque se calhar a verdadeira essência é não haver uma verdadeira essência -, penso que os primeiros mais perspicazes espectadores dos filmes dos Lumière souberam perceber que o extraordinário daqueles pequenos recortes de vida não estava na acção que se desenrolava em primeiro plano, mas ao fundo, em profundidade, no movimento das folhas da árvore ao vento. A essência do cinema seria, parafraseando Godard, tornar o invisível visível. E, pegando em Kracauer, diria que esse invisível "redimido" no ecrã poderia ser o tal vento que faz mexer as folhas da árvore como aquilo que não reparamos por nos ser demasiado próximo  - por exemplo, as pequenas coisas e gestos, privados ou públicos, que compõem o dia-a-dia de toda a gente... A essência do cinema reside, então, na capacidade, que comprovadamente tem, de nos dar a (re)ver o mundo que conhecemos numa distância permanentemente renovada, justa e "redimida".

CL: Há quem considere que a montagem é a única característica própria e única do cinema, e portanto, o factor determinante para a qualidade da obra final. Concordas? Em que sentido analisas a montagem num filme?

LM: Há, na tradição europeia pelo menos, uma inclinação para preferirmos a mise en scène ou o plano à montagem. Contudo, se pensarmos num cineasta como James Benning, à partida aquele que mais privilegia a duração do plano, estamos perante uma espécie de purificação da ideia de montagem, na medida em que a renúncia ao corte é, em si mesma, uma decisão de montagem. Ao mesmo tempo, podemos distinguir uma montagem horizontal (entre planos) de uma montagem vertical (entre os planos da acção, dentro do quadro). Portanto, a montagem é uma ferramenta estrutural no cinema, mas de modo algum está sujeita às ideias de elipse e de velocidade. Esta é a ideia falsa que tem sido potenciada pelas montagens hipertróficas da televisão, da publicidade, dos videoclipes e, hoje, da maior parte do cinema mainstream de Hollywood.

CL: É importante o aspecto autoral de um realizador? Mesmo que isso conduza à repetição de fórmulas e mecanismos (e filmes) que aparentemente, passe a qualidade, pouco trazem de novo à sua carreira e ao cinema?

LM: Se calhar também a repetição deveria ser parte dessa ideia de "o que é o cinema?" ou não teriam os próprios irmãos Lumière facilmente percebido, pouco tempo depois de inventarem o cinematógrafo, que o cinema era uma invenção sem futuro. Eles perceberam facilmente isso, mas estavam tão certos quanto errados. Certos, porque acharam que o cinema se tinha esgotado nos seus quadros - e, hoje, parece que de facto TUDO começa e acaba na estação de La Ciotat. Errados, porque o futuro da invenção cinema estava garantido pela sua capacidade infinita de se reinventar. A repetição é inevitável, mas saber repetir e fazer nascer dessa repetição uma identidade própria (uma variação, por muito ténue que seja, da gramática lumièriana-griffithiana), isso já é mais difícil e, quanto a mim, reside aí o principal desafio que se coloca a qualquer realizador com consciência do que está atrás de si - e do que pesa sobre os seus ombros... -, isto é, qualquer "autor".

CL: O cinema na televisão e o cinema em televisão. Pode-se dizer que existe, ou que já existiu, as duas situações? Em que medida?

LM: Tarantino diz que, com o digital, o cinema passou a ser uma forma de televisão em público. A imagem é feliz e terrível, mas talvez as duas linguagens estejam nesta altura preparadas para a "derradeira" fusão. Em tempo de grandes convergências multimediáticas, faz-se cinema como quem fazia televisão e faz-se televisão como quem fazia cinema. E estará errado quem se demitir de problematizar minimamente esta espécie de nova esquizofrenia (d)estrutural. Cineastas como Godard, Bergman e Fassbinder, filmando ora para o pequeno, ora para o grande ecrãs, aperceberam-se, antes de todos os outros possivelmente, destes caminhos que hoje percorremos. Se calhar as lamúrias de Soderbergh sobre o ter de passar o seu último filme na televisão não serão as lamúrias do Soderbergh de amanhã.

CL: Comenta a seguinte citação do realizador John Ford: "Qualquer pessoa pode realizar um filme, assim que conhecer os fundamentos. Realizar não é um mistério, não é uma arte. O principal sobre realizar é: fotografar os olhos das pessoas."

LM: É uma excelente frase de John Ford que me lembra aquela de Sergio Leone, segunda a qual "o principal" é saber como fotografar o rabo de um cavalo. Ou aquela de Jodorowsky: "não faço filmes com os olhos, mas com os meus testículos". Ou seja, não sei se o principal está nos olhos das pessoas, no rabo dos cavalos ou nos testículos do Jodorowsky. De qualquer maneira, todos estes três realizadores procuram dessacralizar o "fazer cinema" (não há mistério), mas acabam consciente ou inconscientemente por mistificar/mitificar os seus resultados, os seus efeitos..., desde logo através do exemplo que os seus cinemas nos dão. Aliás, é desde já curioso como uma frase que afirma que "realizar não é um mistério" pode ser tão sedutoramente misteriosa. Nesse sentido, ela é quase uma metáfora perfeita de  todo o cinema de Ford.

16.9.13

À Boleia (8)

Um convidado responde a questões nucleares ou essenciais sobre o cinema.
Entrevistado: Sofia Santos, autora do blogue girl on film.
Obrigado, Sofia, pela colaboração.

Caminho Largo: Como percepcionas, expressas e traduzes a qualidade ou não de um filme?

Sofia Santos: A resposta a esta pergunta não é fácil. Tenho total consciência de que não sou expert na matéria e sei que não sou ninguém para dizer que um filme é bom ou mau, que tem qualidade ou não. Limito-me a opinar. Mentiria se escrevesse que os meus gostos pessoais nunca interferem na perceção que tenho de um filme. Interferem e bastante. Tal como a simpatia ou antipatia por uma banda musical, por um clube de futebol, uma marca de relógios ou pelo cheiro de um perfume, as simpatias e os ódios também existem para com um filme.
Só há pouco tempo comecei a dar “notas” aos filmes. E mesmo assim com alguma dificuldade, sobretudo porque tenho noção que por vezes sou injusta ou então muito benevolente com certos filmes. A minha tabela vai do zero ao dez. Nunca dei um zero e também nunca dei um dez. Não se enganem, a nota é puramente criada e pensada por mim, de acordo com critérios pessoais, sem ligar às notas IMDb ou Metacritic
No entanto, na minha tabela quimérica de avaliação, tenho sempre em conta alguns elementos que considero serem factores determinantes para o gosto ou para a aversão sobre um determinado filme...
a) Gosto de fantasia, gosto de ficção cientifica, mas prefiro sempre um filme real. Uma história verossímil, credível, bem alicerçada.
b) Valorizo a transmissão da mensagem de forma clara. Não têm que existir diálogos profundos ou longos, não têm que ser cumpridas cronologias ou sequências narrativas, mas gosto de chegar ao fim do filme e percebê-lo.
c) No entanto, e quase em contradição com o que escrevi anteriormente, gosto de um fim irrequieto. Ou seja, gosto de um filme que me faça sair do cinema inquieta ou a pensar no que ficou em aberto. Poucos são os filmes que conseguem provocar (de forma correcta) esta sensação. Para perceberem melhor o que digo, falo, por exemplo, de um Trance de Danny Boyle.
d) Interpretações. Gosto de um actor/actriz que transmita emoções, sejam elas positivas ou negativas, como a alegria ou a tristeza.
e) A cinematografia - a fotografia, a luz, a cor.
f) Considero também determinante, o tempo – quer das cenas, quer dos diálogos ou silêncios. E já que mencionei “tempo”, os filmes não se medem aos palmos. Um filme longo pode ser um suplício, mas um filme curto pode ser igualmente castrador. Não há um tempo correcto ou ideal, mas há elementos mínimos a cumprir.
g) A banda sonora, o guarda-roupa e os cenários são elementos que muito aprecio e que considero determinantes para o sucesso ou fracasso do filme. Também o recurso à tecnologia é cada vez mais difícil de ignorar.
h) Valorizo a identificação com a história do filme, com alguma personagem, característica ou ideia.
No entanto, e apesar de considerar que os pontos que elenquei são determinantes, não faço questão de ter uma métrica rígida e inalterável. Tudo é passível de alterações e tudo depende muito do meu estado de espírito ou sentimentos.
Enquanto escrevia estas palavras, lembro-me de Million Dollar Baby, um filme especial, que me incomodou de tal modo que nunca fui capaz de escrever sobre ele, ou de o voltar a ver. A altura em que o vi não podia ter sido a pior e infelizmente marcou-me pela negativa. Assim, apesar da magnitude sentimental do filme, a minha nota iria sempre reflectir aquilo que o filme me fez sentir.

CL: No seu conjunto e na sua especificidade, um filme deve ser comparado a um hipotético livro associado? O cinema deve algo à literatura?

SS: Quando de uma adaptação se trata, tem obrigatoriamente que ser comparado. E, neste caso, comparar o filme ao livro pode ser uma desilusão ou uma surpresa. Recordo a adaptação do The Da Vinci Code ao cinema que nem sequer se pode comparar ao livro, pois o livro (apesar de todas as imprecisões históricas) supera-o a anos-luz. Mas também pode ser uma agradável surpresa adaptativa como aconteceu com The Girl with the Dragon Tattoo. Ou até mais ousadamente, a recente adaptação de Les Misérables de Vítor Hugo por Tom Hooper.
O cinema deve muito à literatura. E cada vez mais a literatura é influenciada pelo cinema. A relação entre as duas artes é vincada pela união ou pela dissidência.
Recordo-me das aulas de Estética, na universidade, em que Ingmar Bergman foi mencionado pela sua afirmação de que o cinema nada tem a ver com a literatura – uma declaração cada vez mais difícil de compreender ou aceitar, se tivermos em conta que dois terços do cinema norte-americano são adaptações literárias.
Penso que a palavra “dever” não será a mais correcta para perceber união/afastamento entre a Literatura e o Cinema. A palavra que une estas duas artes e que também as separa é só uma. É aquela de que ambas são compostas – a narrativa.

CL: A história da sétima arte, no seu largo e diversificado espectro, é fundamental para a idealização e para a produção de um filme? Em que medida?

SS: Se o Caminho Largo me permitir - a resposta a esta pergunta é muito simples: Hugo de Martin Scorsese

CL: A televisão e o cinema, para além de se influenciarem, devem-se acompanhar um do outro? Porquê?

SS: Influenciam-se obviamente, mas não têm que andar acompanhados ou criar laços de parceria. No entanto, um facto é incontornável - cada vez mais o mundo do cinema está a influenciar a televisão. A caixa mágica encontrou nas séries de televisão um potencial indiscutível. As séries são cada vez mais pensadas, mais estruturadas, mais semelhantes a um filme. Estas séries são, também elas, cada vez mais povoadas por estrelas de cinema, que encontram papéis dignos e que em nada envergonham a sua carreira cinematográfica – penso numa Glenn Close (em Damages) ou num Kevin Spacey (em House of Cards). Mas o papel inverso também acontece e também são muitos os actores de séries de televisão que migram para o cinema.
Não acho que deva ser obrigatória aquela moda que pareceu surgir com o fim do Twin Peaks ou de 24 de que o fim das séries devia ser contado nas salas de cinema. Muitos realizadores e argumentistas ainda não perceberam que o truque para uma série se tornar de “culto” está no saber parar. Mas – aqui entre nós - o cinema não pode apontar o dedo, sobretudo nestes últimos anos, em que remakes, prequelas e sequelas estão a ser usadas e abusadas.
O Caminho Largo que me desculpe a provocação, mas é fácil perceber como estes dois mundos, que aparentemente estão próximos, andam, de facto, ainda muito afastados um do outro. Para isso basta, por exemplo, constatar algumas guerras diplomáticas que acontecem no mundo da blogosfera, entre os blogs de cinema, os blogs de televisão e aqueles que são mistos (em que eu me incluo).
Assim, e tentando resumir, influenciam-se, mas não têm nem devem caminhar muito próximos. Para bem do Cinema e da Televisão.

CL: Comenta a seguinte citação do realizador Quentin Tarantino: "Adoro a violência. Às vezes eu acho que Thomas Edison inventou a câmara só para que pudéssemos filmá-la."

SS: Apesar de simpatizar muito com Quentin Tarantino e de achar que a sua forma de filmar a violência é muito interessante, não considero que esta afirmação do realizador seja a melhor ou a mais correcta. É sobretudo muito limitadora. A câmara deve filmar muito mais do que isso. Deve filmar um todo e não só uma característica. Sim, a violência pode ser bela, mas o silêncio de um olhar, um carinho, uma paisagem ou um diálogo, podem conseguir transmitir uma emoção tal, que nenhum tiro ou facada pode igualar.

9.9.13

À Boleia (7)

Um convidado responde a questões nucleares ou essenciais sobre o cinema.
Entrevistado: David Lourenço, autor do blogue O Narrador Subjectivo.
Obrigado, David, pela colaboração.

Caminho Largo: No cômputo geral o que privilegias mais num filme tendo em conta uma avaliação final?

David Lourenço: Interesso-me por personagens contraditórias ou instáveis, que nos piores momentos são motivadas ou paralisadas pelas suas melhores memórias, filmes sobre fé, onde se sente o peso das dúvidas e das certezas, ou sobre violência, como uns lhe resistem e outros a utilizam, gosto de realismo mágico e de planos-sequência… mas não me perturba dar uma nota alta a um filme que não tenha nada a ver com isto, se for bom no que tenta fazer. É essencial perceber do que gostamos e procurá-lo, esse toque pessoal é que separa um bom filme de uma obra-prima, contudo também é correcto recompensar a competência por si só. Fazer uma avaliação do que quer que seja implica uma grande versatilidade de conhecimento e, assim, a única solução para perceber o contexto, referências e afins de um filme e ao mesmo tempo definirmos uma identidade enquanto espectadores e críticos é ver filmes – muitos filmes.

CL: Em que sentido os planos, os movimentos de câmera e toda a filmagem em si determina o resultado ou a montagem de um filme? A qualidade do mesmo está mais dependente destes aspectos ou do argumento inicial?

DL: Durante a filmagem, a visão do realizador condiciona indelevelmente a imagem, mas é na sala de montagem que o registo fílmico adquire o significado pretendido. A primeira fase é a produção de um puzzle, a segunda é a resolução do puzzle. Em 2012 estive numa palestra da Sylvie Landra, editora frequente dos filmes de Luc Besson, onde, entre outras coisas, ela analisou vários dos seus trabalhos, explorando, mais à frente, como o mesmo material pode ser manipulado para obter resultados diferentes, por isso, partindo do princípio de que o realizador tem uma ideia clara do que pretende, parece-me mais fácil atingi-la mantendo uma relação de proximidade com o editor do filme (como Scorsese) ou assumindo ele mesmo essa função (como os irmãos Coen). Quanto ao argumento, a influência parece-me ser residual quando comparando com a efectiva captura da imagem ou o arranjo das imagens capturadas.

CL: Tendo em conta a sua subsistência e pertinência, por onde deverá o cinema mais enveredar, por autores ou por uma indústria?

DL: O que pessoal como David Fincher ou Christopher Nolan prova é que o cinema mais comercial pode ter um cunho próprio, relevo estilístico ou o mínimo de profundidade. Por outro lado, há muitos supostos autores que se entretêm a mamar subsídios para dar corpo a ideias estapafúrdias, basta lembrar que vivemos no país em que os contribuintes pagaram mais de meio milhão de euros para João César Monteiro fazer um filme sem imagem. Acho que este paradigma está em extinção, porque há autores dentro da indústria e indústria à volta de autores independentes, veja-se como ainda no ano passado o Amour do Michael Haneke custou 6,5 milhões de euros e rendeu mais do dobro. Por outras palavras, a questão é cada vez mais unicamente financeira, logo a responsabilidade é do público, que, num mundo ideal, devia preferir cinema com forma e conteúdo esclarecidos, independentemente da escala ou orçamento, ao invés de escapismo superficial ou diarreia intelectual.

CL: Existirá algo de objectivo na interpretação e contemplação do objecto artístico? Em que perspectiva a subjectividade no cinema adquire contornos inquestionáveis através de listas ou referências sempre semelhantes?

DL: A intemporalidade de um filme, o seu impacto ou a eficácia com que todos os que nele trabalharam conseguem, em conjunto, atingir um determinado efeito, podem ser consensuais, e nessa perspectiva percebo, por exemplo, que Psycho, The Godfather ou Citizen Kane venham sempre à baila quando se fala dos melhores de sempre, mas nunca são unânimes, porque a arte respira subjectividade, caso contrário seria ciência. A única semelhança entre arte e ciência é o respeito pela dúvida, mas numa a dúvida é o fim, na outra é o ponto de partida. Do cinema quero algo que satisfaça a minha sensibilidade e que meta o meu cérebro a funcionar. Como ninguém é igual e os gostos discutem-se (sim, acabo de usar um ditado e inverter outro na mesma frase), penso que qualquer defesa ou crítica a um filme é questionável, simplesmente concordo com umas e discordo de outras. O mesmo serve para as listas – se eu fizer uma dos meus filmes preferidos espero que seja a minha imagem.

CL: Comenta a seguinte citação do realizador Ingmar Bergman: "Filmes são sonhos, filmes são música. Nenhuma arte passa na nossa consciência da maneira que um filme passa, e vai directamente aos nossos sentimentos, mergulhando nos quartos escuros da nossa alma."

DL: Se houve alguém que percebia de quartos escuros foi o Bergman. Não há nada mais poderoso que uma imagem, é algo definitivo e, simultaneamente, passível de acordar as mais diferentes emoções em quem a vê.

2.9.13

À Boleia (6)

Um convidado responde a questões nucleares ou essenciais sobre o cinema.
Entrevistado: João Pinto, autor do site Portal Cinema.
Obrigado, João, pela colaboração.

Caminho Largo: Quais os critérios que te enquadram e te estruturam um filme no que à sua qualidade diz respeito?

João Pinto: Há um vasto grupo de critérios que utilizo para avaliar um filme, mas o principal é a imaginação. Não aprecio cópias nem repetições. Um filme pode até estar muito bem feito, mas perde de imediato todo o seu encanto e interesse se for uma cópia quase idêntica de um filme que já tenha visto. Não quero com isto dizer que abomino remakes, mas admito que subconscientemente exijo muito mais de um remake do que qualquer outro tipo de filmes porque, para um remake ser verdadeiramente apelativo, tem de superar o filme original e apresentar algumas diferenças importantes que destaquem a criatividade dos seus criadores e consigam diferenciar o remake do produto original. É claro que também dou muita importância ao engenho e à coerência do argumento, porque um filme com um argumento confuso e pobremente construído é, geralmente, um filme para esquecer. A parte técnica (cinematografia, banda sonora, efeitos visuais e sonoros, guarda-roupa, caracterização, montagem, edição e realização) também é muito importante para mim, porque valorizo um filme que consiga cativar os meus olhos e ouvidos, mas que acima de tudo consiga apoiar e valorizar o argumento com uma componente técnica de qualidade.

CL: Onde reside a diferença e a divisão entre os aspectos técnicos e os aspectos artísticos de um filme? Será essa distinção linear ou dependente?

JP: Os dois estão profundamente ligados, porque todos os aspetos técnicos de um filme requerem algum tipo de capacidade artística por parte das pessoas que estão por detrás dessa componente técnica. Se não existir algum tipo de arte e criatividade por detrás da técnica, então o resultado final não terá qualquer tipo de sentimento, carácter ou conteúdo. É por isso que defendo que tem de existir uma espécie de ratio lógico entre a técnica e a arte, que equilibre o sentido de ambos os aspetos e ajude os seus criadores a não cometerem excessos desnecessários que acabem por destruir o produto final. Tem por isso de haver pelo menos um bocado de arte no seio da técnica, porque senão esta não passa de uma coisa fria e robótica que não acrescenta nenhum valor ao filme. São os aspetos artísticos que promovem a diferença e a criatividade dos aspetos técnicos, mas é claro que estes não são sinónimos. Os aspetos artísticos fazem parte do criador e representam a sua exteriorização pessoal no seio do filme, já a parte técnica tem sempre de existir e, muitas vezes, pode não corresponder aos desejos do seu criador, mas mesmo nestes casos há sempre um pouco de arte na sua construção, mesmo que seja a arte de outra pessoa.

CL: A saúde e a evolução do cinema está no equilíbrio entre a sua indústria e os seus autores? Qual das duas direcções deve ser a mais dominante?

JP: Nenhuma. Num mundo perfeito a industria e os autores teriam um equilíbrio perfeito de vontade e ambição que, quase de certeza, culminaria numa sétima arte mais funcional, aberta e criativa, mas é claro que esse mundo é utópico. A indústria será sempre a direção mais dominante do cinema, porque é ela que tem o dinheiro que move os destinos da sétima arte, mas a força criativa está nos autores. São eles que alimentam a indústria com o seu trabalho e ideias, mas todos eles, mesmo os mais conceituados, estão sujeitos à vontade e à ambição da máquina industrial, que tem nas suas mãos o destino das suas ideias e sonhos. É injusto, mas pode ser que as novas tecnologias mais funcionais e baratas ajudem os autores a conquistar alguma necessária independência face à indústria, que force os seus responsáveis a reavaliarem os moldes atuais do negócio.

CL: Em que medida o cinema pode auxiliar e sustentar o quotidiano e a sociedade em geral?

JP: Tal como todas as áreas e ramos culturais, o cinema é essencial para o normal funcionamento da sociedade. Posso recorrer aos clichés culturais e dizer que o cinema é um ótima ferramenta de educação e entretenimento das massas, mas acho que o cinema vai mais além que isso, porque cumpre uma imensidão de outras funções igualmente importantes. É uma nobre forma de arte e cultura que ajuda a dinamizar o intelecto, a criatividade e a rotina da sociedade por um custo bastante acessível a praticamente todos os seus setores sociais. Para além do evidente impacto cultural, o cinema também pode ter um importante impacto económico junto da comunidade, porque pode ajudar a dinamizar múltiplos setores da economia, seja através da promoção de determinados ramos e valores, seja através da divulgação de costumes, regiões e ideias muito próprios. O cinema é um poço de criatividade, engenho, rendimento e diversão que é, muito provavelmente, uma das poucas áreas que a esmagadora maioria do povo pode consumir a um preço acessível e, acima de tudo, compreender os seus objetivos. É por isso que o cinema é preponderante na identidade cultural de uma sociedade e absolutamente fundamental no seu quotidiano.

CL: Comenta a seguinte citação do realizador Roman Polanski: "Cinema deve fazer-te esquecer de que estás sentado numa sala."

JP: Sou obrigado a concordar, mas também sou obrigado a contestar a generalidade da citação. Se um filme conseguir transportar o espetador para fora da sala de cinema e para dentro da história que está a retratar, então é porque é um filme fantástico. O problema é que nem todos os filmes são assim. É por isso que acho que o cinema é uma apelativa forma de arte e entretenimento que estimula a nossa imaginação de uma forma subjetiva e dependente do valor do produto e da mente do espetador. A magia do cinema reside na sua capacidade de estimular os nossos sentidos, o nosso cérebro e os nossos sonhos, mas infelizmente nem todos os filmes conseguem fazer isto, mas não deixam por isso de fazer parte da família do cinema, são apenas maus exemplos dentro desta forma de arte que, se for bem-feita, tem o poder de nos transportar para mundos e histórias completamente diferentes que nos fazem esquecer onde estamos a ver o filme, seja numa sala de cinema ou em casa. É essa uma das várias qualidades do cinema, mas é claro que nem todas as formas de cinema têm este fantástico poder.