29.11.12

Bandas Sonoras (3)

El Laberinto del Fauno (2006), Guillermo del Toro


Composição orquestrada por Javier Navarrete em mais uma parceria com Guillermo del Toro. Talvez uma das melhores bandas sonoras da última década, detentora de uma linearidade e densidade extasiantes. Em crescendo, a música como que escreve o texto, imprime o ritmo e conduz à imaginação, sempre nas proporções e tempo certos e, logo, em sintonia com o que assistimos. A simbiose perfeita entre o visual (real e imaginário) e o sonoro. No fim de contas, é sobretudo de ilusão e fantasia que se faz música, e é de música que a imaginação mais depende ou mais carece de forma a atrair o improvável.

27.11.12

Citações (4)

To Kill a Mockingbird (1962), Robert Mulligan


Atticus FinchIf you just learn a single trick, Scout, you'll get along a lot better with all kinds of folks. You never really understand a person until you consider things from his point of view... Until you climb inside of his skin and walk around in it.

25.11.12

1 Tema, 3 Filmes (2)

Racismo

The Birth of a Nation (1915)
O Nascimento de Uma Nação, D.W. Griffith

To Kill a Mockingbird (1962)
Na Sombra e no Silêncio, Robert Mulligan

The Color Purple (1985)
A Cor Púrpura, Steven Spielberg

por Jorge Teixeira e Pedro Teixeira

24.11.12

Hable con Ella (2002)

Fala com Ela, Pedro Almodóvar


Hable con Ella reflecte tanto a versatilidade de Almodóvar quanto a sua habilidade invulgar no tratamento de cenários e de ambientes, minimizados neste caso. Transparece uma exímia capacidade de evidenciar, em qualquer aspecto do filme, o seu propósito, o seu tema-base (o sub-texto é visível tanto num plano como numa cena inteira, cromaticamente delineados). Estamos, portanto, no universo do autor, exuberante como sempre, e perante uma obra que nos fala das semelhanças e da completa unidade que reside entre homens e mulheres. As diferenças fazem-se no carácter, na personalidade e não no género específico e (in)questionável. Falamos pois e acima de tudo em seres-humanos e na complexidade emotiva que daí advém.

Esta dualidade entre o masculino e o feminino é tema recorrente no cineasta. E embora ela seja evidente pelo assunto e pela  abordagem em si, acaba por nunca se demarcar. Bem pelo contrário, na medida em que verdadeiramente nunca existe, antes se desconstrói em estereótipos menos comuns. Ou seja, há como que uma diluição de agentes, que naturalmente se atraem entre si, de que resultam produtos desconhecidos e imprevisíveis, na sua essência semelhantes aos primeiros, mas libertos e desconstruídos das limitações e influências culturais. Na prática, e no filme, essa desconstrução surge na sensibilização do homem e numa certa virilidade e posição de poder que a mulher assume (na arena por exemplo). Contrabalançando de imediato os papéis que cada um presumivelmente assumiria na sociedade. Mais que trocar de lado, equilibra pré-disposições e questiona, insinua e confunde. Os lados baralham-se e toda e qualquer conceito pré-definido é subvertido, tendo logo à partida uma vantagem - a surpresa que pode advir de um argumento destes ou a fuga de narrativas estabelecidas à priori nas suas emoções, nas suas mensagens e no seu rumo, são enormes. Facto que se confirma, atendendo à constante variedade e ritmo alternados, bem como à volatilidade das acções praticadas.

Apesar desta dualidade explorada, o objecto de maior enfoque é o feminino (de resto como é habitual no realizador espanhol). Ás tantas quase como se a existência do elemento masculino no filme servisse apenas como pretexto e suporte à exploração do mente feminina, fértil em imaginação e mistério. Fantasiosa, tal qual os sonhos. A figura humana por excelência, por assim dizer, e logo o meio para atingir a compreensão, o entendimento da morte, a fragilidade e a dureza do tempo, ou o fim de tudo. O todo que não se esgota mas que converge para dentro, para o interior. Daí que o mais importante, no fim, seja o outro, o pólo actrativo, ou simplesmente as relações, e nunca qualquer exterioridade a isso. O cuidado diário e a obsessão por algo inanimado (em todas as cenas no hospital) é sinal disto mesmo, do poder que um Ser tem pelo outro ou da influência e dependência que surge, inadvertidamente, da sistemática e habitual convivência.


Argumento poderosíssimo, pois então, de uma fragrância e atrevimento igualmente soberanos. Mas a obra, tal como a vida, não se esgota a ela mesma, conflui e abrange outras áreas, outras artes - música, teatro e dança. Todas elas entrelaçadas no decorrer da narrativa, ora na sincronia do movimento, da dança (as personagens principais acabam por se relacionar todas umas com as outras, directa ou indirectamente), ora na entrega às emoções, elevadas com a banda sonora. Emoções estas um pouco dissonantes em Almodóvar, tendo em conta que são, na sua maioria, contidas, subtis e harmoniosas, excluindo nesse sentido um expectável ataque de nervos, que bem poderia ter ocorrido, não fosse estarmos num filme algo singular dentro do espectro Almodovariano.

Uma palavra especial para a montagem e para a realização, construídas à semelhança do argumento - imprevisíveis na sua forma e autênticas no seu conteúdo. Puras, e é de pureza que nos lembramos quando visualizamos o filme dentro do filme, o cinema mudo como alicerce na condução de ideias. Destaque ainda para o enquadramento geral de toda a película, que nos vai transportando pautada e desordenadamente para o desenlace final, sem nunca nos fazer esquecer do essencial, da parte humana intrínseca e por isso altamente atractiva. Um filme extraordinariamente belo, intenso e complexo, de tão simples que aparenta ser. 

"Nothing is simple. I'm a ballet mistress, and nothing is simple."
Katerina Bilova


Jorge Teixeira
classificação: 9/10

13.11.12

Citações (3)

Jurassic Park (1993), Steven Spielberg


Dr. Ian MalcolmGod creates dinosaurs. God destroys dinosaurs. God creates man. Man destroys God. Man creates dinosaurs.
Dr. Ellie SattlerDinosaurs eat man. Woman inherits the earth.

11.11.12

Oldboy (Oldeuboi) (2003)

Oldboy - Velho Amigo, Chan-wook Park


Estamos talvez perante uma das melhores histórias de que o cinema se serviu, genialmente preparada, cozinhada e manipulada num filme que escasseia os elogios que lhe poderemos dar. Numa obra que nem precisava de grande arrojo no plano da realização, detendo esta maravilha de argumento, é-lhe ainda adicionada um esquema e (des)organização na filmagem a todos os níveis brilhante. Chan-Wook Park é o hábil manipulador das sensações e desta constante instabilidade que se sente no decorrer da história e do encadeamento da trama, ao ponto de passar uma mensagem terrivelmente violenta e forte ao espectador, tornando-se inclusive ela própria algo estranha, incompreensível e, porque não, do outro mundo.

Desde o início, é claro e ao mesmo tempo incerto, para onde Park nos vai levar, para onde aquela rede de vingança, traição e sentimentos ocultos nos vão conduzir. Os olhos do protagonista, numa performance arrebatadora, dizem tanto e tão pouco, e nós, testemunhas, indefesos e rendidos, vê-mo-nos cedo a acompanhar e a sentir todos os passos dados por tal homem, e de arrasto, por situações que lhe vão (en)calhando, um pouco sem se perceber porquê. A claustrofobia, o medo, a solidão e a própria condição e existência humanas são temas bem evidentes aqui, que extrapolam inevitavelmente para fora do ecrã. Daí que as interrogações são mais que muitas e as respostas quase nenhumas, e durante muito tempo a confusão e a incompreensão não diminuem. O enigma vai permanecendo, mas sempre em doses apelativas e nunca frustantes, tanto quanto a desconfiança da resolução que presumivelmente se traduzirá à nossa frente.


Por outro lado, e paradoxalmente, vamos edificando uma espécie de confiança na expectativa e na própria história em si, quase como se fosse impossível nos defraudarem com o levantamento do véu, com a solução daquele quebra-cabeças, cada vez menos importante. Isto porque o deleite visual, sonoro e interpretativo é constante, atingindo mesmo patamares de rara imprevisibilidade, diversidade e originalidade. Tudo se constrói, física e psicologicamente, de forma surpreendente e por demais virtuosa, pelo que se compreende que às tantas já estamos divididos num equilíbrio entre o prazer de assistir a tão belas sequências e entre tentar desvendar o propósito deste jogo, digamos.

Talvez já não interesse se o final é de ficar de boca aberta, talvez o que importe mesmo é a reflexão e as sub-camadas de um puzzle que se encaixa diante de nós. O interessante, para além da inequívoca qualidade dos efeitos narrativos, está no reflexo e na força com que somos atingidos por eles mesmos, pela mensagem central e marginal, ou pelos temas de ódio, maldade, compaixão, lembrança e esquecimento. O passado estará sempre na mesma balança que o futuro, numa espécie de peso ideal, e a esperança é tão necessária quanto a verdade e a culpa dos actos praticados.


Destaque para a montagem de toda a película, provavelmente o factor decisivo, unificador e de classe para a excelência do projecto final, bem como de uma cena em particular, o plano-sequência da luta entre o personagem principal e uns quantos (muitos) adversários, em que a câmara assume vontade própria, desenhando e programando a acção num estilo impróprio e em ângulos, no mínimo, irreverentes e audazes, e no máximo, de uma criatividade, capacidade e versatilidade imensas. Um exímio exercício, de um formalismo e confluência de géneros assaz inovadores. O grafismo e algumas técnicas em câmara lenta são igualmente muito bem utilizados e enquadrados na intensa narrativa, neste exemplo mas de um modo geral.

Grande parte das cenas são ainda, aliás, de uma ambiguidade desarmante e, não menos, inquietante. Detentoras, por vezes e em simultâneo, de uma contenção e brutalidade sem precedentes. Para isso a fotografia e toda a atmosfera do filme estão à altura, a condizer e a respirar entre si e ainda adequadas aos níveis de emoção presentes. Tal como a banda sonora realça e sublinha parágrafos certeiros do guião. Então os momentos finais são qualquer coisa de irreal, de tão poderosos, simples e aflitivos que se tornam, confirmando e arquivando este Oldboy como uma peça de arte em bruto, de um grau de perfeição ímpar.

"Your gravest mistake wasn't failing to find the answer. You can't find the right answer if you ask the wrong questions."
Woo-jin Lee


Jorge Teixeira
classificação: 9/10

4.11.12

1 Tema, 3 Filmes (1)

Sátira à Guerra

The Great Dictator (1940)
O Grande Ditador, Charles Chaplin

To Be or Not to Be (1942)
Ser ou Não Ser, Ernst Lubitsch

Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (1964)
Dr. Estranho Amor, Stanley Kubrick

por Jorge Teixeira e Pedro Teixeira